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Alocação de Ativos

Edição #061

O Aporte Que Se Ajusta ao Mercado

A curva-alvo dita o valor de cada mês: a queda pede aporte maior, a alta pede aporte menor, e nenhum mês depende de previsão.

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Alocação de Ativos 

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Alocação de Ativos
 
 
I

O Princípio

 

Todo mês, no dia do salário, você transfere o mesmo valor pra corretora e compra a carteira sem olhar o preço. O aporte fixo é simples e funciona, mas trata o mês de pânico e o mês de euforia como se fossem idênticos, pagando o preço que estiver na tela.

O value averaging parte de outra pergunta. Em vez de decidir quanto entra por mês, você decide quanto a carteira deve valer em cada mês, e desenha uma curva de crescimento-alvo: cinco mil em janeiro, seis mil em fevereiro, sete mil em março, degrau a degrau.

O aporte deixa de ser um número fixo e vira uma consequência. No dia marcado, você compara o valor real da carteira com o ponto da curva daquele mês. A diferença entre os dois é o aporte. Nada além da distância até o plano entra na conta.

Quando o mercado cai, a carteira fica abaixo da curva e a diferença aumenta, então o aporte cresce sozinho e compra mais cotas com preço menor. Quando o mercado sobe, a carteira se aproxima do alvo por conta própria e o aporte encolhe, às vezes até zero.

 

No aporte fixo, o preço do dia decide quantas cotas você leva. Na curva-alvo, a distância até o plano decide quanto dinheiro você coloca.

 

O método tem nome e sobrenome. Michael Edleson, então professor de finanças em Harvard, formalizou a regra no fim dos anos oitenta e publicou o livro Value Averaging em 1991, comparando a técnica com o aporte fixo em décadas de dados do mercado americano.

A vantagem está no que a fórmula elimina. Comprar mais na baixa e menos na alta é o conselho mais repetido do mercado, e o menos seguido, porque exige coragem na hora errada. A curva transforma o conselho em aritmética: o tamanho do aporte já nasce contrário ao humor do mercado.

Cada método cobra um músculo diferente. O aporte fixo testa a disciplina de repetir o gesto todo mês por anos. O value averaging testa o estômago de escrever o maior cheque do ano justamente no mês em que o noticiário só fala em queda.

Nada muda na escolha dos ativos. A curva não indica o que comprar, indica quanto comprar a cada mês. É uma regra de tamanho de aporte por cima da carteira que você já tem, não uma tese nova de investimento.

 
 
⚖⚖⚖
 
 
II

A Matemática

 

A regra cabe numa linha: aporte do mês igual a valor-alvo da curva menos valor real da carteira. Se a carteira vale menos que o alvo, a diferença entra como compra. Se vale mais, o aporte daquele mês diminui até o limite de ficar em zero.

Uma simulação de quatro meses mostra a mecânica. A curva-alvo cresce mil reais por mês, o mercado cai dez por cento em dois meses seguidos e depois sobe vinte e cinco por cento. A tabela compara o alvo, o valor real e o aporte que a regra exige.

 
Mês e cenárioAlvo da curvaCarteira antes do aporteAporte do mês
Mês 1, ponto de partidaR$ 1.000R$ 0R$ 1.000
Mês 2, mercado cai 10%R$ 2.000R$ 900R$ 1.100
Mês 3, mercado cai mais 10%R$ 3.000R$ 1.800R$ 1.200
Mês 4, mercado sobe 25%R$ 4.000R$ 3.750R$ 250

Simulação ilustrativa com curva-alvo crescendo R$ 1.000 por mês, não recomendação. O aporte de cada mês é a diferença entre o alvo e o valor da carteira depois do movimento do mercado, e o aporte fixo equivalente seria de R$ 1.000 nos quatro meses.

Nos meses dois e três, a queda abre distância entre a carteira e a curva, e o aporte sobe pra mil e cem e depois mil e duzentos. O dinheiro extra entra exatamente quando a cota está mais barata, sem nenhuma previsão envolvida, só a diferença fazendo o serviço.

No mês quatro, a alta de vinte e cinco por cento faz o mercado trabalhar por você. A carteira quase alcança o alvo sozinha e a regra pede só duzentos e cinquenta reais. Quem aporta fixo teria colocado mil reais inteiros comprando no preço mais alto da série.

 

Quando o mercado sobe, a curva segura o seu dinheiro. Quando o mercado cai, a curva empurra o seu dinheiro. As duas pontas trabalham a favor do preço médio.

 

O efeito acumulado aparece no custo médio por cota. Nas simulações publicadas pelo próprio Edleson, o value averaging entregou custo médio de compra menor que o aporte fixo na maior parte das janelas testadas, porque concentra as compras nos períodos de preço baixo.

O preço da vantagem é a imprevisibilidade do caixa. Numa queda longa, a curva pede aportes crescentes por vários meses seguidos, às vezes justamente quando a renda da casa também está pressionada. Sem uma reserva separada pra financiar esses meses, o plano quebra no meio.

No sentido oposto, uma alta longa pode deixar a carteira acima da curva. A versão original do método mandaria vender o excesso, o que gera imposto e custo de transação. Na prática, a maioria dos praticantes apenas zera o aporte do mês e deixa a curva alcançar a carteira.

Existe ainda um limite de escala. Quando o patrimônio fica muito maior que o aporte mensal, a oscilação da carteira passa a ser maior que qualquer aporte, e a regra perde a força. O value averaging rende mais na fase de acumulação, enquanto o aporte ainda move o ponteiro.

 
 
⚖⚖⚖
 
 
III

A Aplicação

 

Comece desenhando a curva. Defina o valor inicial e um degrau mensal realista, algo próximo da mediana do que você consegue aportar, não do seu mês recorde. Curva ambiciosa demais vira cobrança impagável na primeira queda mais longa do mercado.

Escolha um dia fixo do mês e transforme a operação em rotina de dez minutos. Abra a carteira, anote o valor total, subtraia do alvo do mês e aporte a diferença. Nenhuma decisão é tomada na hora, o plano inteiro já foi decidido no desenho da curva.

Monte o colchão do plano. Nos meses em que a regra pedir menos que o degrau, a sobra não vira consumo: vai pra uma reserva em renda fixa com liquidez diária. É esse caixa que paga os aportes maiores quando a queda vier, sem tocar no orçamento da casa.

 

O colchão é parte do método, não sobra de mês bom. Sem ele, a curva pede na queda um aporte que o seu salário não cobre.

 

Estabeleça um teto de aporte antes de começar, algo como o dobro do degrau mensal. Se uma queda funda pedir mais que o teto, aporte o teto e deixe o resto pro mês seguinte. O limite protege o orçamento e ainda preserva a lógica de comprar mais na baixa.

Aplique a curva na fatia de risco, não na carteira inteira. A parcela de ações ou de fundos de índice é onde o preço oscila e a regra tem o que explorar. A renda fixa da carteira não precisa de curva, ela já cresce em linha quase reta.

Revise o degrau uma vez por ano, de preferência junto com a revisão da sua renda. Um degrau desenhado dois anos atrás fica fácil demais depois de aumentos e promoções, e uma curva frouxa devolve o método ao piloto automático que ele veio substituir.

Evite usar a regra em ação individual. Uma queda de cinquenta por cento num índice diversificado costuma ser ciclo, uma queda igual numa única empresa pode ser o começo da falência. A curva só deve aumentar a dose de um ativo que sobrevive ao tempo.

Se a exigência de aportar mais no mês de pânico parecer pesada demais, o aporte fixo segue sendo um plano excelente. O ganho do value averaging só existe pra quem cumpre a regra na queda, e o melhor método continua sendo o que você sustenta por dez anos.

 

O aporte fixo protege você da preguiça. A curva-alvo protege você do preço. A régua certa é a que você consegue seguir na pior semana do mercado.

 
 

Invista com princípios.

 
 

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💬 Comentários da Comunidade

Nunca tinha entendido por que meu prefixado aparecia no vermelho sendo do governo. Agora fez sentido.

Marcelo A. · ma****@gmail.com · verificado

🧠 Quiz da edição

Segundo o texto, o que define o tamanho do aporte de cada mês no value averaging?

AO preço da cota no dia do aporte
BA diferença entre o valor-alvo da curva e o valor real da carteira
CA média móvel de doze meses do índice
DO percentual fixo do salário destinado a investir

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