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Alocação de Ativos

Edição #064

A Linha d'Água do Seu Fundo

A taxa de performance só nasce acima de um referencial, a marca d'água impede a cobrança repetida, e as duas camadas juntas decidem o que chega na sua conta.

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I

O Princípio

 

A lâmina do fundo traz dois números lado a lado, e só um deles costuma ser lido com atenção. Taxa de administração, dois por cento ao ano. Taxa de performance, vinte por cento do que exceder o CDI.

A primeira linha assusta porque é fácil de imaginar: dois por cento do seu dinheiro saem todo ano, com o fundo subindo ou caindo. A segunda passa como detalhe técnico, uma condição que só valeria em ano bom.

A leitura mais comum é que a segunda linha é justa por natureza. Se o gestor só cobra quando entrega ganho, o interesse dele estaria alinhado com o seu, e o custo apareceria apenas quando houvesse motivo.

O alinhamento existe, mas é parcial. A administração incide sobre o patrimônio inteiro, todo dia útil. A performance incide sobre a parte boa do resultado, exatamente a parcela que justificava sair da renda fixa simples.

 

A administração cobra do bolo inteiro. A performance cobra da fatia que fez você escolher aquele fundo.

 

A mecânica da cobrança tem três peças, e as três aparecem no regulamento: o referencial, o percentual e a marca d'água. O referencial diz a partir de onde o ganho conta, o percentual diz quanto dele vai pro gestor, e a marca d'água diz quando a régua é reiniciada.

O padrão brasileiro é vinte por cento sobre o que passa do referencial, com cobrança no mínimo semestral. A periodicidade veio da norma da CVM e o percentual virou costume de mercado, repetido de fundo em fundo.

O referencial muda conforme a classe. Multimercado costuma usar o CDI, fundo de ações costuma usar o Ibovespa ou o IPCA somado a um juro real, e fundo de crédito costuma usar um percentual do CDI.

A escolha do referencial não é detalhe de rodapé. Ela define o que o gestor precisa entregar antes de começar a cobrar, e um referencial baixo transforma o movimento normal do mercado em performance faturada.

O caso clássico é o fundo de ações que cobra performance sobre o CDI. Numa bolsa em alta de trinta por cento com o CDI em dez, o gestor leva vinte por cento de vinte pontos que o índice teria entregado sozinho.

 
 
⚖⚖⚖
 
 
II

A Matemática

 

A primeira parte da conta é a marca d'água, e ela se entende melhor com uma cota na mão. A cota vale um real, o fundo cai vinte por cento num ano ruim, e ela desce pra oitenta centavos.

No ano seguinte o fundo sobe vinte e cinco por cento e a cota volta pro um real. O cotista está no zero a zero, com dois anos de espera e nada de ganho no bolso.

Sem a marca d'água, o gestor cobraria performance sobre a alta de vinte e cinco por cento, um resultado que apenas desfez o prejuízo. A linha d'água proíbe a cobrança dupla: ela só volta a valer quando a cota supera o topo anterior.

A marca não fica parada, e essa é a parte que costuma escapar. Nos fundos com referencial, ela sobe junto com o CDI enquanto a recuperação não vem, então o topo a ser superado é maior do que o topo do dia da queda.

A segunda parte da conta é o tempo. Uma camada de taxa não custa apenas o que ela recolhe num ano, custa também o que aquele valor renderia se tivesse ficado na cota, e dez anos deixam a diferença visível.

A simulação abaixo acompanha cem mil reais por dez anos num fundo com as duas camadas, e compara o resultado com o CDI puro do mesmo período.

 
Linha da contaR$ 100 mil em 10 anosO que o número mostra
CDI acumuladoR$ 259 milO que a renda fixa simples entregaria sozinha
Fundo bruto, 14% ao anoR$ 371 milResultado do gestor antes de qualquer taxa
Taxa de administração, 2%menos R$ 60 milCobrada sobre o patrimônio, subindo ou caindo
Taxa de performance, 20%menos R$ 11 milSó sobre o que passou do referencial
Fundo líquidoR$ 300 milO que chega na conta do cotista
Excedente que ficou com vocêR$ 40 milDe R$ 111 mil gerados acima do CDI

Simulação ilustrativa, sem caráter de recomendação: CDI a dez por cento ao ano, fundo com quatorze por cento brutos ao ano, administração de dois por cento e performance de vinte por cento sobre o excedente. Rentabilidade passada não garante resultado futuro.

Repare na última linha. O gestor produziu cento e onze mil reais acima do CDI e o cotista ficou com quarenta mil, pouco mais de um terço do excedente que motivou a aplicação.

Os setenta e um mil restantes mudaram de dono. Sessenta mil foram pra administração e onze mil pra performance, e a distância entre os dois números explica por que a segunda camada passa despercebida.

A administração parece maior porque incide sobre tudo, todo ano, e leva junto o juro que aquele valor renderia até o fim. A performance parece pequena porque só nasce quando existe excedente, e o excedente do exemplo é modesto.

 

Vinte por cento do excedente parece pouco enquanto o excedente é abstrato. Em dez anos ele é o único motivo de o fundo existir.

 

Troque o gestor por um melhor e o peso muda de lugar. Num fundo que entrega dezoito por cento brutos com o mesmo CDI, a performance sozinha leva quarenta e quatro mil reais em dez anos, quatro vezes o valor do primeiro cenário.

O desenho é intencional: quanto maior o acerto, maior a fatia que a segunda camada recolhe, e é assim que ela remunera quem entrega de verdade. O problema começa quando o acerto não foi do gestor.

É aí que o referencial baixo aparece na conta. Se o fundo cobra sobre o CDI e investe em bolsa, boa parte do excedente veio do mercado, e vinte por cento de um resultado alheio saem do bolso do cotista.

A régua honesta compara o fundo com a alternativa passiva da mesma classe. Fundo de ações se mede contra um índice de ações, com o custo de um ETF na outra ponta, e nunca contra a taxa básica de juros.

 
 
⚖⚖⚖
 
 
III

A Aplicação

 

A checagem cabe em três números anotados antes de aplicar: a taxa de administração, o percentual de performance e o nome exato do referencial. Os três estão na lâmina e no regulamento, na mesma página.

O nome exato pesa mais que o percentual. Cem por cento do CDI, IPCA mais seis por cento e Ibovespa são réguas diferentes, e a mesma taxa de vinte por cento aplicada sobre cada uma produz contas que não se parecem.

Depois do referencial vem a frequência da cobrança. Semestral é o padrão, e período mais curto merece leitura atenta do regulamento, porque encurtar o intervalo multiplica as chances de cobrar num pico que depois se desfaz.

 

Um referencial que a própria classe do fundo bate sozinha não é referencial. É uma linha de partida rebaixada.

 

A terceira checagem é onde a cota está em relação à marca d'água. O histórico de cota mostra o topo anterior, e a distância entre ele e o valor de hoje é o tamanho da janela sem cobrança de performance.

Quem entra num fundo bem abaixo do topo pode pegar carona na janela, e o método define se pega. Parte dos fundos aplica a linha d'água à cota do próprio fundo, parte faz ajuste individual por cotista, e o regulamento diz qual dos dois vale.

A janela tem outro lado. Gestor longe da marca d'água passa meses trabalhando sem a segunda receita, e vale conferir se a estratégia continua a mesma ou se o risco subiu na tentativa de recuperar o terreno mais rápido.

Ausência de taxa de performance também não é virtude automática. Fundo indexado e ETF cobram só administração porque não prometem superar referencial nenhum, e cobrar performance ali seria a distorção.

A comparação final é sempre entre líquidos. Coloque lado a lado o retorno do fundo depois das duas camadas e o retorno da alternativa passiva depois do custo dela, no mesmo período, e a escolha aparece sozinha.

Duas perguntas resolvem a decisão na hora de aplicar. Qual é o referencial e ele combina com a classe do fundo, e onde está a marca d'água hoje em relação à cota que você vai comprar.

 

A taxa de performance não é cara nem barata sozinha. Ela é o preço de um referencial, e é o referencial que decide se o preço vale.

 
 

Invista com princípios.

 
 

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💬 Comentários da Comunidade

Nunca tinha entendido por que meu prefixado aparecia no vermelho sendo do governo. Agora fez sentido.

Marcelo A. · ma****@gmail.com · verificado

🧠 Quiz da edição

Segundo o texto, o que a linha d'água impede?

AQue a taxa de administração seja cobrada em anos de queda do fundo
BQue a performance seja cobrada de novo sobre um ganho que só desfez uma perda anterior
CQue o gestor escolha um referencial abaixo do CDI
DQue a cota do fundo caia abaixo de um real

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