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A Taxa Que Some no Dia do Vencimento
Travar 13% ao ano por dois anos parece resolvido até o dinheiro voltar inteiro para uma tela que agora oferece 8,50%.
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O dia em que o contrato acaba e a taxa recomeça
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O aplicativo avisa às sete da manhã: crédito de R$ 255.380 na conta corrente. É o CDB de dois anos que venceu, principal mais juros, os 13% ao ano que pareceram generosos no dia da aplicação e continuaram generosos até a última madrugada do contrato.
Na mesma tela, três linhas abaixo do aviso, a lista de aplicações disponíveis hoje. O melhor CDB de dois anos do dia paga 8,50% ao ano. Não houve perda, não houve calote, nenhum número apareceu em vermelho, e mesmo assim o dinheiro que voltou tem quase cinco pontos a menos de rendimento pela frente.
O nome do fenômeno é risco de reinvestimento, e ele é o espelho do risco de marcação a mercado. Os dois se comportam de forma oposta: a marcação dói enquanto o título corre e desaparece para quem segura até o fim, o reinvestimento não dói enquanto o título corre e cobra a conta inteira no dia em que ele acaba.
A razão de quase ninguém enxergar está no formato do extrato. O extrato mostra o que entrou: rendimento bruto, imposto retido na fonte, valor creditado. Ele não tem uma linha chamada taxa que deixou de existir, porque a taxa que sumiu nunca foi dinheiro do investidor, foi apenas a condição vigente dois anos antes.
A mordida cresce quando todos os vencimentos caem na mesma data. Cem por cento do dinheiro volta para a mão no mesmo dia, encontra uma única taxa e fica preso a ela pelo prazo seguinte inteiro. A carteira deixa de trabalhar com a média de várias condições e passa a depender de uma aposta só, decidida por um calendário que ninguém montou de propósito.
Antes de desenhar a escada que dilui o problema, vale entender por que ele é estrutural e não azar. A mecânica está escrita no formato do próprio título de renda fixa, e o formato explica quase tudo que aparece depois.
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I O Princípio
O espelho do risco de marcação
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Todo título de renda fixa é um contrato com data de encerramento. Enquanto ele corre, a taxa combinada está protegida por escrito. No dia do vencimento a proteção termina, o dinheiro volta e precisa de um contrato novo, negociado nas condições daquele dia. |
O risco de reinvestimento é exatamente essa passagem. Não é o risco de perder o principal, nem o risco de o emissor deixar de pagar. É o risco de o dinheiro que volta encontrar uma taxa pior do que a taxa que acabou de terminar. |
A mecânica aparece antes do vencimento em qualquer papel que pague cupom. Um título com juros semestrais devolve dinheiro duas vezes por ano, e cada devolução é uma renovação em miniatura. Se a taxa caiu, o cupom rende menos do que a conta original supunha. |
Papel de pagamento único concentra tudo no fim. Um CDB que só devolve no vencimento elimina as renovações pequenas e deixa uma renovação só, grande, na data final. |
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A marcação a mercado cobra quando os juros sobem e o investidor precisa vender. O reinvestimento cobra quando os juros caem e o investidor precisa comprar de novo. |
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O espelho fica visível com os dois riscos lado a lado. Juros em alta derrubam o preço do título longo no extrato e melhoram a taxa de quem tem dinheiro vencendo. Juros em queda valorizam o título longo e pioram a vida de quem tem vencimento marcado para amanhã. |
Daí vem a assimetria de percepção. A marcação aparece todo dia, em número negativo, na mesma tela em que o investidor confere o saldo. O reinvestimento aparece uma vez a cada dois ou três anos, disfarçado de crédito na conta. |
O pós-fixado atrelado ao CDI vive no extremo do reinvestimento. Ele renova a taxa praticamente todo dia útil, o que elimina a oscilação de preço e entrega a taxa média do período, sem travar nada. |
O prefixado vive no extremo oposto. Ele trava a taxa até o fim e transfere o problema inteiro para uma data única, e é por essa razão que a decisão sobre prazo pesa mais no resultado do que a briga por meio ponto a mais de cupom. |
Concentrar vencimentos amplifica a mordida porque troca uma sequência de decisões por uma decisão só. Quem renova um quinto da carteira por ano toma cinco decisões pequenas em cinco cenários diferentes. Quem renova tudo de uma vez toma uma decisão grande num cenário só, sem ter escolhido qual. |
A concentração raramente é deliberada. Ela nasce de aportes feitos sempre no mesmo mês, de uma oferta que pareceu boa e levou o saldo inteiro, ou de três sugestões seguidas com o prazo que a tela do assessor destacava. |
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II A Matemática
Uma taxa contra cinco taxas
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Uma carteira concreta para fazer a conta. R$ 250 mil em renda fixa, horizonte de cinco anos, e duas formas de organizar o mesmo dinheiro no mesmo prazo. |
No primeiro desenho, o bloco único. Todo o valor entra num CDB de dois anos a 13% ao ano. Em 24 meses, os R$ 250 mil voltam corrigidos e encontram a taxa que existir naquele dia. |
No segundo desenho, a escada. Cinco fatias de R$ 50 mil, com vencimentos em 12, 24, 36, 48 e 60 meses. Cada fatia que vence é reaplicada por cinco anos, na taxa do dia da renovação. |
A trajetória de juros é a mesma nos dois desenhos: a diferença não está no cenário e sim no calendário. A tabela mostra o que cada renovação encontrou. |
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| A renovação | Taxa do dia | Fatia da carteira | | Escada, 12 meses | 11,00% | 20% | | Escada, 24 meses | 8,50% | 20% | | Escada, 36 meses | 9,00% | 20% | | Escada, 48 meses | 9,50% | 20% | | Escada, 60 meses | 10,00% | 20% | | Escada, média das renovações | 9,60% | 100% | | Bloco único, renovação única em 24 meses | 8,50% | 100% |
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Valores ilustrativos e arredondados. A trajetória de juros é hipótese de trabalho, e o resultado depende do caminho real da Selic, do prazo de cada papel e do emissor. Simulação sem caráter de recomendação de investimento. |
A escada capturou 9,60% ao ano na média das cinco renovações. O bloco único capturou 8,50%, a taxa do único dia em que teve dinheiro na mão para reaplicar, e ficou preso a ela pelo período seguinte. |
A diferença de 1,10 ponto ao ano parece modesta. Sobre R$ 250 mil, ela vale perto de R$ 2.750 por ano de rendimento, e o efeito segue vivo enquanto o dinheiro continuar naquela taxa. |
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O bloco único não escolheu a taxa de 8,50%. O calendário escolheu por ele, dois anos antes, quando todos os vencimentos foram marcados na mesma data. |
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A conta tem um lado que a escada não resolve, e omiti-lo seria vender remédio como se fosse vacina. Se os juros tivessem subido de 13% para 15% no mesmo período, o bloco único teria renovado o valor inteiro exatamente na taxa alta. |
A escada, no mesmo cenário, teria renovado um quinto por ano e capturado a média do caminho, abaixo do pico. Ela não maximiza o resultado: reduz a variação em torno da média, que é uma promessa diferente e bem menos empolgante. |
Existe ainda a conta que casa os dois riscos. Quando a duration do título coincide com o prazo do objetivo, a perda de marcação e o ganho de reinvestimento tendem a se compensar, e o resultado final fica perto da taxa contratada. |
Duration não é o mesmo que prazo. Num papel com cupom semestral ela é sempre menor que o vencimento, porque parte do dinheiro volta antes; num papel de pagamento único, as duas medidas coincidem. |
Dinheiro com data marcada pede papel de duration parecida com a data. Reserva para uma compra daqui a três anos não pertence a um título de dez, nem a um papel de seis meses que vai precisar de cinco renovações até lá. |
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