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O Que a Corretagem Zero Não Zera
A corretora zera a linha que era dela, e a custódia da B3, o spread do título e a margem do câmbio seguem cobrando dentro do preço.
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Três custos que nenhum extrato soma numa linha
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O banner ocupa a metade de cima da tela do aplicativo, em corpo grande sobre fundo verde: corretagem R$ 0,00. Logo abaixo, em letra bem menor, a lista do que também está zerado. Taxa de manutenção de conta, taxa de transferência, taxa do agente de custódia. A promessa é literal e verificável, e no mês seguinte todas as linhas anunciadas marcam zero mesmo.
A carteira, ainda assim, fecha o ano com um rendimento menor do que a soma das taxas contratadas explicaria. A diferença não está escondida em nenhuma linha de cobrança, porque ela nunca passou por uma linha de cobrança. Ela saiu do preço, e preço não vem discriminado em extrato nenhum.
São três canos, e nenhum deles é ilegal, incomum ou secreto. O primeiro é a taxa de custódia que a B3 cobra sobre a posição em Tesouro Direto, cobrada por quem guarda o título e não por quem intermediou a compra. O segundo é a distância entre o preço pelo qual a plataforma vende um título e o preço pelo qual ela recompra o mesmo título, no mesmo minuto. O terceiro é a diferença entre a cotação do dólar que a tela exibe e a cotação que a plataforma aplica na hora de converter o dinheiro de verdade.
Os três estão descritos em algum lugar. Numa tabela pública da bolsa, em duas colunas de taxa que aparecem lado a lado na mesma tela, num campo de conversão que o cliente confirma antes de fechar a operação. O que nenhum dos três tem é uma linha somando quanto custaram ao longo de doze meses.
Numa carteira de porte médio, a soma dos três costuma passar de quatro vezes o valor da única linha que a corretora zerou. Antes da conta em reais, vale entender por que um custo vira linha e outro vira preço, e quem exatamente recebe cada um dos três.
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I O Princípio
Custo com linha e custo dentro do preço
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A taxa de custódia do Tesouro Direto não pertence à corretora. Quem cobra é a B3, a bolsa que registra e guarda os títulos, e a alíquota é a mesma em qualquer plataforma do país: 0,20% ao ano sobre a posição. |
O cálculo é diário e proporcional ao tempo em que o título ficou na conta. A cobrança acontece no primeiro dia útil de janeiro e de julho, e nos eventos que movimentam o papel: venda antecipada, juros semestrais e vencimento. |
Foi essa separação que permitiu o anúncio. Existiam duas taxas empilhadas sobre o mesmo título, a da bolsa e a do agente de custódia, cobrada pela corretora e que já chegou a 0,30% ao ano. A corretora zerou a parcela que era dela. |
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A plataforma zerou a linha que pertencia a ela. A bolsa continua cobrando a que sempre foi da bolsa, e ela não aparece na tabela comparativa de nenhum anúncio. |
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Dentro da prateleira do Tesouro existe uma exceção, e ela vale para um único título. Posições em Tesouro Selic são isentas de custódia até dez mil reais por investidor. Acima desse teto, os 0,20% incidem apenas sobre a parcela que excede o limite. |
A razão da faixa isenta é a função que o papel ocupa. O Tesouro Selic é o instrumento de reserva de emergência da renda fixa pública e disputa espaço com a poupança, que não cobra taxa nenhuma. Uma cobrança de 0,20% sobre uma reserva de cinco mil reais consumiria parte da vantagem que justifica a troca. |
O resto da prateleira não recebeu o benefício porque cumpre outra função. Tesouro IPCA+ e Prefixado são posições de prazo longo, compradas para objetivo com data marcada, e pagam os 0,20% desde o primeiro real. |
Os outros dois canos têm natureza diferente. Não têm alíquota publicada, não têm data de cobrança e não geram lançamento na conta. Eles moram dentro do preço da operação. |
No Tesouro Direto, a mesma tela mostra duas taxas para o mesmo título: a taxa pela qual o investidor compra e a taxa pela qual o Tesouro recompra. A segunda é sempre mais alta, o que significa preço mais baixo na saída, e a diferença é paga no ato. |
No câmbio, a plataforma compra moeda no atacado e entrega ao cliente por uma cotação que já embute a margem dela. O imposto aparece em campo próprio, com valor visível antes da confirmação. A margem embutida na cotação não aparece em campo nenhum. |
A distinção entre os dois tipos decide a comparação. Custo com linha é comparável e negociável, porque tem número publicado. Custo dentro do preço só aparece para quem procura a diferença entre duas cotações e multiplica pelo volume do ano. |
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II A Matemática
Três canos numa carteira de R$ 300 mil
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Uma carteira concreta para dimensionar os três. Trezentos mil reais no total, sendo cento e cinquenta mil em Tesouro Direto: cinquenta mil em Tesouro Selic como reserva e cem mil em Tesouro IPCA+ 2032. Fora da renda fixa, sessenta mil reais convertidos em dólar ao longo do ano. |
O primeiro cano tem alíquota publicada. Dos cinquenta mil em Tesouro Selic, dez mil ficam na faixa isenta e quarenta mil pagam 0,20% ao ano, oitenta reais. Os cem mil em Tesouro IPCA+ pagam 0,20% sobre o total, duzentos reais. A custódia do ano fecha em duzentos e oitenta reais. |
O segundo cano precisa de duas cotações do mesmo papel. No mesmo minuto, o Tesouro IPCA+ 2032 aparece com taxa de compra de 6,50% e taxa de recompra de 6,58%, oito centésimos de ponto de diferença. Num título com duration perto de seis anos, valem cerca de 0,48% do preço. |
Sessenta mil reais girados nesse título ao longo do ano deixam duzentos e oitenta e oito reais na diferença. O extrato registra o valor da compra e o da venda, cada um correto, e nunca a distância entre os dois. |
O terceiro cano é o mais caro. A cotação de referência marca 5,40 na tela quando a ordem é enviada e a conversão fecha a 5,4648, uma margem de 1,2%. Sobre sessenta mil reais, são setecentos e vinte reais deixados entre as duas cotações. |
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| O cano | Onde ele aparece | No ano | | Custódia da B3 sobre o Tesouro Direto | tabela pública da bolsa | R$ 280 | | Spread entre compra e recompra do título | dentro do preço | R$ 288 | | Margem embutida na cotação do dólar | dentro da conversão | R$ 720 | | Soma dos três | nenhum extrato soma | R$ 1.288 | | Taxa do agente de custódia, zerada no anúncio | linha própria, hoje em zero | R$ 300 |
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Valores ilustrativos e arredondados. O peso de cada parcela depende do tamanho da posição, do giro da carteira, do volume convertido e da tabela vigente de cada plataforma. Simulação sem caráter de recomendação de investimento. |
A última linha da tabela reorganiza a leitura. A taxa que a plataforma zerou valia trezentos reais no ano nessa carteira, e os três canos abertos custaram mil duzentos e oitenta e oito, mais de quatro vezes o benefício anunciado. |
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A linha zerada valia trezentos reais no ano. Os três custos que continuaram abertos custaram quatro vezes esse valor, e a plataforma não precisou esconder nenhum deles para cobrar. |
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Sobre o patrimônio total, a soma equivale a 0,43% ao ano. Em dez anos, mantida a mesma carteira, o acumulado passa de doze mil reais, sem contar o rendimento que esse dinheiro deixaria de gerar. |
Os três crescem de formas diferentes, e a diferença muda o que fazer com cada um. A custódia cresce com a posição e com o tempo, e é cobrada mesmo de quem não enviou uma ordem no ano inteiro. |
O spread cresce com o giro, e quem segura até o vencimento paga a diferença uma vez só. A margem do câmbio cresce com o volume convertido, não com o número de remessas: converter sessenta mil de uma vez ou em dez parcelas custa quase o mesmo. |
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