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A Curva Que Faz o Papel Longo Ganhar Mais do Que Perde
Um ponto de queda na taxa real vale mais para um IPCA+ de 2045 do que um ponto de alta custa, e a diferença aparece no resgate antecipado.
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A curva que decide os dois lados do mesmo ponto
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Um extrato do Tesouro Direto mostra a mesma linha em dois momentos diferentes. Cinquenta mil reais aplicados num IPCA+ com vencimento em 2045, comprados a 7% ao ano acima da inflação, e um saldo atualizado que hoje aparece perto de quarenta e um mil e novecentos.
A taxa do papel subiu um ponto desde a compra, de 7% para 8% ao ano, e o preço de cada título caiu de R$ 276,51 para R$ 231,71. O emissor é o mesmo, o contrato é o mesmo e o valor de resgate lá em 2045 continua exatamente onde estava.
A leitura automática de quem vê a tela vermelha é de gangorra. Se um ponto de alta tirou 16%, um ponto de queda devolveria 16%, e bastaria a taxa voltar ao ponto de partida para o preço voltar junto, no mesmo tamanho.
A conta não fecha assim. Com a taxa caindo de 7% para 6% ao ano, o mesmo título vai a R$ 330,51, uma alta de 19,5% sobre o preço de compra. O movimento de mesmo tamanho, na direção contrária, paga três pontos e três décimos a mais do que o outro lado cobra.
Em dinheiro, sobre os mesmos cinquenta mil reais, a diferença é de cerca de mil e seiscentos reais entre o que a queda de um ponto acrescenta e o que a alta de um ponto retira. O papel é o mesmo, o prazo é o mesmo e o tamanho do choque é o mesmo.
Essa diferença não vem de prêmio de risco, de leitura de cenário nem de sorte no momento da compra. Ela vem do formato da relação entre preço e taxa, que nunca foi uma reta, e que aparece com força justamente onde o prazo é longo.
O que vem primeiro é o formato: por que o preço de um título é uma divisão e não uma subtração, e por que essa operação entorta a linha a favor de quem carrega prazo.
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I O Princípio
A reta da duration e a curva do papel
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O preço de um título de renda fixa sai de uma operação só. Pega-se o valor que ele paga no vencimento e divide-se pela taxa contratada, elevada ao número de anos que faltam. É divisão composta, não subtração. |
Divisão composta não desenha linha reta. Cada ponto de taxa a mais engrossa o denominador, e um denominador que já cresceu tira menos preço do que o ponto anterior tirou. Cada ponto a menos afina o denominador, e o preço sobe mais do que subiu no ponto anterior. |
A curva que sai daí tem inclinação que muda ao longo dela mesma. Ela cai rápido na região de taxa baixa e cai devagar na região de taxa alta, e fica sempre acima da reta que passa tangente ao ponto onde o papel foi comprado. |
A distância entre a curva e essa reta tem nome no mercado de renda fixa. Chama-se convexidade, e é a segunda camada da sensibilidade do papel, a que sobra depois que a primeira camada, a duration, já foi contada. |
A duration resume num número só quanto o preço varia para cada ponto de taxa. Para um IPCA+ de dezenove anos negociado a 7% ao ano, ela fica perto de 17,8, o que promete cerca de 17,8% de variação de preço a cada ponto percentual de movimento. |
O número está certo e a promessa está incompleta. A duration descreve uma reta, e uma reta só acompanha a curva num trecho minúsculo em volta do ponto de partida. Movimento grande de taxa deixa a reta para trás nos dois sentidos. |
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A duration acerta o tamanho médio do balanço e erra sempre para o mesmo lado: promete menos ganho do que a queda de juro entrega e mais perda do que a alta de juro cobra. |
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O erro tem direção fixa porque a curva inteira fica acima da reta tangente. Na queda de taxa, o preço real termina acima do que a duration previa. Na alta, ele também termina acima do previsto, e terminar acima do previsto numa perda significa perder menos. |
A regra é antiga e foi escrita antes de qualquer planilha de mercado. Burton Malkiel demonstrou em 1962, no artigo Expectations, Bond Prices, and the Term Structure of Interest Rates, que a alta de preço provocada por uma queda de rendimento é maior que a queda de preço provocada por uma alta igual. |
O que muda de papel para papel é o tamanho da vantagem. E é o tamanho que decide se ela é um detalhe de calculadora ou uma diferença que aparece no extrato de quem investe. |
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II A Matemática
Os 19,5% de um lado, os 16,2% do outro
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O papel da conta é um Tesouro IPCA+ Principal com dezenove anos até o vencimento, sem cupom no meio do caminho, comprado com taxa real de 7% ao ano. O valor de resgate de R$ 1.000 dividido por 1,07 elevado a dezenove dá um preço de R$ 276,51. |
Com a taxa real caindo para 6% ao ano, o divisor encolhe e o preço vai a R$ 330,51. São 19,5% de alta sobre o preço pago, sem que uma única cláusula do contrato tenha mudado de lugar. |
Com a taxa real subindo para 8% ao ano, o divisor engorda e o preço cai para R$ 231,71. São 16,2% de queda, o outro lado exato do mesmo choque de um ponto percentual. |
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| O cenário | Preço do título | Efeito em R$ 50 mil | | Taxa real a 6,0% ao ano | R$ 330,51 | ganho de R$ 9.765 | | Taxa real a 7,0% ao ano, a compra | R$ 276,51 | referência | | Taxa real a 8,0% ao ano | R$ 231,71 | perda de R$ 8.100 | | Assimetria entre os dois lados | 3,3 pontos | R$ 1.665 | | Previsão da reta da duration | 17,8% para cada lado | R$ 8.878 para cada lado |
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Tesouro IPCA+ Principal de dezenove anos, sem cupom, em taxa real e antes de imposto, custódia e spread de recompra. Simulação ilustrativa, sem caráter de recomendação de investimento. |
A assimetria de 3,3 pontos percentuais é o que a convexidade paga. Sobre cinquenta mil reais aplicados, ela vale cerca de mil seiscentos e sessenta e cinco reais de diferença entre os dois cenários simétricos de taxa. |
Há uma forma mais limpa de enxergar o mesmo número. A parcela de convexidade entra com sinal positivo nas duas direções: soma cerca de 1,7 ponto ao ganho quando a taxa cai e subtrai cerca de 1,7 ponto da perda quando a taxa sobe. |
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A duration diz o tamanho do balanço. A convexidade diz de que lado ele pende, e ele pende sempre para o lado de quem está comprado no papel. |
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O mesmo exercício num papel curto entrega quase nada. Um IPCA+ de três anos comprado a 7% ao ano vale R$ 816,30, sobe para R$ 839,62 com a taxa a 6% e cai para R$ 793,83 com a taxa a 8%. |
São 2,86% de um lado contra 2,75% do outro, uma assimetria de onze centésimos de ponto. O papel curto tem a mesma curva, só que percorre um trecho tão pequeno dela que a linha é indistinguível de uma reta. |
A diferença entre os dois casos é o prazo, e ele entra ao quadrado. Dobrar o prazo de um título sem cupom multiplica a convexidade por perto de quatro, enquanto a duration apenas dobra de tamanho. |
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