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O Saldo que Dorme Acima do Teto da Conta Digital
Vinte e sete mil reais parados acima do limite de remuneração deixam de render R$ 2.648 líquidos em doze meses.
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O limite que decide quanto do saldo rende
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O extrato do mês numa conta digital mostra duas linhas que não conversam entre si. Saldo de trinta e dois mil reais, parados ali por conveniência desde o começo do ano, e rendimento do período de quarenta e nove reais e cinquenta e oito centavos.
A conta anuncia cem por cento do CDI em letra grande, na primeira tela do aplicativo. Com o CDI a 11,9% ao ano, trinta e dois mil reais deveriam devolver trezentos e dezessete reais e trinta e três centavos em trinta dias. A tela creditou menos de um sexto.
Não há erro de cálculo, tarifa escondida nem atraso de processamento. O valor está correto para o que a instituição prometeu, porque a promessa vinha com um limite escrito e o limite não aparece em nenhum canto do extrato.
A cláusula costuma dizer que a remuneração incide sobre o saldo até determinado valor. Cinco mil reais, na conta do exemplo. Os outros vinte e sete mil ficam ali como depósito à vista, disponíveis a qualquer hora do dia e rendendo exatamente zero.
O que torna a perda difícil de enxergar é que nada some. O saldo continua inteiro, nenhuma tarifa aparece na fatura, nenhum aviso chega por notificação. Falta um rendimento que nunca foi gerado, e rendimento que não nasce não deixa rastro em lugar nenhum.
A soma de doze meses passa de dois mil e seiscentos reais líquidos, mais de cinco vezes o que o próprio teto rendeu no período. É dinheiro que estava dentro da instituição e ficou fora da parte remunerada por uma linha de contrato que ninguém leu.
O ponto de partida não é o teto em si. É entender por que uma conta, do ponto de vista da regulação, não rende nada sozinha, e por que todo produto capaz de render dentro dela carrega uma fronteira escrita.
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I O Princípio
Quem rende não é a conta, é o produto
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Uma conta de pagamento e uma conta corrente são, por desenho, depósito à vista. O dinheiro fica pronto para sair no mesmo segundo, e a contrapartida da disponibilidade total é a ausência de rendimento. |
O que rende é outra coisa, encaixada por trás da mesma tela. Um RDB emitido pelo próprio banco, um fundo DI simples, uma conta remunerada com aplicação automática ao fim do dia. A instituição soma os dois saldos num número só na tela inicial, e o cliente enxerga uma conta que rende. |
A soma é conveniente e cria o mal-entendido. Não existe conta que rende. Existe conta com um produto de investimento amarrado, e produto de investimento tem regulamento. |
Regulamento define fronteiras: aplicação mínima, prazo de carência, percentual do indexador e, com frequência, valor máximo remunerado. O teto de remuneração é uma dessas fronteiras, tão banal quanto as outras e muito menos divulgada. |
Os tetos aparecem em três desenhos. O primeiro é o teto duro em reais: cem por cento do CDI até um valor, e nada acima do valor. O segundo é escalonado: cem por cento do CDI até o limite e um percentual menor sobre o excedente, oitenta por cento em muitos casos. |
O terceiro é o teto por produto. O saldo só rende depois de ser movido para um cofre, uma caixinha ou um objetivo dentro do aplicativo, e o dinheiro que ficou solto na conta principal não entra na remuneração, mesmo com o total abaixo de qualquer limite. |
O teto existe por razão de custo, não por armadilha. Captação a cem por cento do CDI é cara para o emissor: pagar bem sobre saldo pequeno traz cliente novo, e pagar o mesmo sobre saldo grande atrai tesouraria alheia atrás de rendimento. |
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Cem por cento do CDI é o preço anunciado. O teto é a quantidade contratada. Um produto que divulga o preço e omite a quantidade contou metade da conta que decide quanto o dinheiro rende. |
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John Bogle descreveu em O Pequeno Livro do Investimento de Bom Senso, de 2007, a tirania dos custos compostos: uma perda pequena, repetida por muitos períodos, come um pedaço enorme do resultado final. Um rendimento que não acontece opera pelo mesmo mecanismo, no sentido inverso. |
A maioria dos termos ainda reserva à instituição o direito de alterar remuneração e limite mediante comunicado, então o teto conferido uma vez não fica conferido para sempre. |
O tamanho da fronteira só aparece quando o saldo acima dela vira número numa janela de doze meses. |
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II A Matemática
Os R$ 27 mil que rendem zero
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O cenário fica fixo em cinco números: teto de remuneração de cinco mil reais, saldo médio de trinta e dois mil, CDI a 11,9% ao ano, Selic a 12% e imposto de renda de 17,5%, a alíquota da janela entre trezentos e sessenta e um e setecentos e vinte dias. |
Dentro do teto, cinco mil reais a cem por cento do CDI geram quinhentos e noventa e cinco reais brutos em doze meses. Descontado o imposto, chegam quatrocentos e noventa reais e oitenta e oito centavos. |
Acima do teto ficam vinte e sete mil reais rendendo zero. Movidos para um Tesouro Selic negociado a Selic mais 0,04% ao ano, os mesmos vinte e sete mil geram três mil duzentos e cinquenta reais e oitenta centavos brutos no ano. |
Do bruto saem trinta e quatro reais de custódia da B3, cobrada a 0,20% ao ano sobre o estoque que passa de dez mil reais, e quinhentos e sessenta e oito reais e oitenta e nove centavos de imposto de renda. Sobram dois mil seiscentos e quarenta e sete reais e noventa e um centavos. |
O excedente parado rende mais de cinco vezes o que o teto inteiro rende. A parte da conta que o aplicativo trata como remunerada é a menor das duas, e a maior fica fora do cálculo de rendimento por uma linha do contrato. |
Em ritmo mensal, a diferença é de duzentos e vinte reais e sessenta e seis centavos. Por dia corrido, sete reais e vinte e cinco centavos, pequeno demais para provocar reação e suficiente para pagar um mês de supermercado ao fim do ano. |
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| O saldo na conta | Parado acima do teto | Deixa de render no ano | | R$ 8.000 | R$ 3.000 | R$ 298 | | R$ 15.000 | R$ 10.000 | R$ 993 | | R$ 32.000 | R$ 27.000 | R$ 2.648 | | R$ 60.000 | R$ 55.000 | R$ 5.373 |
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Teto de cinco mil reais, Selic a 12% ao ano, Tesouro Selic a Selic mais 0,04%, custódia da B3 de 0,20% sobre o estoque acima de dez mil reais e imposto de renda de 17,5%. Simulação ilustrativa, sem caráter de recomendação de investimento. |
A tabela entrega a regra de bolso: cada dez mil reais parados acima do teto deixam perto de novecentos e setenta e três reais líquidos por ano na mesa. |
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O saldo acima do teto não perde dinheiro, ele deixa de ganhar. A distância entre as duas situações é invisível no extrato e idêntica no bolso. |
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Esticar a janela muda a ordem de grandeza. Os mesmos vinte e sete mil reais mantidos por três anos no Tesouro Selic acumulam perto de nove mil e duzentos reais líquidos, já com a alíquota de 15% que vale depois de setecentos e vinte dias. |
O número final depende do teto de cada instituição e do saldo de cada casa, e a conta do próprio caso não passa de uma divisão. O trabalho de verdade é achar o valor do teto, porque ele não está impresso onde o dinheiro está. |
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