|
|
O Índice que Decide Quanto o Gestor Leva
Trocar o CDI por IPCA mais juro real no regulamento derruba a taxa de performance de R$ 2.750 para R$ 1.670 no ano.
|
A régua que decide quanto do ganho vira taxa
|
| ▼ |
|
A lâmina de um fundo multimercado cabe em duas páginas, e a frase que decide o custo tem doze palavras: taxa de performance de 20% sobre o que exceder o CDI, cobrada semestralmente.
A taxa de administração aparece ao lado em número redondo, com explicação embaixo. A de performance divide a linha com um índice, e o índice passa como detalhe técnico, do tipo que se lê rápido para chegar logo ao gráfico de rentabilidade acumulada.
Quem compara fundos costuma olhar três coisas na mesma tela: rentabilidade dos últimos doze meses, taxa de administração e volatilidade. O índice de referência da performance fica fora da lista, e é ele que decide qual pedaço do resultado muda de dono.
O índice não é detalhe. Ele é a linha de largada da cobrança: o gestor só divide o ganho a partir dali, e cada ponto percentual de altura dessa linha muda o valor que sai da conta do cotista.
Dois fundos com a mesma carteira, o mesmo gestor e a mesma rentabilidade cobram valores diferentes no mesmo ano quando o regulamento traz índices diferentes. A escolha foi feita quando o fundo nasceu, anos antes de o cotista chegar.
Um índice nominal como o CDI não sobe porque a inflação subiu. Um índice real, do tipo IPCA mais um juro contratado, sobe junto com ela por construção. Num ano em que os preços correm, as duas réguas se afastam alguns pontos.
O espaço entre as duas réguas é exatamente o que vira taxa, e ele não tem linha própria no informe de rendimentos.
A conta desta edição fixa uma rentabilidade só, duzentos e cinquenta mil reais aplicados e quatro índices de referência diferentes, para medir quanto cada régua entrega ao gestor e quanto sobra para quem aplicou.
Antes da conta, vale entender o que a taxa de performance cobra de fato, por que a régua nunca começa no zero e o que separa um índice que representa risco de um índice que representa apenas o tempo passando.
Continue lendo ↓
|
| |
|
|
|
I O Princípio
A régua nunca é o zero
|
| |
| |
A taxa de performance é a participação do gestor no que o fundo entrega acima de um índice. A fórmula tem dois números: o percentual da participação e o índice que marca o começo da cobrança. |
O percentual quase não varia. Vinte por cento virou padrão de mercado no Brasil, do multimercado ao fundo de ações. |
O índice varia muito, e é a gestora que o escolhe quando o fundo nasce. A escolha entra no regulamento, vale para todos os cotistas e só muda em assembleia. |
A régua existe por um motivo simples. Sem ela, o gestor cobraria participação sobre qualquer ganho, inclusive sobre o rendimento que o dinheiro teria parado num título público. |
O índice separa o retorno que exige competência do retorno que exige apenas tempo. É a função inteira dele, e é por causa dela que a altura escolhida importa tanto. |
As réguas se dividem em duas famílias. As nominais são o CDI, o Ibovespa, o IMA-B e o IFIX, índices que andam com o mercado e não têm compromisso com o poder de compra. |
As reais somam um índice de preços a um juro contratado: IPCA mais 6% ao ano, IPCA mais 7% ao ano, IGP-M mais juro. Elas sobem quando a inflação sobe, por construção. |
| |
Vinte por cento é o preço da participação. O índice de referência é o lugar onde a contagem começa. Quem discute só o preço e aceita o ponto de partida sem olhar já entregou a parte que decide o valor. |
|
| |
A distância entre as duas famílias fica pequena em ano de preço comportado e cresce quando a inflação acelera. O CDI é o preço do dinheiro de um dia e demora a incorporar o que já subiu. |
O juro real embutido nos títulos indexados faz o caminho contrário: quando o mercado desconfia da inflação futura, o prêmio real sobe, e o índice real de referência sobe junto. |
David Swensen defendeu em Unconventional Success, de 2005, que a taxa de incentivo só se justifica quando o gestor é medido contra a alternativa passiva que o investidor teria de graça. |
Duas cláusulas acompanham a régua. A linha d'água impede o gestor de cobrar duas vezes pelo mesmo trecho de ganho: depois de uma queda, a cobrança só volta quando a cota supera o topo anterior. |
A outra é a periodicidade, semestral no fundo aberto ao público em geral, com provisão diária na cota. A rentabilidade exibida no aplicativo já vem com a taxa descontada. |
A assimetria fica de pé nos dois desenhos: o gestor participa do ganho acima da régua e não devolve nada na perda abaixo dela. |
O tamanho do que está em jogo só aparece quando a mesma rentabilidade passa por réguas diferentes. |
| |
|
| |
|
II A Matemática
R$ 2.750 contra R$ 1.670
|
| |
| |
O cenário fica fixo em cinco números: duzentos e cinquenta mil reais aplicados, rentabilidade de 17,4% no ano já descontada a administração de 2%, taxa de performance de 20%, CDI de 11,9% e IPCA de 6,4%. |
Sobre o capital aplicado, 17,4% dão quarenta e três mil e quinhentos reais antes da performance, o mesmo número em todas as contas a seguir. |
Na primeira conta, o regulamento diz CDI. O fundo passou 5,5 pontos do índice, treze mil setecentos e cinquenta reais de excedente, e o gestor leva 20%: dois mil setecentos e cinquenta reais. |
Na segunda conta, o regulamento diz IPCA mais juro real. Com o IPCA em 6,4% e um juro real de 7,2% ao ano, o mesmo que o Tesouro IPCA+ pagava no começo do período, a régua sobe para 14,06%. |
O fundo passou 3,34 pontos dessa régua, oito mil trezentos e cinquenta reais de excedente. Os mesmos 20% agora valem mil seiscentos e setenta reais. |
Mesmo gestor, mesma carteira, mesmo ano e mesmo resultado: mil e oitenta reais de diferença na taxa. A régua do CDI entrega ao gestor 65% a mais pelo trabalho idêntico. |
| |
| Índice no regulamento | A régua no ano | Taxa de performance | Sobra para o cotista | | CDI | 11,90% | R$ 2.750 | R$ 40.750 | | IPCA + 6% | 12,78% | R$ 2.310 | R$ 41.190 | | IPCA + 7,2% | 14,06% | R$ 1.670 | R$ 41.830 | | IPCA + 9% | 15,98% | R$ 710 | R$ 42.790 |
|
Duzentos e cinquenta mil reais aplicados, rentabilidade de 17,4% no ano já líquida da administração de 2%, performance de 20% sobre o excedente, CDI de 11,9% e IPCA de 6,4%. Simulação ilustrativa, sem imposto de renda e sem caráter de recomendação. |
A tabela entrega a regra de bolso: cada ponto percentual de altura no índice tira 0,2 ponto da taxa, ou duzentos reais por ano a cada cem mil reais aplicados. |
| |
O resultado do gestor é o mesmo nas quatro linhas. O que sai de setecentos e dez para dois mil setecentos e cinquenta reais não é a competência dele, é a frase escrita no regulamento antes do primeiro aporte. |
|
| |
Somadas, administração e performance levam 3,1 pontos no desenho do CDI, sete mil setecentos e cinquenta reais no ano. |
O ganho real do cotista, já descontada a inflação de 6,4%, fica em 9,3 pontos, vinte e três mil duzentos e cinquenta reais. As duas taxas ficaram com um terço do ganho acima da inflação. |
A diferença anual de mil e oitenta reais parece pequena ao lado de um ganho de quarenta e três mil e quinhentos. Repetida por dez anos, ela separa os resultados em quarenta e dois mil setecentos e trinta e oito reais, num ano que nunca se repete igual. |
Achar a régua é o trabalho de verdade, e ela mora numa frase que o aplicativo não coloca na tela do fundo. |
| |
|
| |