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Quanto de dólar apaga um tombo brasileiro
Nos choques de 2015 e 2024, uma fatia entre 22% e 28% em dólar zerou a perda da carteira inteira.
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A fatia de dólar que segura o tombo
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O Ibovespa fechou 2024 com queda de 10,4%. No mesmo calendário, o dólar saiu de 4,85 reais e terminou o ano em 6,19, uma alta de 27,3% na moeda que muita gente carrega sem chamar de investimento.
Quem tinha as duas coisas na carteira atravessou um ano diferente de quem tinha só a primeira. A diferença entre os dois não foi sorte nem leitura de cenário, foi o tamanho de uma fatia definida antes do estrago começar.
A frase que aparece assim que alguém menciona dólar na carteira costuma ser a mesma: apostar contra o Brasil. A carteira não tem opinião sobre o país. Ela tem exposição, e exposição se mede em pontos percentuais, não em sentimento.
Um seguro residencial não é um palpite de que a casa vai pegar fogo. É um contrato que paga justamente quando o resto do patrimônio perde valor, e ninguém contrata a apólice torcendo pelo incêndio.
A moeda forte cumpre função parecida numa carteira brasileira. Ela não sobe porque o país piorou, ela sobe nos mesmos meses em que o ativo local cai, e é a coincidência de datas que faz o amortecedor funcionar.
Três episódios recentes deixam o teste pronto e datado. A recessão de 2015, o tombo de janeiro a março de 2020 e o ano de 2024, cada um com magnitude própria no índice e no câmbio.
O que muda entre eles não é a direção, é a proporção. Em dois deles uma fatia razoável em moeda forte zera a perda inteira da carteira. No terceiro, nenhuma fatia que caiba numa carteira de investidor comum dá conta do estrago.
A proteção também tem preço, e o preço aparece nos anos em que o real se valoriza e a fatia protetora fica para trás. Existe um ponto em que aumentar a exposição para de comprar tranquilidade e passa a comprar uma posição direcional em moeda.
A conta desta edição fixa cada um dos três choques, devolve a fatia exata em moeda forte que teria neutralizado a perda e mostra onde fica a linha que separa o seguro da aposta.
Antes da conta, vale entender por que a moeda funciona como amortecedor de choque local e por que ela deixa de funcionar quando o choque nasce fora daqui.
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I O Princípio
O amortecedor não prevê nada
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Uma carteira brasileira típica tem quase tudo denominado em real: ações listadas aqui, títulos públicos, fundos imobiliários, crédito privado. Os preços variam entre si, mas todos são medidos na mesma moeda. |
Quando o choque é local, os ativos que pareciam diferentes se movem juntos. Bolsa, prêmio de crédito e juro longo reagem à mesma notícia fiscal ou política no mesmo pregão, e a diversificação entre eles entrega menos do que prometia. |
O dólar entra na carteira em outra unidade de conta. O ativo em moeda forte não precisa subir de preço para proteger, basta que a moeda em que ele é medido se valorize contra o real enquanto o resto cai. |
A relação não é de causa e efeito e sim de mecânica de fluxo. Choque local reduz o apetite por ativo brasileiro, o capital estrangeiro sai, a demanda por dólar aumenta e a taxa de câmbio sobe no mesmo movimento que derruba a bolsa. |
Roger Gibson descreveu em Asset Allocation: Balancing Financial Risk, de 1990, que a diversificação só entrega redução de risco quando as partes reagem de maneira diferente ao mesmo evento, e que ativos que caem juntos não diversificam nada. |
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O amortecedor não prevê nada. Ele não sabe se o choque vem, sabe apenas que se vier o real perde valor primeiro e a fatia em moeda forte se move na direção contrária. |
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Existe uma condição escondida nesse desenho, e ela precisa ficar explícita. A moeda forte amortece choque local, não amortece choque global. |
Quando o susto nasce fora, como aconteceu em março de 2020, a bolsa mundial cai junto com a brasileira e o ativo internacional perde valor em dólar ao mesmo tempo que a moeda sobe. Uma parte da proteção é comida pela outra ponta. |
A distinção separa duas decisões que costumam vir embrulhadas na mesma frase. Comprar bolsa americana é comprar risco de renda variável e exposição cambial no mesmo pacote. |
Comprar moeda forte pura, em título curto do Tesouro americano, em fundo cambial ou em dólar parado, é comprar apenas a segunda coisa. O amortecedor de choque local mora na parte cambial, não na parte de renda variável. |
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II A Matemática
22%, 28% e o tombo que resiste
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O teste é aritmético e cabe em duas linhas por episódio. De um lado a queda do ativo local no período. Do outro a variação da moeda no mesmo intervalo. A fatia neutra é a que faz as duas se cancelarem. |
Em 2015 o Ibovespa caiu 13,3% no ano. O dólar saiu de 2,66 reais e terminou em 3,96, alta de 47%. Uma carteira com 22,1% em moeda forte e o resto no índice fecharia o ano no zero a zero. |
Em 2024 o índice caiu 10,4% e a moeda subiu 27,3%. A queda menor exige mais moeda para empatar, porque a alta cambial também foi menor: a fatia neutra sobe para 27,6% da carteira. |
No tombo de 2020 a conta muda de natureza. Entre 23 de janeiro e 23 de março o Ibovespa saiu de 119.527 pontos para 63.570, queda de 46,8%. O dólar subiu de 4,17 para 5,11, alta de 22,5% no mesmo intervalo. |
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| Choque local | Queda do índice | Alta do dólar | Fatia neutra | | Ano de 2015 | 13,3% | 47,0% | 22,1% | | Tombo jan a mar 2020 | 46,8% | 22,5% | 67,5% | | Ano de 2024 | 10,4% | 27,3% | 27,6% |
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Fatia da carteira em moeda forte que teria zerado a perda do período, calculada sobre índice e câmbio de fechamento. Simulação ilustrativa, sem caráter de recomendação. |
A linha de 2020 pede 67,5% da carteira em dólar para empatar, número que nenhuma carteira de investidor comum sustenta. O choque de março veio de fora, derrubou o índice muito mais do que empurrou a moeda, e a conta de neutralização perde sentido prático. |
O que a fatia realista faz nesse caso é cortar o estrago. Com 20% em moeda forte, a perda do período sai de 46,8% para 32,9%, quase quatorze pontos percentuais a menos de prejuízo. |
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Quatorze pontos não parecem um resgate, mas mudam a decisão de quem está olhando a tela. Carteira que cai um terço ainda tem dono paciente. Carteira que cai quase metade costuma ser vendida no pior dia. |
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Nos dois anos fechados a mesma fatia de 20% já resolve boa parte do problema. Em 2015 ela transforma a queda de 13,3% numa perda de 1,2%. Em 2024, a queda de 10,4% vira uma perda de 2,9%. |
Repare no formato dos três resultados. A fatia protetora útil não é um número mágico e sim uma faixa estreita, entre 20% e 30%, que resolve o choque local típico e amortece o choque global. |
O tamanho também precisa considerar o resto da carteira. Quem carrega metade em renda fixa pós-fixada já tem um amortecedor local funcionando, e a fatia cambial trabalha sobre a parte em risco, não sobre o patrimônio inteiro. |
A faixa entre 20% e 30% resolve a defesa. Passar dela é o que muda a natureza da posição, e a mudança tem data marcada em outro tipo de ano. |
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