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O melhor dia do mês rende quase nada
Em 20 anos de série, acertar sempre o melhor dia do mês rendeu 6,3% a mais que comprar todo dia 1.
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O calendário que decide o aporte
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Todo mês, no dia em que o salário cai, uma decisão minúscula trava um investidor por horas. O dinheiro está na conta, a corretora está aberta, e a pergunta que aparece é sempre a mesma: compro agora ou espero uns dias.
A pergunta parece técnica e tem cara de detalhe otimizável. Existe um dia melhor do mês, algum padrão de calendário que devolva alguns pontos a mais no fim de vinte anos, e o investidor atento aproveitaria enquanto o distraído paga caro.
O incômodo é legítimo. Ninguém gosta de apertar o botão de compra sem saber se o preço da semana que vem seria melhor, e a sensação de estar comprando no pior momento possível acompanha quase todo aporte feito no automático.
A boa notícia é que a pergunta tem resposta medível. Vinte anos de série mensal cabem numa planilha, e dá para simular lado a lado o investidor que acerta sempre a data ideal e o investidor que compra na mesma data todo mês, sem olhar preço.
São 240 aportes de mesmo valor em cada cenário, com a mesma carteira e o mesmo horizonte. A única variável que muda entre as duas curvas é o dia do calendário em que o dinheiro entra, e a diferença acumulada aparece limpa no fim da série.
A má notícia, para quem gosta de otimizar, é o tamanho da resposta. A vantagem existe, é positiva, e cabe inteira em décimos de ponto percentual ao ano, mesmo no cenário em que o investidor adivinha o fundo de cada mês com precisão perfeita.
O que muda de verdade o patrimônio final está do outro lado da conta, no comportamento que a busca pela data ideal produz. Quem procura o melhor dia acaba deixando de comprar em alguns meses, e o custo desses meses parados não cabe em décimos.
Antes de olhar as duas curvas, vale entender por que o calendário do mês não carrega informação de preço, e por que uma diferença tão pequena aparece na série mesmo assim.
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I O Princípio
O calendário não tem preço dentro
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Um mês do mercado brasileiro tem cerca de vinte e um pregões. Em cada um deles, o índice se move por notícia macro, resultado de empresa, fluxo estrangeiro, decisão de juro e rebalanceamento de fundo, nenhum dos quais consulta o número que está na folhinha da parede. |
O dia do mês não é um fator de risco. Ele não paga prêmio, não carrega informação sobre lucro futuro e não muda o preço que o vendedor aceita. Ele é apenas um rótulo administrativo sobre a mesma série contínua de negócios. |
Existem efeitos de calendário documentados na literatura, e vale nomeá-los para não fingir que a série é lisa. O efeito de virada de mês, ligado à entrada de folha de pagamento e de fluxo de fundos de pensão, é o mais estudado deles. |
Robert Haugen e Josef Lakonishok descreveram em The Incredible January Effect, de 1988, que anomalias de calendário encolhem ou desaparecem depois de publicadas, porque o próprio investidor que lê o estudo antecipa a data e apaga a diferença. |
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Um padrão de calendário que sobrevive à publicação não é padrão, é ruído estatístico com data. E ruído estatístico não paga a hesitação de quem espera o dia certo. |
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A distância entre o efeito documentado e a decisão prática é o ponto que costuma passar em branco. Um efeito de virada de mês pode existir na média de trinta anos e ainda assim ser invisível na sua conta. |
A razão é a dispersão. A diferença média entre um dia bom e um dia ruim do mês é da ordem de décimos de ponto percentual, enquanto a variação de um único pregão de bolsa passa fácil de dois pontos para cima ou para baixo. |
O sinal que você tenta capturar é menor que o barulho estatístico em que ele está embrulhado. Você acerta a data e o dia entrega uma queda de 3% mesmo assim, porque a notícia da manhã não sabia da sua regra. |
O aporte mensal ainda tem uma característica que enfraquece qualquer ganho de calendário. Cada aporte compra uma fatia pequena do patrimônio final, e o efeito de acertar a data em uma parcela se dilui na soma das outras 239. |
O primeiro aporte de uma série de vinte anos carrega peso muito maior que o último, mas não por causa da data dentro do mês. O peso vem do tempo que ele fica exposto, e tempo é a única variável de calendário que muda o resultado de forma consistente. |
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II A Matemática
Dia 1, dia 22 e o custo de esperar
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A simulação é direta. Um aporte de mil reais por mês, durante 240 meses, num índice de bolsa brasileira com dividendos reinvestidos. Muda só a data da compra dentro do mês, e nada mais. |
O primeiro cenário é o piso: compra sempre no dia 1, ou no primeiro pregão seguinte quando o dia 1 cai em feriado ou fim de semana. Nenhuma decisão, nenhuma leitura de gráfico, nenhuma exceção. |
O segundo cenário é o teto impossível: o investidor compra exatamente no pregão de menor fechamento de cada um dos 240 meses. Ele não erra uma vez em vinte anos, o que nenhuma pessoa ou modelo consegue repetir. |
O terceiro cenário é o realista de quem acredita em padrão de calendário: o investidor descobre qual foi o melhor dia fixo da série inteira, o dia 22, e passa a comprar sempre nele. |
O quarto cenário é o que a busca pelo momento certo produz de fato: o investidor segura o aporte por três meses sempre que a bolsa está perto do topo, e o dinheiro fica em caixa nesse intervalo. |
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| Regra de aporte | Patrimônio final | Diferença | Por ano | | Todo dia 1 | 100,0 | referência | referência | | Fundo perfeito do mês | 106,3 | 6,3% | 0,31 p.p. | | Sempre no dia 22 | 101,1 | 1,1% | 0,05 p.p. | | Espera de 3 meses no topo | 88,2 | 11,8% a menos | 0,62 p.p. a menos |
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Simulação com 240 aportes mensais de mesmo valor em índice de bolsa brasileira, patrimônio final indexado em 100 para a regra do dia 1. Ilustrativa, sem caráter de recomendação. |
A linha do fundo perfeito é a que costuma surpreender. Adivinhar 240 vezes seguidas o pregão mais barato do mês, com acerto absoluto, devolve 6,3% de patrimônio a mais no fim de duas décadas. |
Traduzido para a régua que importa, são 0,31 pontos percentuais ao ano. Uma taxa de administração de fundo mal escolhida come mais que isso, e ela não exige nenhum poder de previsão de quem a paga. |
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A previsão perfeita, o cenário que nenhum investidor vivo alcança, vale menos por ano que a diferença entre dois ETFs do mesmo índice. É o teto absoluto do que a data pode entregar. |
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A linha do dia 22 é ainda mais modesta, e ela merece uma ressalva. O dia 22 só é o melhor porque a série já aconteceu, e o melhor dia da próxima década pode ser qualquer outro, o que reduz a vantagem prática de 1,1% para perto de zero. |
A quarta linha é a que muda de ordem de grandeza. Segurar o aporte por três meses quando a bolsa parece cara, comportamento comum de quem procura o momento certo, custa 11,8% do patrimônio final na mesma série. |
Repare na assimetria entre a segunda e a quarta linha. O melhor caso da otimização de data soma 6,3%, e uma hesitação recorrente subtrai quase o dobro. O erro possível é maior que o acerto máximo. |
O motivo é o tempo de exposição. Cada mês parado em caixa é um mês em que o aporte não compõe, e a composição perdida no início da série nunca é recuperada por uma compra mais barata lá na frente. |
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