|
|
As 240 parcelas que a venda antecipada apaga
O RendA+ contrata 240 rendas mensais corrigidas pelo IPCA, e vender antes da conversão troca esse fluxo pelo preço do dia.
|
Um calendário de 240 meses sobre a mesa
|
| ▼ |
Existe uma diferença silenciosa entre ter um patrimônio e ter uma renda, e ela só aparece no dia em que o dinheiro precisa virar conta paga todo mês. Um saldo de 500 mil reais numa tela de corretora não informa quanto entra na conta em março do ano que vem. Ele informa quanto valeria vender tudo hoje, ao preço de hoje, o que é outra pergunta. O Tesouro Direto colocou no ar em 2023 um título que responde à primeira pergunta em vez da segunda. Ele não promete um valor final acumulado, ele promete um calendário de pagamentos. O nome comercial é Tesouro RendA+, e a mecânica dele é a de uma folha de pagamento contratada com antecedência. O investidor escolhe o ano em que quer começar a receber, e o Tesouro Nacional assume a obrigação de depositar uma parcela por mês, todos os meses, durante vinte anos. Vinte anos são 240 meses, e 240 é o número que organiza toda a estrutura do papel. Não existe um pagamento único no fim, não existe cupom semestral e não existe valor de resgate integral numa data marcada. Existe uma data de conversão, que funciona como um interruptor contratual. Antes dela, o título é um instrumento acumulando correção sem pagar nada. Depois dela, o título vira uma sequência de 240 depósitos mensais corrigidos pela inflação. Essa arquitetura muda o significado de uma decisão banal do dia a dia, que é apertar o botão de vender. Vender uma ação encerra uma posição. Vender um RendA+ antes da conversão cancela um calendário de renda que já estava contratado. O investidor que faz esse resgate não recebe as parcelas futuras descontadas segundo a taxa que ele contratou. Ele recebe o que o Tesouro paga pelo papel naquele dia, com a taxa que o mercado está praticando naquela manhã. São dois objetos econômicos distintos com o mesmo código na carteira: um fluxo de aposentadoria já desenhado e um preço de recompra que muda de valor todo dia útil. Entender por que o RendA+ existe, e por que ele conta o tempo em parcelas em vez de contar em saldo, é o começo da conta que vem em seguida. Continue lendo ↓ |
| |
|
|
|
I O Princípio
Um contrato de renda, não um saldo
|
| |
| |
Quase todo produto de investimento no Brasil se apresenta por um número só, o montante. A pergunta padrão do setor é quanto você tem, e a resposta padrão é um saldo com centavos. |
O RendA+ inverte a unidade de medida. Ele se apresenta por uma renda mensal, e a pergunta que ele responde é quanto entra na sua conta por mês, a partir de qual ano e durante quantos meses. |
A troca de unidade não é detalhe de marketing. Ela muda qual risco o investidor enxerga e qual risco ele ignora. |
Robert C. Merton, prêmio Nobel de Economia, escreveu em The Crisis in Retirement Planning, publicado na Harvard Business Review em 2014, que a métrica correta de uma aposentadoria é o fluxo de renda vitalícia, e que medir o plano pelo valor acumulado esconde exatamente o risco que importa. |
O argumento é direto. Um saldo de um milhão significa coisas diferentes em cenários de juro e inflação diferentes, porque o que ele compra em renda mensal depende de condições que ninguém controla na data da aposentadoria. |
| |
O RendA+ não vende um valor futuro. Ele vende um calendário de 240 pagamentos mensais corrigidos pela inflação, começando num ano escolhido no ato da compra. |
|
| |
A estrutura é a de uma renda programada por prazo determinado. O título tem uma data de conversão, que é o mês em que o primeiro pagamento cai, e a partir dela distribui 240 parcelas mensais consecutivas. |
Cada parcela é corrigida pelo IPCA, o que significa que o poder de compra da renda é preservado ao longo dos vinte anos de pagamento, e não só até o início deles. |
O Tesouro Nacional oferece vencimentos escalonados de cinco em cinco anos, de 2030 até 2065, e o investidor compra o ano que corresponde à idade em que pretende parar de depender do salário. |
Existe ainda um detalhe de custo que reforça a natureza previdenciária do papel. A taxa de custódia da B3 tem isenção na fase de recebimento para quem recebe renda mensal dentro de um teto medido em salários mínimos, o que favorece o investidor que carrega até o fim em vez de girar a posição. |
O princípio que sustenta o resto da edição é curto. No RendA+, a promessa contratada é um fluxo, e o preço de tela é apenas a estimativa do dia sobre quanto vale abrir mão desse fluxo. |
| |
|
| |
|
II A Matemática
240 depósitos de cem reais corrigidos
|
| |
| |
A conta do RendA+ começa numa unidade que quase ninguém usa ao falar de renda fixa, que é a parcela mensal em vez do valor de face. |
Cada título do RendA+ paga, na fase de recebimento, o equivalente a cem reais por mês corrigidos pelo IPCA desde a data de referência do papel, e paga isso 240 vezes. |
A conta total por unidade é imediata. Duzentas e quarenta parcelas de cem reais somam 24 mil reais em valores de referência, distribuídos ao longo de vinte anos. |
Quem quer uma renda mensal de 3.000 reais precisa, portanto, de trinta títulos, porque trinta parcelas de cem reais chegam ao valor mensal desejado. A conta de quantidade sai de uma divisão simples entre a renda alvo e a parcela unitária. |
| |
| Renda mensal alvo | Títulos necessários | Parcelas contratadas | Total em parcelas | | R$ 1.000 | 10 | 240 | R$ 240.000 | | R$ 3.000 | 30 | 240 | R$ 720.000 | | R$ 5.000 | 50 | 240 | R$ 1.200.000 |
|
Parcela de referência de R$ 100 por título, corrigida pelo IPCA. Valores em moeda de referência, ilustrativos, sem caráter de recomendação. |
A coluna da direita costuma surpreender quem só olhava saldo. Uma renda de 5.000 reais por mês durante vinte anos corresponde a 1,2 milhão de reais em parcelas contratadas, sem contar a correção da inflação aplicada mês a mês. |
Do outro lado da conta está o desembolso. Como o pagamento só começa numa data distante e é diluído em vinte anos, o preço de compra de cada título é uma fração pequena do que ele vai pagar, e essa fração encolhe conforme o vencimento escolhido fica mais longe. |
É por essa razão que dois investidores com o mesmo aporte mensal chegam a rendas contratadas bem diferentes ao escolherem vencimentos separados por quinze anos. O tempo entre a compra e a conversão faz o trabalho pesado. |
| |
No RendA+, o investidor não acumula um saldo e depois decide o que fazer com ele. Ele compra parcelas mensais, uma a uma, e sabe desde o primeiro aporte quantas já garantiu. |
|
| |
A venda antecipada entra na conta por uma porta completamente diferente. Ela não devolve um número de parcelas, ela devolve um preço. |
O Tesouro garante recompra diária, e o valor pago é o preço vigente naquele dia, calculado com a taxa que o mercado pratica naquela manhã para aquele vencimento específico. |
O investidor que carrega até a conversão recebe uma quantidade conhecida de parcelas corrigidas. O investidor que vende antes recebe um valor único, definido por uma taxa que ele não escolheu e num momento que ele talvez não tenha escolhido também. |
A troca é assimétrica no que se perde. Sai um calendário de 240 depósitos com correção embutida, entra um pagamento único que precisa ser reinvestido em algum lugar, com as condições que existirem naquele dia. |
O reinvestimento é a parte que o extrato não mostra. Recomprar a mesma renda mensal depois exige que as condições de mercado estejam ao menos tão boas quanto as do dia da venda, e nada garante isso. |
| |
|
| |