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ED 092

Nove anos até o Ibovespa voltar ao topo

De maio de 2008 a outubro de 2017 o índice não saiu do lugar, e só o aporte mensal mudou o saldo de quem seguiu comprando.

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O pregão de 20 de maio de 2008, em pontos

O pregão de 20 de maio de 2008 terminou com o Ibovespa em 73.516 pontos, o fechamento mais alto que o índice tinha registrado em toda a sua história até aquela tarde.

O ambiente ajudava a acreditar que o número era apenas uma parada de rota. O Brasil tinha acabado de receber o grau de investimento de uma agência internacional de classificação de risco, o minério e o petróleo estavam em preços elevados, e a bolsa brasileira aparecia nas capas como o destino natural do dinheiro estrangeiro.

Quem abriu conta em corretora naquele mês entrou num mercado que vinha de anos seguidos de alta. A conversa em jantar de família tratava a renda variável como uma escada com degraus previsíveis, e a única dúvida parecia ser o tamanho do cheque, nunca a data em que ele seria feito.

A marca dos 73.516 pontos só seria superada em outubro de 2017. Entre uma data e outra passaram nove anos e cinco meses, aproximadamente 113 pregões de fechamento de mês, dois presidentes diferentes, uma recessão longa e uma sequência de crises que ninguém tinha na planilha em maio de 2008.

Um investidor que colocou todo o dinheiro disponível naquele topo e não fez mais nada olhou para a mesma quantia por quase uma década inteira. Em termos nominais, ele empatou. Em termos de poder de compra, ele perdeu uma fatia relevante do patrimônio para a inflação do período.

Outro investidor, com o mesmo dinheiro, dividiu o valor em parcelas mensais e continuou comprando durante todos aqueles anos, incluindo os meses em que o índice estava 50% abaixo do topo e a manchete dizia que a bolsa era um erro de alocação.

Os dois viram exatamente o mesmo gráfico e chegaram em outubro de 2017 com saldos muito diferentes. O gráfico do índice não explica a diferença, porque ele é idêntico para os dois. A explicação está no número de vezes que cada um comprou e no preço médio que cada rotina produziu.

A primeira parte da conta começa no que aconteceu com o índice depois daquele fechamento recorde, e no motivo pelo qual voltar ao ponto de partida é muito mais difícil do que sair dele.

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I  O Princípio

A aritmética cruel da recuperação

 
 

Em 27 de outubro de 2008, cinco meses depois do fechamento recorde, o Ibovespa encerrou o pregão em 29.435 pontos. A queda acumulada desde o topo passava de 59%.

A conta que assusta não é a da queda. É a da volta. Um ativo que cai 59% precisa subir 146% para voltar exatamente ao ponto onde estava, porque a alta é calculada sobre uma base muito menor do que a base da queda.

A assimetria é aritmética pura e não depende de opinião sobre a bolsa. Uma queda de 50% exige alta de 100%, uma queda de 60% exige alta de 150%, e uma queda de 80% exige alta de 400% só para empatar.

 

Perder metade do valor e recuperar metade do valor são operações de tamanhos completamente diferentes. A segunda é o dobro da primeira.

 

É essa assimetria que transforma um ano ruim em quase uma década de espera. O índice não precisou de nove anos para subir 146%, precisou de nove anos porque no meio do caminho ele subiu, caiu de novo, subiu outra vez e devolveu boa parte do ganho mais de uma vez.

A trajetória do período tem pouco a ver com a linha reta que a memória constrói depois. O índice voltou aos 70 mil pontos em 2010, caiu para a faixa dos 44 mil em 2015 e 2016, e só então retomou o caminho que levaria à superação da marca no fim de 2017.

Para quem entrou de uma tacada só no topo, cada um desses movimentos era uma pergunta sobre a decisão original. O dinheiro estava parado, o índice oscilava, e a única ação disponível era esperar ou desistir.

A desistência costuma acontecer no pior momento possível. O investidor que aguentou a queda de 2008 e a lateralidade de 2011 tinha uma probabilidade alta de vender no fundo de 2015, quando a soma de tempo perdido e prejuízo acumulado ficou grande demais para carregar.

O princípio que sustenta a conta da seção seguinte cabe numa frase. Quando o preço de entrada é único, o resultado depende inteiramente da data em que ele foi escolhido, e a data é a variável que ninguém consegue acertar de propósito.

O aporte mensal ataca exatamente essa dependência. Ele não promete evitar a queda, não antecipa o fundo e não prevê a recuperação. Ele apenas troca uma decisão grande e irreversível por muitas decisões pequenas e repetidas.

 
 
 
 

II  A Matemática

113 aportes contra um ponto único

 
 

A comparação fica clara quando as duas rotinas partem do mesmo bolso. Considere R$ 113.000 disponíveis em maio de 2008 e dois destinos possíveis para esse valor ao longo dos nove anos e cinco meses seguintes.

Na primeira rotina, o valor inteiro compra o índice em 20 de maio de 2008, a 73.516 pontos, e fica parado. Em outubro de 2017, com o índice de volta à mesma faixa, o patrimônio nominal é praticamente o mesmo dos R$ 113.000 iniciais.

Na segunda rotina, o mesmo valor é dividido em 113 parcelas de R$ 1.000, uma por mês, do primeiro mês ao último. Cada parcela compra a quantidade de índice que o dinheiro permite no fechamento daquele mês, sem qualquer tentativa de escolher o momento.

O ponto central da segunda rotina é o preço médio. As parcelas dos meses de queda compraram muito mais índice pelo mesmo dinheiro, e essas compras baratas puxam a média do período inteiro para bem abaixo dos 73.516 pontos do ponto de partida.

Simulação do períodoUma entrada única113 aportes mensais
Valor total aportadoR$ 113.000R$ 113.000
Preço de referência médio73.516 pontoscerca de 55.000 pontos
Índice em outubro de 2017cerca de 74.000 pontoscerca de 74.000 pontos
Patrimônio final estimadocerca de R$ 113.700cerca de R$ 152.000

Simulação ilustrativa com o Ibovespa em pontos, sem dividendos, sem custos e sem correção pela inflação. Valores históricos arredondados, sem caráter de recomendação.

A leitura da terceira linha é a que costuma passar despercebida. O índice terminou o período no mesmo lugar para as duas rotinas, e ainda assim a diferença entre os dois patrimônios finais passa de R$ 38.000.

A diferença não veio de acerto de timing, de escolha de ação ou de leitura macroeconômica. Ela veio de um preço médio cerca de 25% menor, construído por parcelas compradas nos meses em que a bolsa estava barata justamente porque as notícias eram ruins.

 

A queda de 2008 não foi um obstáculo para quem aportava todo mês. Ela foi o desconto que produziu o preço médio da década inteira.

 

O mecanismo tem nome técnico e ele importa menos que a mecânica. Ao investir um valor fixo em dinheiro, e não uma quantidade fixa de cotas, o investidor compra automaticamente mais quando o preço cai e menos quando o preço sobe, sem precisar decidir nada.

Vale registrar o outro lado da conta, porque a rotina de parcelas não vence sempre. Em um mercado que sobe de forma contínua desde o primeiro dia, a entrada única fica na frente, já que o dinheiro que ficou esperando o próximo mês perdeu a alta.

O que a segunda rotina entrega não é retorno máximo, é redução da dependência de uma data específica. Ela troca a chance de acertar o melhor ponto de entrada pela garantia de nunca ter concentrado tudo no pior.

E existe uma condição sem a qual a conta inteira desmonta. A parcela mensal precisa continuar sendo executada exatamente nos meses em que executá-la parece a decisão mais absurda do calendário.

 
 
 
 

III  A Aplicação

A rotina que não consulta a cotação

 
 

O aporte mensal falha por um motivo previsível, e ele não é financeiro. A parcela some da rotina quando o mercado cai forte, porque comprar um ativo em queda contraria tudo o que o noticiário e o extrato estão dizendo naquela semana.

A defesa é tirar a execução do campo da decisão e colocar no campo do processo. Um aporte que depende da opinião do investidor sobre o mês compete com o medo do mês, e o medo ganha essa disputa com frequência alta.

 

A parcela que você mais vai querer pular é estatisticamente a que mais contribui para o preço médio da década.

 

O primeiro movimento é definir o valor pela renda, e não pela expectativa de mercado. Uma parcela calibrada em cima do orçamento mensal sobrevive a uma queda de 40% no índice, enquanto uma parcela calibrada pelo entusiasmo de um ano bom desaparece no primeiro trimestre ruim.

O segundo movimento é fixar a data. Um dia definido do mês, próximo ao recebimento da renda, transforma o aporte numa despesa recorrente da mesma natureza do aluguel, executada antes que o dinheiro tenha tempo de encontrar outro destino.

Três passos organizam a rotina antes do próximo mês.

1

Defina o valor mensal como percentual fixo da renda líquida, num tamanho que você conseguiria manter com o índice 40% abaixo do preço de hoje.

2

Marque um dia único do mês para a execução, logo após a entrada da renda, e mantenha esse dia independentemente do noticiário e do saldo da carteira.

3

Escreva antes qual notícia autorizaria interromper os aportes, e trate qualquer motivo fora dessa lista como emoção do mês, não como decisão de alocação.

 

O primeiro passo protege a continuidade. Um aporte grande demais é abandonado no primeiro aperto de orçamento, e uma rotina interrompida por três meses perde exatamente as compras mais baratas do ciclo.

O segundo passo elimina a deliberação mensal. Sem data marcada, o aporte compete todo mês com uma reserva de motivos para adiar, e a lista de motivos fica mais convincente quanto pior está o mercado.

O terceiro passo é o que separa disciplina de teimosia. Existem razões legítimas para parar de aportar, como perda de renda, mudança de objetivo ou necessidade de liquidez, e nenhuma delas tem relação com a cotação do dia.

A rotina não garante retorno nem elimina o risco de a bolsa passar muitos anos abaixo do topo anterior.

O que ela resolve é a variável que os nove anos entre 2008 e 2017 mediram com precisão. Quem depende de uma única data acertada fica refém dela, e quem transforma a compra em rotina fica com o preço médio do período inteiro.

"Qual foi o último mês em que você pulou o aporte, e o que dizia o gráfico naquela semana?"

 
 
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