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Transportes pesa 20% no índice, educação 6%
Com a mesma tabela de preços, o IPCA do exemplo fecha em 3,9% e a inflação da família que paga escola fecha em 5,0%.
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Uma cesta de vime sobre a mesa de estudo
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Um título indexado à inflação promete uma coisa muito específica ao investidor: devolver, no vencimento, o mesmo poder de compra que entrou na aplicação, mais um juro real combinado antes. A promessa é boa, o mecanismo funciona, e o dinheiro chega corrigido na data marcada. O que a promessa não diz é de quem é o poder de compra que está sendo protegido. A correção usa um índice, o índice usa uma cesta de consumo, e essa cesta pertence a uma família média que existe numa tabela do IBGE, não na sua sala de jantar. A distância entre as duas cestas é medida e pública. O IPCA divide o consumo em nove grupos, e cada grupo entra na conta com um peso fixo, definido por pesquisa de campo. Transportes responde por perto de um quinto do índice inteiro, uma fatia construída principalmente por combustível, passagem e a compra do veículo. Educação responde por perto de um vigésimo, e dentro dela cabe toda a mensalidade escolar do país. Uma família que trocou o carro por transporte público e paga duas mensalidades de escola vive exatamente o inverso desses pesos. O grupo que mais pesa no índice quase não aparece no orçamento dela, e o grupo que mais consome o orçamento quase não aparece no índice. Quando o preço da gasolina cai e a mensalidade escolar sobe, o índice oficial registra um número baixo e a conta dessa casa registra um número alto. Nenhum dos dois está errado. Eles medem cestas diferentes. A consequência é direta na alocação. Um investidor que aceita o juro real de um título indexado está aceitando um juro real medido contra a cesta média, e o poder de compra que ele quer preservar é o da cesta própria. Entender como os pesos da cesta oficial são construídos, e por que eles quase nunca coincidem com o seu extrato, é o começo da conta que vem em seguida. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
A cesta média não mora na sua casa
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O IPCA não é uma média simples de preços. Ele é uma média ponderada, e quase toda a informação relevante do índice está nos pesos, não nas variações que aparecem nas manchetes. |
Os pesos saem da Pesquisa de Orçamentos Familiares, a POF, levantamento em que o IBGE registra o que as famílias brasileiras efetivamente compram ao longo de um ano. A pesquisa vai à casa das pessoas, anota despesa por despesa, e transforma o resultado numa estrutura de consumo. |
Dessa estrutura nasce a cesta. Cada grupo de gasto entra no índice com uma fatia proporcional ao que ele representa no orçamento da família média pesquisada, e essa fatia permanece fixa até a próxima atualização da estrutura de pesos. |
O IPCA tem população-alvo definida com precisão. Ele mede famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos, moradoras de áreas urbanas de um conjunto de regiões metropolitanas e municípios selecionados, e nada além disso. |
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A pergunta que o índice responde é "quanto encareceu o consumo da família urbana média". Ela nunca foi "quanto encareceu o seu consumo". |
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Os nove grupos e o que eles carregam.** Transportes reúne combustível, passagem, seguro e a compra do veículo. Alimentação e bebidas reúne o mercado e a refeição fora de casa. Habitação reúne aluguel, condomínio, energia elétrica e gás. Educação reúne mensalidade escolar, curso e material didático. |
Dois desses grupos concentram sozinhos perto de 40% da cesta. Alimentação e bebidas e Transportes ficam cada um na casa dos 20%, e é por essa razão que uma alta de combustível ou uma quebra de safra movimentam o índice cheio de forma visível. |
No outro extremo estão os grupos leves. Educação fica perto de 6%, Comunicação perto de 5%, Vestuário perto de 4,5%. Um reajuste de 10% na mensalidade escolar contribui com pouco mais de meio ponto para o índice anual, mesmo sendo a maior conta do mês de muita gente. |
A ponderação também não acompanha o seu ciclo de vida. Quem tem filho pequeno vive uma cesta pesada em educação e saúde. Quem já quitou o imóvel e não tem carro vive uma cesta pesada em alimentação e serviços. O peso do índice segue o mesmo nos três casos. |
O princípio que sustenta o resto da edição cabe em uma linha. O índice mede a inflação de uma cesta específica que não é a sua, e a diferença entre as duas cestas não é nota de rodapé estatística: ela é a distância entre a média do país e a conta que chega na sua casa. |
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II A Matemática
3,9% no índice, 5,0% na conta de casa
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A conta que separa as duas inflações é uma multiplicação simples repetida nove vezes. Cada grupo tem um peso e uma variação de preço no período, o produto dos dois é a contribuição do grupo, e a soma das contribuições é o índice. |
O exercício abaixo usa os pesos aproximados da cesta oficial de um lado e o orçamento de uma família com dois filhos em escola particular e sem carro do outro. As variações de preço são as mesmas nas duas colunas, porque os preços do país são os mesmos para todo mundo. |
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| Grupo | IPCA | Família | 12m | No índice | Na família | | Alimentação e bebidas | 20,7% | 22% | 5,0% | 1,04 p.p. | 1,10 p.p. | | Transportes | 20,8% | 8% | 1,0% | 0,21 p.p. | 0,08 p.p. | | Habitação | 15,2% | 16% | 4,0% | 0,61 p.p. | 0,64 p.p. | | Saúde e cuidados pessoais | 13,1% | 12% | 6,0% | 0,79 p.p. | 0,72 p.p. | | Educação | 5,9% | 20% | 9,0% | 0,53 p.p. | 1,80 p.p. | | Demais grupos | 24,3% | 22% | 3,0% | 0,73 p.p. | 0,66 p.p. | | Total | 100% | 100% | | 3,9% | 5,0% |
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Pesos aproximados da estrutura do IPCA e variações hipotéticas montadas para o exercício. Exemplo didático, sem caráter de recomendação nem de projeção. |
A leitura da linha de Educação é a que explica tudo. O mesmo reajuste de 9% entra no índice oficial valendo 0,53 ponto e entra na conta dessa família valendo 1,80 ponto, porque o peso saltou de 5,9% para 20%. |
A linha de Transportes trabalha na direção oposta e com a mesma força. Um grupo enorme no índice, com variação baixa no período, puxa o número oficial para baixo e segura a manchete em patamar confortável. Na família sem carro, esse mesmo grupo quase não tem voz. |
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A diferença de 1,1 ponto não vem de preço nenhum. Ela vem inteira dos pesos, porque as duas colunas usam exatamente a mesma tabela de variações. |
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O tamanho do desvio cresce com o tempo, e é aí que a conta encontra a carteira. Um título que paga IPCA mais 6% ao ano protege o poder de compra da cesta média, e essa família recebe correção de 3,9% enquanto o custo de vida dela subiu 5,0%. |
Em um ano a diferença consome pouco mais de um ponto do juro real contratado. Em dez anos de repetição, o juro real efetivo dessa família fica sensivelmente abaixo do juro real nominal do papel, mesmo que o emissor cumpra o contrato à risca todos os anos. |
Existem índices com outras cestas, e comparar as populações-alvo ajuda. O INPC mede famílias de 1 a 5 salários mínimos, com peso maior de alimentação, e costuma se descolar do IPCA justamente nos períodos em que a comida sobe mais que a média. |
Nenhum deles resolve o problema de fundo. Toda cesta oficial é uma média de alguma população, e nenhuma população estatística inclui uma família só, com duas mensalidades escolares e nenhum tanque de combustível para encher. |
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