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Onde a custódia da B3 não chega
R$ 10.000 em Tesouro Selic pagam R$ 0 de custódia, e o mesmo valor em outro título do Tesouro paga R$ 20 por ano.
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Uma nota de dez sob a lupa do arquivo
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R$ 0,00. Foi quanto a B3 cobrou de taxa de custódia, ao longo de doze meses inteiros, sobre uma reserva de emergência de R$ 10.000 aplicada em Tesouro Selic. A taxa existe e tem valor definido em tabela pública. São 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos do Tesouro Direto guardados em nome do investidor, cobrados pela B3 pelo serviço de custódia, registro e movimentação dos papéis. A cobrança não chega por boleto. Ela é provisionada dia a dia sobre o valor de mercado da posição e debitada na conta da corretora em janeiro e em julho, ou antes, quando o investidor vende o título ou o papel vence. A isenção que interessa à reserva de emergência tem endereço estreito. Ela alcança apenas o Tesouro Selic, e apenas o estoque de até R$ 10.000 nesse título; qualquer valor acima do teto volta a pagar a taxa cheia sobre o excedente. O desenho da regra empurra a decisão para um lado só quando a reserva é pequena. Um investidor com R$ 8.000 guardados para imprevisto tem, no Tesouro Selic, liquidez diária, marcação suave, resgate em D+0 na maior parte das corretoras e custódia zerada, sem contrapartida. O mesmo investidor com o mesmo dinheiro em Tesouro Prefixado ou em Tesouro IPCA+ paga a custódia integral e ainda carrega marcação a mercado, que oscila com a curva de juros e pode entregar prejuízo nominal na venda antecipada. A conta parece pequena e é pequena no primeiro ano. Ela cresce com o tempo de permanência e com o tamanho do estoque, porque a taxa recai sobre o saldo, e o saldo sobe a cada capitalização de juros dentro do próprio título. Existe ainda a camada da corretora. A taxa de agente de custódia, cobrada por muitas instituições até a metade da década passada, foi zerada pela maioria das corretoras de varejo, o que deixa a custódia da B3 como o único custo fixo recorrente da aplicação. O primeiro passo é entender exatamente o que a taxa remunera e por que a isenção foi desenhada para um título só. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
A isenção tem título e teto escritos
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A taxa de custódia do Tesouro Direto remunera a infraestrutura que guarda o título. A B3 registra a posição no nome do investidor, processa os pagamentos de juros e de principal, movimenta compra e venda e mantém o saldo separado do patrimônio da corretora. |
O percentual está em tabela pública e vale 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos custodiados. O cálculo é diário, proporcional ao valor de mercado da posição em cada dia, e a soma do período é debitada em duas datas ao longo do ano. |
A cobrança acontece no primeiro dia útil de janeiro e no primeiro dia útil de julho, e também nos eventos que reduzem a posição, como venda antecipada, vencimento do papel e pagamento de cupom semestral. |
O ponto que muda a escolha do título está na exceção. O Tesouro Selic recebeu isenção de custódia para o estoque de até R$ 10.000, e nenhum outro título do Tesouro Direto tem tratamento parecido. |
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A isenção não premia o investidor pequeno em geral, ela premia um título específico até um valor específico, e sai de cena no primeiro real acima do teto. |
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O motivo do desenho é operacional e público. O Tesouro Selic é o papel de liquidez diária, com oscilação mínima de preço, indexado à taxa básica, e serve de porta de entrada para quem guarda dinheiro de curto prazo sem apetite por marcação a mercado. |
A isenção considera o estoque no título, não o valor aportado. Um investidor que aplicou R$ 9.500 e viu a posição crescer para R$ 10.400 com o rendimento passa a pagar custódia sobre os R$ 400 que excedem o teto, sem que ele tenha feito qualquer aporte novo. |
O teto também não se multiplica por conta ou por corretora. A contagem olha a posição do investidor por CPF, então abrir uma segunda conta em outra instituição não cria uma segunda faixa isenta. |
Um detalhe de calendário costuma passar batido. Quem resgata o título antes de janeiro ou de julho paga na hora do resgate o valor provisionado até ali, e o extrato mostra o débito junto com a liquidação da venda. |
O princípio que organiza a leitura cabe em uma frase. A taxa de custódia é um custo recorrente sobre saldo parado, e o único lugar do Tesouro Direto onde ela desaparece é uma faixa estreita de um título de liquidez diária. |
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II A Matemática
R$ 166 em cinco anos sobre R$ 10.000
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O exercício parte de uma reserva de emergência de R$ 10.000 e de uma taxa básica de 10,9% ao ano, mantida constante para isolar o efeito da custódia. De um lado, o dinheiro fica em Tesouro Selic dentro da faixa isenta. Do outro, fica em um título do Tesouro Direto sem direito à isenção. |
O primeiro ano mostra a diferença em valor absoluto pequeno. A posição isenta paga R$ 0 de custódia e a posição tributada pela taxa paga cerca de R$ 20, correspondentes a 0,20% sobre os R$ 10.000 guardados. |
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| Item | Tesouro Selic até o teto | Outro título do Tesouro | | Valor | R$ 10.000 | R$ 10.000 | | Custódia da B3 | isenta | 0,20% ao ano | | Custo no primeiro ano | R$ 0 | R$ 20 | | Rendimento líquido de custódia | 10,90% ao ano | 10,68% ao ano | | Saldo em 5 anos | R$ 16.775 | R$ 16.609 |
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Exercício com taxa básica constante de 10,9% ao ano, sem imposto de renda e sem IOF em nenhum dos lados, para isolar o efeito da custódia sobre o saldo. Exemplo didático, sem caráter de recomendação nem de projeção. |
Cinco anos de capitalização transformam a taxa em saldo. Os R$ 10.000 rendendo 10,90% ao ano chegam a R$ 16.775, e os mesmos R$ 10.000 rendendo 10,68% ao ano chegam a R$ 16.609, com R$ 166 de distância acumulada. |
O número tem endereço preciso. R$ 166 é o preço de guardar a reserva de emergência fora da faixa isenta durante cinco anos, cobrado sobre dinheiro que não foi movimentado e que não assumiu risco nenhum de mercado. |
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Os R$ 166 não vêm de uma escolha de risco que deu errado, eles vêm de uma linha de tabela que o investidor nunca abriu. |
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O tamanho da reserva reorganiza a conta inteira. Numa posição de R$ 30.000 em Tesouro Selic, a isenção cobre os primeiros R$ 10.000 e a taxa recai sobre os R$ 20.000 restantes, o que dá R$ 40 de custódia no primeiro ano. |
A partir de um certo tamanho, a custódia deixa de comandar a decisão. Numa reserva de R$ 100.000, o custo anual chega a R$ 180 sobre o excedente, e a comparação relevante passa a ser com um fundo de renda fixa simples de taxa baixa ou com um CDB de liquidez diária que pague acima de 100% do CDI. |
O imposto de renda continua rodando por cima de tudo, com alíquota regressiva de 22,5% sobre o rendimento em resgates até 180 dias e 15% depois de dois anos. O IOF alcança o rendimento em resgates com menos de 30 dias, o que reforça o desenho de uma reserva construída para ficar parada. |
A aritmética da comparação é direta. O rendimento bruto do papel de liquidez diária acompanha a taxa básica nos dois cenários, a custódia incide em apenas um deles, e a diferença de 0,22 ponto percentual ao ano vira saldo pela capitalização composta. |
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A essência da gestão de investimentos é a gestão de riscos, não a gestão de retornos. Benjamin Graham, O Investidor Inteligente, 1949 |
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