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O dividendo que sai com 30% a menos
Um yield anunciado de 2,0% ao ano chega ao investidor do BDR como 1,4%, e a diferença nasce fora do Brasil.
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Uma balança de latão sobre a mesa de trabalho
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US$ 0,30 por BDR. Foi o pedaço do dividendo que ficou nos Estados Unidos antes de qualquer conversão para reais, no exercício montado para esta edição. A empresa americana declarou US$ 2,00 por ação no ano. O programa de certificados adotava razão de dois BDR para cada ação, então cada certificado tinha direito a US$ 1,00 bruto por ano. A retenção na fonte levou trinta centavos de dólar e o restante seguiu caminho. A conta que sobrou chegou à corretora brasileira como US$ 0,70 por certificado, convertidos pela cotação do dia do pagamento. O investidor viu o crédito na conta e comparou com o número que tinha lido no site de relações com investidores da empresa, que falava em 2,0% ao ano. Nenhum dos dois números estava errado. A empresa declarou o que declarou, e a corretora creditou o que recebeu do custodiante lá fora. Entre um ponto e outro existe uma etapa fiscal que acontece fora do Brasil e não aparece no aplicativo de nenhuma corretora brasileira. Essa etapa tem nome, alíquota e endereço. A legislação tributária dos Estados Unidos aplica retenção na fonte sobre dividendos pagos a investidores não residentes, com alíquota geral de 30% para países sem acordo de bitributação em vigor com o governo americano, condição em que o Brasil se encontra. O efeito é aritmético e permanente. Um dividend yield anunciado de 2,0% ao ano vira 1,4% ao ano na conta de quem recebe pelo certificado, todo ano, independentemente do humor do mercado ou da qualidade da empresa escolhida. O certificado carrega ainda um segundo motor que quase ninguém separa do primeiro. Ele acompanha o preço da ação em dólar e acompanha também a cotação da moeda, e as duas variações se multiplicam dentro do mesmo papel, para cima e para baixo. Uma alta de 10% da ação em dólar pode virar 1,2% em reais quando a moeda americana cede, e a mesma alta de 10% pode virar 18,8% quando a moeda avança. O papel foi o mesmo nos dois casos, a empresa foi a mesma, o resultado trimestral foi o mesmo. A primeira parte da edição desmonta o certificado peça por peça, para mostrar de onde vem cada uma dessas variações. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
A ação, o dólar e a retenção na fonte
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O BDR não é uma ação americana comprada na bolsa brasileira. Ele é um certificado emitido no Brasil por uma instituição depositária, lastreado em ações que ficam custodiadas fora do país, e negociado em reais na B3 como qualquer outro papel local. | A instituição depositária compra e mantém as ações no exterior e emite os certificados no mercado brasileiro contra esse lastro. Cada programa define uma razão, que diz quantos certificados correspondem a uma ação, e essa razão pode ser de um para um, de dois para um, de dez para um ou qualquer outra. | O preço do certificado no pregão brasileiro é uma conta de três variáveis. Ele reflete a cotação da ação no exterior, a cotação do dólar contra o real e a razão de lastro do programa, e essa aritmética é acompanhada de perto por participantes que arbitram desvios entre os dois mercados. | Uma ação de US$ 100, com dólar a R$ 5,40 e razão de dois certificados por ação, produz um certificado de R$ 270. Se a ação for a US$ 110 e o dólar recuar para R$ 4,97, o certificado passa a valer R$ 273,35, uma variação de 1,2% em reais para uma alta de 10% em dólar. | | | O papel entrega duas variações multiplicadas uma pela outra, e o investidor brasileiro recebe o produto delas. |
| | | O dividendo percorre um trajeto próprio, com uma parada a mais. A empresa paga o provento em dólar ao custodiante que guarda as ações no exterior, e o pagamento a um beneficiário não residente nos Estados Unidos sofre retenção na fonte antes de sair de lá. | A alíquota geral dessa retenção é de 30% para residentes de países sem acordo de bitributação em vigor com os Estados Unidos. O Brasil não tem esse acordo, então o dividendo destinado ao investidor brasileiro sai de lá com setenta por cento do valor declarado. | O que sobra é convertido em reais pela instituição depositária e creditado na conta da corretora, já líquido da retenção americana, sem que o extrato brasileiro mostre a etapa anterior. O investidor recebe o valor final e raramente vê a linha do desconto. | Existe ainda o tratamento tributário no Brasil, que depende do enquadramento do investidor e do informe de rendimentos que a corretora emite, e que fica fora da conta desta edição por ter regra própria. O ponto aqui é anterior: quando o crédito chega ao Brasil, ele já veio menor. | O princípio que organiza a leitura cabe em uma frase. O certificado replica a variação da ação, multiplica essa variação pelo câmbio e entrega o dividendo já reduzido por um imposto cobrado fora do território brasileiro. |
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II A Matemática
O yield de 2,0% que credita 1,4%
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O exercício parte de uma ação americana negociada a US$ 100, com dividendo declarado de US$ 2,00 por ano, dólar a R$ 5,40 e programa com razão de dois certificados por ação. Corretagem, custódia e tributação brasileira ficam de fora para isolar o efeito da retenção e do câmbio. | Cada certificado custa R$ 270 e tem direito a US$ 1,00 bruto de dividendo por ano. A retenção de 30% na origem leva US$ 0,30, restam US$ 0,70, e a conversão pela cotação de R$ 5,40 credita R$ 3,78 por certificado. | | | | Item | Valor bruto declarado | Valor creditado | | Dividendo por ação no ano | US$ 2,00 | US$ 1,40 | | Dividendo por certificado | US$ 1,00 | US$ 0,70 | | Convertido a R$ 5,40 | R$ 5,40 | R$ 3,78 | | Yield sobre certificado de R$ 270 | 2,00% | 1,40% |
| Exercício com ação de US$ 100, dividendo de US$ 2,00 ao ano, razão de dois certificados por ação e dólar a R$ 5,40, sem corretagem, sem custódia e sem tributação brasileira, para isolar o efeito da retenção na fonte. Exemplo didático, sem caráter de recomendação nem de projeção. | O yield anunciado e o yield creditado ficam separados por 0,6 ponto percentual ao ano. O número parece pequeno na leitura de um ano só, e é aí que a conta engana quem investe pensando em década. | Um aporte de R$ 10.000 que capitaliza 8,0% ao ano por dez anos vira R$ 21.589. O mesmo aporte capitalizando 7,4% ao ano, que é o retorno com o dividendo reduzido pela retenção, vira R$ 20.419. A distância chega a R$ 1.170 sem nenhuma decisão de compra ou venda no meio do caminho. | | | Seis décimos de ponto por ano viram mil e cento e setenta reais em dez anos sobre dez mil. |
| | | O câmbio entra com um efeito de outra natureza, que multiplica o resultado do papel. A ação que sobe 10% em dólar entrega 1,2% em reais quando a moeda americana cede 8%, e entrega 18,8% quando a moeda americana avança 8%, sobre a mesma variação do papel no exterior. | O certificado, portanto, embute uma posição cambial que o investidor nem sempre pediu. Quem compra o papel para ter exposição a uma empresa específica leva junto uma aposta na moeda, e o tamanho dessa aposta é igual ao valor investido. | Essa exposição pode ser exatamente o objetivo do investidor. Uma carteira concentrada em ativos em reais tem no certificado uma forma simples de reduzir a dependência de uma única moeda, e a variação cambial deixa de ser efeito colateral para virar parte da tese. | O que a conta exige é honestidade na hora de medir desempenho. Um certificado que subiu 18,8% num ano em que a ação subiu 10% teve oito pontos e meio vindos da moeda, e atribuir esse resultado ao acerto na escolha da empresa produz uma leitura falsa da própria habilidade. | | | Nos investimentos, você fica com aquilo que não paga. John C. Bogle, O Pequeno Livro do Investimento de Bom Senso, 2007 |
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