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O cupom que paga imposto antes da hora
Em dez anos, R$ 50.000 no título com juros semestrais terminaram R$ 3.511 atrás da versão sem cupom.
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Um calendário e duas pilhas de moedas na mesa
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22,5%. Foi a alíquota de imposto de renda que incidiu sobre o primeiro pagamento de juros de quem comprou um Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais e recebeu o cupom seis meses depois, pela tabela regressiva da Lei 11.033/2004, aplicada pela Receita Federal. Quem comprou a versão sem cupom do mesmo vencimento não entregou nada naquele dia. O valor que viraria imposto continuou dentro do título, rendendo a taxa real contratada na compra, e só encontrou o Leão no dia do resgate. Os dois papéis carregam a mesma promessa no nome e o mesmo devedor. Tesouro IPCA+ significa a variação do IPCA apurado pelo IBGE somada a uma taxa real travada no dia da aplicação, e o Tesouro Nacional honra a conta nas duas versões. A distinção mora no calendário do pagamento. A versão com juros semestrais devolve parte do rendimento a cada seis meses, em datas fixas do papel, e a versão principal junta tudo e devolve numa data só, a do vencimento. O investidor que ainda está acumulando patrimônio costuma escolher o cupom por um motivo confortável. Dinheiro pingando na conta duas vezes por ano parece prova de que a aplicação funciona, e a parcela recebida serve de consolo nos meses em que o preço do título cai na tela da corretora. O consolo tem preço, e ele aparece na retenção. Cada cupom é fato gerador de imposto de renda, descontado na fonte no instante do crédito, com a alíquota que corresponde ao tempo decorrido desde a aplicação naquele título. Nos dois primeiros anos, esse tempo decorrido é curto por definição. O cupom de seis meses paga 22,5%, o de doze meses paga 20%, os de dezoito e de vinte e quatro meses pagam 17,5%, e só do quinto pagamento em diante a alíquota desce para os 15% que a versão principal pagaria uma única vez, lá na frente. A parcela que virou imposto sai da base que renderia juro real nos anos seguintes. Ela não volta, não é compensada no vencimento e não aparece em nenhum extrato como perda, porque o extrato mostra apenas o que entrou. A primeira parte da edição mostra o momento exato em que o imposto encontra o dinheiro em cada uma das duas versões. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
Onde o imposto encontra o seu dinheiro
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O Tesouro IPCA+ principal funciona como uma conta fechada. O valor nominal do título é corrigido pelo IPCA todo mês e capitalizado pela taxa real contratada, e nenhum centavo sai do papel enquanto o investidor mantém a posição. | O imposto de renda desse título tem uma única data de encontro com o dinheiro. No resgate ou no vencimento, a Receita Federal cobra a alíquota da tabela regressiva sobre o rendimento acumulado, e quem passou de 720 dias paga os 15% da faixa mais baixa. | A versão com juros semestrais paga 6% ao ano sobre o valor nominal atualizado, divididos em dois créditos por ano. Como a conversão é composta, cada parcela equivale a 2,9563% do valor nominal atualizado, e não à metade aritmética dos 6%. | | | Cada cupom é um resgate parcial disfarçado de renda, e todo resgate encontra a tabela regressiva. |
| | | A alíquota de cada cupom depende do tempo corrido desde a compra do título, não da idade do cupom. Um investidor no sétimo ano de posição recebe os pagamentos já na faixa de 15%, e um investidor no primeiro ano recebe os dois primeiros nas faixas de 22,5% e de 20%. | O efeito acumulado vem do que acontece depois da retenção. O dinheiro que ficou no título principal continua capitalizando a taxa real do contrato, e o dinheiro retido no cupom simplesmente saiu do jogo. | Existe ainda um segundo vazamento, menos visível que o imposto. O cupom líquido cai na conta da corretora e precisa ser reinvestido por alguém, e esse alguém é o investidor, no preço e na taxa que o mercado oferecer naquele dia. | O Tesouro Direto publica diariamente as taxas dos títulos em oferta, e essas taxas se movem. Quem contratou uma taxa real de 6% ao ano em 2026 e recebe cupom em 2031 reinveste ao que estiver disponível em 2031, que pode ser mais alto, mais baixo ou impraticável em valor pequeno. | O princípio que organiza o tema cabe numa frase de tesouraria. Dinheiro que sai antes da hora perde duas vezes, uma no imposto retido e outra no juro que ele deixaria de compor até o vencimento. |
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II A Matemática
R$ 50.000 em dez anos, com e sem cupom
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O exercício parte de R$ 50.000 aplicados numa taxa real de 6% ao ano, o mesmo prazo de dez anos e o mesmo devedor nas duas versões. Os valores estão em poder de compra de hoje, com a correção do IPCA já embutida na conta, para que a comparação isole o efeito do calendário do imposto. | Na versão principal, o montante bruto ao fim de dez anos é de R$ 89.542. O rendimento de R$ 39.542 é tributado uma única vez em 15%, o que dá R$ 5.931 de imposto e deixa R$ 83.611 líquidos na conta. | Na versão com juros semestrais, a conta tem vinte pagamentos. Cada um vale R$ 1.478 brutos, os quatro primeiros sofrem as alíquotas de 22,5%, de 20% e de 17,5%, os dezesseis seguintes sofrem 15%, e o principal de R$ 50.000 volta no vencimento. | | | | Item | IPCA+ principal | IPCA+ com juros semestrais | | Aplicação inicial | R$ 50.000 | R$ 50.000 | | Pagamentos até o vencimento | 1 | 20 | | Imposto de renda total pago | R$ 5.931 | R$ 4.693 | | Resultado reinvestindo a 6% real | R$ 83.611 | R$ 83.174 | | Resultado reinvestindo a 4% real | R$ 83.611 | R$ 80.100 | | Distância no cenário de 4% real | zero | R$ 3.511 |
| Exercício didático com taxa real de 6% ao ano, prazo de dez anos, cupom semestral equivalente a 2,9563% do valor nominal atualizado e alíquotas da tabela regressiva da Lei 11.033/2004. Valores em poder de compra constante, sem taxa de custódia da B3, sem corretagem e sem arredondamento de quantidade mínima. Não é recomendação nem projeção de retorno. | A linha do imposto total costuma surpreender quem vê a tabela pela primeira vez. O investidor do cupom entregou R$ 4.693 à Receita Federal e o investidor do título principal entregou R$ 5.931, quase mil e duzentos reais a mais, e mesmo assim terminou com mais dinheiro. | | | O imposto menor saiu antes, e o que sai antes não rende. |
| | | A explicação está no cronograma. O imposto do título principal é maior porque a base tributável ficou dez anos crescendo dentro do papel, e o imposto do cupom é menor porque a base foi fatiada e cobrada em vinte pedaços pequenos, cada um deles arrancado do dinheiro que continuaria capitalizando. | O cenário de reinvestimento a 6% ao ano é o mais generoso possível com o cupom. Ele supõe que o investidor reaplica cada uma das vinte parcelas imediatamente, na mesma taxa real do contrato original, sem esquecer nenhuma e sem custo de transação, e mesmo nesse mundo perfeito a versão com cupom fica R$ 437 atrás. | O cenário de 4% ao ano descreve a vida como ela costuma andar. Taxa real mais baixa no dia do reinvestimento, dinheiro parado alguns dias na conta da corretora, parcela pequena demais para comprar uma fração nova sem esperar, e a distância pula para R$ 3.511 no mesmo prazo de dez anos. | | | O tempo é seu amigo; o impulso é seu inimigo. John Bogle, O Livro do Investimento de Bom Senso, 2007 |
| | | O prazo mais longo amplia tudo na mesma direção. Repetindo o exercício por vinte anos com reinvestimento a 4% real ao ano, a versão principal termina em R$ 143.803 e a versão com cupom termina em R$ 125.024, uma distância de R$ 18.779 sobre a mesma aplicação inicial. | |
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