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Os R$ 30 que saem antes de virar cota
Um aporte de R$ 1.000 com 3% de carregamento compra R$ 970 em cotas, e o desconto se repete em cada depósito.
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Uma balança de bronze sobre um livro de registros
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R$ 30. Foi quanto deixou de virar cota num aporte de R$ 1.000 feito num plano de previdência privada com taxa de carregamento de 3% na entrada, o percentual que a seguradora desconta do depósito no instante em que ele chega. O aporte aparece no extrato do mês como R$ 1.000 depositados. O saldo que passa a render a partir daquele dia é de R$ 970, porque a conversão em cotas aconteceu depois do desconto, e não antes. Taxa de carregamento é a cobrança que incide sobre o fluxo de dinheiro do plano, e não sobre o estoque acumulado. Ela pode ser cobrada na entrada de cada aporte, na saída de cada resgate ou nas duas pontas, e o regulamento do plano precisa dizer qual forma vale e em que percentual, por exigência da SUSEP, a autarquia federal que fiscaliza a previdência privada aberta no Brasil. A versão de entrada tem uma característica que a separa de qualquer outro custo do plano. Ela cobra antes de existir rendimento para cobrar, num momento em que o investidor ainda não ganhou nada e já entregou uma fatia do próprio capital. O vendedor costuma apresentar o percentual como valor miúdo. Três por cento de mil reais são trinta reais, e o argumento funciona porque compara a taxa com o aporte de um mês, o único número visível na mesa naquele momento. A conta que interessa compara a taxa com o patrimônio que ela não vai formar. Os R$ 30 do primeiro aporte teriam ficado vinte anos dentro do plano, rendendo a mesma rentabilidade do resto do saldo, e o que falta no fim é o valor futuro dos trinta reais, não os trinta reais. Cada aporte novo repete a cobrança. Quem deposita todo mês por duas décadas passa pelo caixa de entrada duzentas e quarenta vezes, e em cada passagem uma fatia do depósito fica para trás, sem nunca ter comprado uma única cota. A primeira parte da edição separa o que o carregamento faz do que a taxa de administração anual faz, porque as duas cobranças moram no mesmo contrato e não agem no mesmo lugar. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
O dinheiro que nunca virou cota
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Um plano de previdência privada aberta funciona como um condomínio de investidores. Cada aporte compra cotas de um fundo exclusivo do plano, e o patrimônio do investidor em qualquer data é o número de cotas multiplicado pelo valor da cota naquele dia. | Os dois nomes mais comuns de plano seguem essa mesma mecânica. PGBL significa Plano Gerador de Benefício Livre e permite deduzir os aportes da base do imposto de renda até o limite de 12% da renda bruta anual tributável, e VGBL significa Vida Gerador de Benefício Livre e não oferece a dedução, tributando apenas o rendimento no resgate. | A taxa de carregamento de entrada age antes da compra de cotas. O dinheiro chega à seguradora, o percentual contratado é retido, e só o que sobra é convertido no número de cotas que o valor do dia permite comprar. | | | O carregamento não cobra pelo resultado do plano; ele cobra pelo ato de depositar. |
| | | A taxa de administração age em outro momento e sobre outra base. Ela é um percentual anual sobre o patrimônio do fundo, descontado de forma diária e proporcional no valor da cota, e por isso ninguém a vê como lançamento no extrato: ela aparece como cota que rendeu um pouco menos. | As duas cobranças convivem no mesmo regulamento, e a soma delas é o custo real do plano. Um plano com carregamento zero pode ter administração alta, e um plano com administração baixa pode cobrar carregamento na entrada de cada aporte. | Existe ainda a versão de saída da mesma taxa, o carregamento postecipado, ou seja, cobrado depois. Nela o percentual incide sobre o valor resgatado e costuma cair com o tempo de permanência, até zerar depois de alguns anos de plano. | O carregamento de entrada não tem essa compensação pelo tempo. Ele é cobrado no ato, não retorna depois, não entra como crédito no resgate e não aparece em nenhuma linha do extrato como custo, porque o extrato registra o que foi convertido em cotas. | O princípio de tesouraria que organiza o tema é direto. Capital descontado na porta de entrada perde o rendimento de todo o prazo que teria pela frente, e esse prejuízo não é o percentual cobrado, é o percentual cobrado capitalizado até o dia do resgate. |
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II A Matemática
R$ 1.000 por mês durante vinte anos
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O exercício parte de aportes mensais de R$ 1.000, rentabilidade nominal de 8% ao ano dentro do plano e prazo de vinte anos, ou seja, duzentos e quarenta depósitos. Os dois planos comparados têm a mesma rentabilidade e a mesma taxa de administração, e diferem apenas no carregamento de entrada. | No plano sem carregamento, cada R$ 1.000 compra R$ 1.000 em cotas e o saldo ao fim de vinte anos chega a R$ 568.999. No plano com 3% de carregamento, cada aporte compra R$ 970 em cotas e o saldo termina em R$ 551.929. | | | | Item | Carregamento zero | Carregamento de 3% na entrada | | Aporte mensal declarado | R$ 1.000 | R$ 1.000 | | Valor convertido em cotas | R$ 1.000 | R$ 970 | | Retido na entrada em vinte anos | R$ 0 | R$ 7.200 | | Saldo em dez anos | R$ 180.124 | R$ 174.720 | | Saldo em vinte anos | R$ 568.999 | R$ 551.929 | | Distância em vinte anos | zero | R$ 17.070 |
| Exercício didático com aportes mensais de R$ 1.000, rentabilidade nominal de 8% ao ano capitalizada mensalmente, prazo de vinte anos e taxa de carregamento de 3% aplicada na entrada de cada aporte. Mesma taxa de administração nos dois planos, sem imposto de renda no resgate e sem correção dos aportes pela inflação. Não é recomendação nem projeção de retorno. | A linha do valor retido explica metade da história. Em vinte anos de depósitos, o investidor entregou R$ 7.200 de carregamento, soma dos R$ 30 de cada um dos duzentos e quarenta aportes, e a falta no saldo final é de R$ 17.070. | | | O buraco é 2,4 vezes maior que a taxa paga, e a diferença é o juro que a taxa levou embora. |
| | | O número tem uma propriedade que simplifica qualquer comparação de plano. Como o desconto é proporcional a cada aporte, o saldo final do plano com carregamento é sempre 97% do saldo do plano sem carregamento, em qualquer prazo e com qualquer rentabilidade. | Vale repetir a conta no prazo mais curto para ver a regra funcionando. Em dez anos, o plano sem carregamento chega a R$ 180.124 e o plano com 3% chega a R$ 174.720, exatamente os mesmos 97%, com uma distância de R$ 5.404. | A taxa de administração se comporta de outro jeito no mesmo período. Um percentual anual sobre o patrimônio cobra todo ano de um saldo maior, então o estrago dela cresce com o prazo: 0,4% ao ano a mais de administração consome 7,7% do saldo ao fim de vinte anos, mais que o dobro do que os 3% de carregamento consomem. | | | No mercado financeiro, você recebe aquilo que não paga. John Bogle, O Livro do Investimento de Bom Senso, 2007 |
| | | A consequência prática aparece no cruzamento das duas cobranças. Um plano com 3% de carregamento e administração de 0,8% ao ano empata com um plano sem carregamento e administração de 1,2% ao ano em 7 anos e 7 meses de permanência, porque é o tempo que a economia de 0,4% ao ano leva para devolver os 3% pagos na porta. | Antes desse ponto, o plano de carregamento zero entrega mais dinheiro. Depois dele, o plano de administração menor passa na frente e abre distância a cada ano, porque a vantagem dele se renova e a desvantagem dele já foi inteiramente paga no começo. | |
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