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50% escolheram O confisco do Plano Collor. Sai em 23/09.
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Os 4% de ações que criaram toda a riqueza
Hendrik Bessembinder mediu 25.332 ações americanas desde 1926 e achou 4% por trás de toda a riqueza líquida da bolsa.
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Uma agulha dourada numa pilha de palha
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4,3%. Foi a fatia das empresas listadas na bolsa americana que respondeu por toda a riqueza líquida criada por ela entre 1926 e 2016, na medição que Hendrik Bessembinder publicou no Journal of Financial Economics em 2018. Riqueza líquida, na definição do próprio estudo, é o ganho que sobra depois de descontar o que o dinheiro renderia parado num título do Tesouro americano de um mês. Toda empresa que rendeu menos que esse piso entra com sinal negativo na conta. A conta chegou a 1.092 empresas, de um universo de 25.332 papéis acompanhados pela base da Universidade de Chicago. As outras 24.240 se anularam entre si: o que umas somaram acima do piso, as outras devolveram abaixo dele. O leitor brasileiro costuma ouvir que a bolsa americana rendeu perto de 10% ao ano por um século. A frase está correta e descreve o índice, não a experiência de quem compra papéis separados. A explicação tem nome técnico simples: assimetria (a distribuição não fica equilibrada em torno da média). Uma ação pode cair no máximo 100%, e pode subir 10.000%, então poucas vencedoras gigantes puxam a média de um grupo em que a maioria dos participantes ficou para trás. Quem monta uma carteira de cinco ou dez papéis escolhidos a dedo não está apostando contra a média. Está apostando que conseguiu capturar pelo menos uma das 1.092, num sorteio em que 96 de cada 100 bilhetes não têm prêmio acima do Tesouro. A defesa do fundo de índice costuma ser apresentada como resignação, o investidor que desistiu de tentar. O estudo inverte a leitura: o índice é o único instrumento que garante a posse das vencedoras raras, porque compra todas as empresas listadas, inclusive as 4% que ninguém sabia identificar em 1970. A primeira parte da edição mostra como o levantamento foi montado, o que ele mediu em cada uma das 25.332 empresas e por que a mediana do grupo ficou abaixo de um título de um mês. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
O que Bessembinder mediu em 25.332 papéis
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| | Hendrik Bessembinder, professor de finanças da Arizona State University, publicou o levantamento com o título "Do Stocks Outperform Treasury Bills?" no Journal of Financial Economics em 2018. A pergunta do título já indica o desconforto: as ações batem mesmo o título de curtíssimo prazo do governo americano? | A base usada foi a do Center for Research in Security Prices, o centro de pesquisa da Universidade de Chicago que guarda o preço mensal de cada ação listada nas bolsas americanas desde 1926. Nada de amostra selecionada: entram as empresas que quebraram, as que foram compradas, as que sumiram por fusão. | O método mede a vida inteira de cada papel. Bessembinder calculou o retorno acumulado de comprar a ação no primeiro mês em que ela aparece na base e segurar até o último, reinvestindo dividendos, e comparou esse acumulado com o mesmo dinheiro rolando num título do Tesouro de um mês no mesmo período. | | | A maioria das ações ordinárias que apareceram na base desde 1926 teve retorno de vida inteira inferior ao dos títulos do Tesouro de um mês. Hendrik Bessembinder, Do Stocks Outperform Treasury Bills?, Journal of Financial Economics, 2018 |
| | | O primeiro número que sai do método incomoda: 57,8% das ações terminaram a vida abaixo do piso do Tesouro. A ação mediana da bolsa americana, aquela que fica exatamente no centro da fila, perdeu para o título mais conservador que existe no mercado americano. | O resultado mais frequente é pior que a mediana. O desfecho que mais se repete em toda a amostra é a perda total: a ação que vale zero, pela falência ou pela liquidação, aparece mais vezes que qualquer outra faixa de retorno. | A vida média de uma ação na base explica parte do desconforto. A empresa mediana permaneceu listada por cerca de sete anos e meio, prazo curto demais para o efeito dos juros compostos aparecer e longo o bastante para uma crise setorial acontecer. | | | 86 empresas, 0,34% da amostra, explicam metade dos US$ 34,8 trilhões de riqueza líquida que a bolsa americana criou em noventa anos. |
| | | O topo da fila concentra ainda mais do que a manchete dos 4% sugere. A empresa isolada que mais criou riqueza no período foi a ExxonMobil, com quase US$ 1 trilhão acima do piso do Tesouro, e as dez primeiras da lista respondem por perto de 17% do total. | O princípio que sai daqui dispensa pessimismo com ações. O retorno agregado da bolsa americana no século foi alto e real; ele apenas nasceu de um punhado de empresas que ninguém tinha como apontar com antecedência, e ficou distribuído de forma que a experiência típica de um papel isolado fosse ruim. | Esse princípio muda a pergunta que o investidor faz. A questão deixa de ser quais ações vão subir e passa a ser quantas ações a carteira precisa carregar para que as vencedoras raras estejam dentro dela quando aparecerem. | | | | | | |
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II A Matemática
A conta de quantos papéis a carteira precisa
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| | O exercício parte de uma simplificação honesta: tratar a proporção de 4,3% como a chance de um papel sorteado ao acaso ser um dos criadores de riqueza líquida. A conta ignora setor, tamanho e qualquer critério de seleção, e serve para medir quanto a concentração cobra de quem carrega poucos papéis. | A probabilidade de uma carteira sorteada conter pelo menos um desses papéis cresce devagar no começo. Com cinco ações sorteadas, a chance fica em 18,5%; com dez, em 33,5%. | | | | Ações na carteira | Chance de conter um dos 4,3% | Chance de ficar sem nenhum | | 1 | 4,3% | 95,7% | | 5 | 18,5% | 81,5% | | 10 | 33,5% | 66,5% | | 20 | 55,8% | 44,2% | | 40 | 80,5% | 19,5% | | 100 | 98,3% | 1,7% |
| Exercício didático que aplica a proporção de 4,3% medida por Bessembinder como probabilidade independente por papel sorteado. Ignora seleção por critério, correlação entre empresas e peso de cada posição na carteira. Não é recomendação nem projeção de retorno. | A carteira brasileira típica de quem escolhe ação a dedo tem entre seis e doze papéis. Nessa faixa, a chance de ficar sem nenhuma das grandes criadoras de riqueza passa de 60%, e a carteira fica dependendo de acerto de preço no curto prazo para justificar o trabalho. | | | Uma carteira de dez ações sorteadas tem 66,5% de chance de não conter nenhum dos papéis responsáveis pela riqueza líquida da bolsa. |
| | | O gestor profissional enfrenta a mesma aritmética, com um agravante. Fundo concentrado existe justamente para carregar poucas posições, e a estrutura que promete retorno acima do índice é a que mais aumenta a chance de perder as vencedoras raras. | A conta em reais deixa o efeito palpável. Imagine R$ 200.000 divididos em dez ações de R$ 20.000, num período de vinte anos: se nove delas empatam com a inflação e uma multiplica por vinte, a carteira termina em R$ 580.000, e o resultado inteiro veio de um único papel de R$ 20.000. | Troque a vencedora por uma perdedora total e a mesma carteira termina em R$ 180.000. A distância dos dois desfechos não depende de análise, de paciência nem de disciplina: depende de qual dos dez papéis o investidor escolheu carregar. | O fundo de índice resolve a aritmética pela via mais simples. Ele compra as quinhentas ou as mil empresas do mercado na proporção do valor de mercado de cada uma, o que garante presença nas 4% sem exigir a identificação delas com antecedência. | A conta central da edição cabe numa linha. A chance de uma carteira concentrada perder as poucas ações que criam riqueza é alta, e cada papel a mais na carteira compra um pedaço dessa chance de volta, até o ponto em que a carteira vira o próprio índice. | |
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