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ED 117

O ano do Tesouro Educa+ que casa com a matrícula

Para quem entra na faculdade em 2038, o Educa+ 2038 paga 60 parcelas pelo IPCA do primeiro ao último ano do curso.

Um calendário de mesa aberto em janeiro sobre uma escrivaninha azul-marinho, ao lado de um boleto de mensalidade escolar

O calendário escolar e o primeiro boleto

60 parcelas mensais. É quanto o Tesouro Educa+ paga, cada uma corrigida pelo IPCA (o índice oficial de inflação, medido pelo IBGE), desde o dia 15 de janeiro do ano que o investidor escolhe na hora da compra.

O título foi lançado pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3 em agosto de 2023, com um desenho diferente de quase tudo que existe na prateleira do Tesouro Direto. Durante a fase de acumulação, o dinheiro fica parado no título e rende. Quando o ano escolhido chega, o saldo vira uma mesada de cinco anos.

Cinco anos cobrem a duração de boa parte dos cursos de graduação no país, e o próprio batismo do produto entrega a intenção: pagar a faculdade de alguém, mês a mês, com dinheiro guardado muito antes.

Na tela da corretora, porém, os títulos aparecem como uma lista de anos com uma taxa ao lado de cada um. Educa+ 2030, 2035, 2038, 2042. As taxas mudam todo dia útil, e o olho do comprador faz o gesto de sempre diante de uma lista assim: procura a maior.

É nesse clique que a compra começa a dar errado, e o erro só aparece muitos anos depois. A taxa mostrada é o ganho acima da inflação que o título entrega se for mantido até a última parcela. Ela não diz nada sobre a data em que o dinheiro vai cair na conta, e a mensalidade da faculdade tem data.

Uma criança nascida em 2020 tende a fazer a matrícula no começo de 2038, aos 18 anos. O título que paga a primeira parcela em janeiro de 2038 encaixa na primeira mensalidade. O de 2035 começa a pagar três anos antes, quando ela ainda está no ensino médio; o de 2041 começa três anos depois, com o curso já no quarto ano.

Nos dois casos desencaixados, a família recebe o dinheiro prometido. O defeito está na hora. Parcela adiantada cai na conta corrente e precisa ser reinvestida numa taxa desconhecida; parcela atrasada obriga a vender o título antes do prazo, pelo preço que o mercado pagar naquele dia.

A primeira seção mostra como o Educa+ funciona por dentro e por que o calendário dele manda na escolha do vencimento.

Continue lendo ↓

 
 
 

I  O Princípio

O título que vira mesada em janeiro

 
 

O Tesouro Educa+ é um título público federal vendido no Tesouro Direto desde agosto de 2023, criado pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3 (a bolsa de valores brasileira) para financiar a educação do comprador ou de um filho. Ele tem duas fases, e cada uma segue regra própria.

A primeira fase é a acumulação. O investidor compra frações do título quando quiser, em valores pequenos, e cada compra fica travada na taxa daquele dia: IPCA mais um percentual fixo. O saldo não paga nada nesse período, apenas cresce.

A segunda fase é o pagamento. No dia 15 de janeiro do ano estampado no título, o saldo acumulado começa a ser devolvido em 60 parcelas mensais, cada uma reajustada pela inflação acumulada. Um Educa+ 2038 paga de janeiro de 2038 a dezembro de 2042, e depois da última parcela o título deixa de existir.

 

O ano estampado no título marca a primeira parcela, e a escolha inteira parte dele.

 

A correção pelo IPCA dá sentido ao produto. Mensalidade escolar é um preço reajustado ano após ano, e um fluxo de pagamentos que acompanha a inflação preserva o poder de compra da parcela quando ela finalmente chega.

 

No longo prazo, estaremos todos mortos.

John Maynard Keynes, A Tract on Monetary Reform, 1923

 

Keynes escreveu a frase contra economistas que prometiam equilíbrio num futuro indefinido. Para quem planeja a faculdade de um filho, o recado é mais prosaico: um investimento que só acerta no longo prazo não resolve a conta que vence em fevereiro de um ano específico.

A taxa exibida para cada vencimento vale para quem segura o título do dia da compra à última parcela. Quem vende antes recebe o preço de mercado do dia (a marcação a mercado, calculada pela taxa que os compradores pedem naquele momento), que pode ficar acima ou abaixo do contratado.

O título também não obriga a gastar com escola. O dinheiro cai na conta do titular, que decide o uso. A amarração com a educação existe no desenho do cronograma, e é esse desenho que o investidor precisa aproveitar.

O Imposto de Renda incide sobre o rendimento de cada parcela, pela tabela regressiva da renda fixa, que cobra 15% sobre o ganho em aplicações com mais de dois anos. Como o título costuma ser comprado com muitos anos de antecedência, quase todo o fluxo cai na alíquota mais baixa.

 
 
 
 

II  A Matemática

Três vencimentos para a mesma matrícula

 
 

A conta fica clara com uma família concreta. Uma criança nascida em 2020 faz a matrícula em fevereiro de 2038 e cursa uma graduação de cinco anos, até dezembro de 2042. A mensalidade estimada, em dinheiro de hoje, é de R$ 2.500.

Para cobrir as 60 mensalidades com o Educa+ 2038, supondo uma taxa hipotética de 6% ao ano acima da inflação, o saldo precisa somar cerca de R$ 129.800 em janeiro de 2038, sempre em reais de hoje e sem contar o imposto.

Trazido para 2026, com a mesma taxa durante 12 anos, esse saldo equivale a um aporte único de aproximadamente R$ 64.500. É o preço, em valores atuais, de travar a faculdade inteira com uma compra só.

 
TítuloParcelasEncaixe com 2038
Educa+ 2035jan/2035 a dez/203936 parcelas antes da matrícula
Educa+ 2038jan/2038 a dez/204260 parcelas dentro do curso
Educa+ 2041jan/2041 a dez/20453 anos de curso descobertos

Exercício didático com taxa hipotética de 6% ao ano acima do IPCA para os três títulos, sem Imposto de Renda nem taxa de custódia. As taxas reais de cada vencimento mudam todo dia útil no Tesouro Direto.

O Educa+ 2035 entrega as 60 parcelas entre 2035 e 2039. Delas, 36 caem na conta quando ainda não existe mensalidade para pagar, e os três últimos anos do curso, de 2040 a 2042, ficam sem cobertura.

As parcelas adiantadas precisam ser reinvestidas por conta própria, na taxa que existir em 2035, e ninguém consegue prever hoje qual será. O título comprado para eliminar incerteza devolve a incerteza de reinvestimento, justamente o risco que a família queria evitar.

 

Meio ponto de taxa a mais some quando o dinheiro chega três anos fora de hora.

 

O Educa+ 2041 erra para o lado oposto. As parcelas começam em janeiro de 2041, quando o estudante já está no quarto ano. Para pagar as mensalidades de 2038 a 2040, a família precisa vender parte do título antes do calendário, pelo preço de mercado.

A venda antecipada tem um custo mensurável. Cada R$ 100 que o título pagaria em 2041, trazidos para 2038 a 6% ao ano, valem R$ 84. Se a taxa de mercado em 2038 estiver em 8% ao ano, os mesmos R$ 100 valem R$ 79 no dia da venda.

O vencimento encaixado na matrícula é o único dos três em que a taxa contratada na compra vira a taxa efetivamente recebida, parcela por parcela, sem depender do mercado de 2035 ou de 2038.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  A Aplicação

Cinco passos para escolher o ano certo

 
 

A escolha começa por uma data, e a data vem da vida da criança. Idade atual, série escolar e duração provável do curso bastam para definir o ano da primeira mensalidade.

Cinco passos organizam a compra, do calendário ao aporte.

 
1

Calcule o ano da matrícula somando à idade atual os anos que faltam para os 18, e anote o mês provável do primeiro boleto.

2

Escolha o Educa+ cujo ano coincide com o da matrícula; se o curso começar no segundo semestre, o título do mesmo ano ainda serve, porque as parcelas de janeiro a julho formam um colchão para a entrada.

3

Estime a mensalidade em reais de hoje e multiplique por 60, lembrando que o título já corrige pela inflação e dispensa projetar reajuste.

4

Use o simulador do Tesouro Direto para descobrir o aporte mensal que leva o saldo ao valor necessário, com a taxa do dia.

5

Compre aos poucos no mesmo vencimento, todo mês, para distribuir as taxas de entrada por muitos dias diferentes.

 

O segundo passo concentra a maior parte dos erros. Entre vencimentos vizinhos, a taxa costuma variar em frações de ponto, e uma fração de ponto raramente paga um descompasso de anos no calendário.

Curso mais longo, como medicina, com seis anos, pede uma peça extra. O título da matrícula cobre cinco anos, e o sexto pode vir de outra aplicação com liquidez diária, como o Tesouro Selic (o título pós-fixado que acompanha a taxa básica de juros).

Quem começa tarde enfrenta outra conta. Com a criança já aos 14 anos, sobram quatro anos de acumulação, e o aporte mensal pesa. Nesse caso, vale cobrir parte das mensalidades pelo Educa+ e o restante pelo orçamento corrente, sem trocar o vencimento para caber na planilha.

O Educa+ também pode ser vendido em qualquer dia útil, se os planos mudarem: bolsa integral, curso no exterior, desistência. A saída sai pelo preço de mercado; a flexibilidade existe e tem custo.

15 de janeiro de 2038. É a data em que o Educa+ 2038 deposita a primeira de 60 parcelas corrigidas pelo IPCA, pelo regulamento do Tesouro Nacional.

"Em que ano cai a primeira mensalidade que você quer proteger?"

 
 
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Quiz da edição

No exemplo da matrícula em fevereiro de 2038, quantas parcelas do Educa+ 2035 caem na conta antes de existir mensalidade para pagar?

A24 parcelas
B36 parcelas
C48 parcelas
D60 parcelas

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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