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1 leitor escolheu Calote grego de 2012. Aqui está.
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Grécia 2012 e o calote que caiu na previdência
A cada 100 euros em títulos gregos, o fundo de pensão recebeu 46,5 em papéis novos e perdeu o resto da reserva.
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Atenas, março de 2012: a troca que cortou a reserva
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53,5%. Foi o corte no valor de face que a Grécia impôs aos donos privados dos seus títulos na troca concluída em 9 de março de 2012, a maior reestruturação de dívida soberana (a dívida de um governo nacional) registrada até então. A operação ganhou a sigla PSI, de Private Sector Involvement (envolvimento do setor privado), e alcançou cerca de 206 bilhões de euros em papéis. Cada 100 euros de valor de face viraram 31,5 euros em títulos gregos novos, com vencimentos de 2023 a 2042, mais 15 euros em notas de curto prazo do fundo de resgate europeu. Na prática, o credor entregava um papel e recebia dois pedaços menores. Os 53,5 euros restantes saíam do balanço de quem aceitou a troca e não voltavam mais. A adesão voluntária ficou abaixo do necessário nos títulos regidos pela lei grega. O governo então acionou cláusulas de ação coletiva (a regra que permite a uma maioria de credores obrigar a minoria a aceitar o acordo), inseridas por lei semanas antes. Quem votou contra foi arrastado para a troca. Os bancos estrangeiros tinham passado dois anos reduzindo a exposição à Grécia. O Banco Central Europeu trocou os papéis que carregava por títulos equivalentes em fevereiro e ficou fora do corte. Sobraram dentro da troca credores que não tinham como vender: bancos gregos e os fundos de previdência do país, que guardavam as reservas dos aposentados em papéis do próprio governo que pagava as aposentadorias. O trabalhador grego contribuía para um fundo, o fundo emprestava ao Estado, e o Estado, sem caixa, cortou a dívida. Quando Atenas passou a tesoura nos títulos, a reserva de quem esperava se aposentar encolheu no mesmo movimento. Nenhum fundo grego apostou num emissor desconhecido. Todos carregavam o papel considerado mais seguro dentro do país, e foi ele que falhou. A primeira seção mostra por que o título do próprio governo parecia o porto mais seguro e como uma regra antiga o tornou obrigatório. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
Porto seguro com um só dono
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| | Todo manual de finanças trata o título do governo, na moeda do próprio país, como o ativo de menor risco disponível. A premissa se apoia num detalhe: o governo que emite a moeda sempre pode criar dinheiro para pagar, mesmo que pague com inflação. | A Grécia abandonou o dracma (sua moeda anterior) em 2001 e passou a dever em euros, moeda que Atenas não emite. Quem imprime euro é o Banco Central Europeu, em Frankfurt, e ele não imprime para salvar um governo específico. | Com a entrada no euro, o título grego passou a render quase o mesmo que o alemão por alguns anos. O mercado cobrava pouco a mais para emprestar a Atenas, como se o risco dos dois países tivesse se igualado. | A conta mudou em outubro de 2009, quando o governo recém-eleito de Georgios Papandreou revisou o déficit público do ano para mais que o dobro do número divulgado antes. Os juros dos títulos gregos dispararam, e em maio de 2010 o país aceitou o primeiro pacote de resgate da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. | Os fundos de previdência gregos não tinham como correr. Uma lei dos anos 1990 obrigava entidades públicas, entre elas os fundos de seguridade social, a depositar o caixa disponível no Banco da Grécia, que aplicava esse dinheiro sobretudo em títulos do governo. | | | Um título do governo é seguro na moeda que esse governo emite; numa moeda alheia, ele vira crédito de um devedor comum. |
| | | | | A essência da síndrome do 'desta vez é diferente' é simples: ela nasce da crença firme de que crises financeiras acontecem com outras pessoas, em outros países, em outras épocas. Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, This Time Is Different, 2009 |
| | | No mesmo livro, os dois economistas contam que a Grécia passou cerca de metade dos anos desde a independência, na década de 1830, em calote ou em reestruturação de dívida. O histórico estava publicado três anos antes da troca. | O corte de 2012 chegou ao aposentado por duas vias. A primeira foi a reserva menor dos fundos. A segunda foram as reduções de benefício aprovadas nos programas de ajuste que a Grécia assinou com os credores europeus e o FMI desde 2010. | O caso teve desfecho. Em dezembro de 2012, o governo recomprou parte dos títulos novos a cerca de 34 centavos por euro, e a Grécia só encerrou a supervisão reforçada da União Europeia em agosto de 2022, dez anos depois da troca. | | | | | | |
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II A Matemática
Cem euros que viraram 46,5
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| | A conta usa um fundo de previdência grego hipotético com 10 bilhões de euros de patrimônio. Na véspera da troca, a carteira tinha 7 bilhões em títulos do governo grego e 3 bilhões em depósitos e outros ativos. | Cada 100 euros de face entregues voltaram como 31,5 em títulos gregos novos e 15 em notas do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (o EFSF, o fundo de resgate criado pelos países do euro em 2010). Os 7 bilhões viraram 2,205 bilhões em títulos novos e 1,05 bilhão em notas. | Somados, os papéis recebidos chegam a 3,255 bilhões de valor de face. O fundo perde 3,745 bilhões só na troca, e o patrimônio cai para 6,255 bilhões, um recuo de 37,45%. | O valor de face ainda esconde parte da perda. Os títulos novos pagavam juros baixos e venciam em até 30 anos, e o mercado os negociava muito abaixo de 100. Pelo preço da recompra de dezembro de 2012, perto de 33,8 centavos por euro, os 2,205 bilhões valiam cerca de 745 milhões. | | | | Item | Antes | Face após troca | Mercado em dez/2012 | | Títulos gregos antigos | 7,0 bi | 0 | 0 | | Títulos gregos novos | 0 | 2,205 bi | 0,745 bi | | Notas do EFSF | 0 | 1,05 bi | 1,05 bi | | Outros ativos | 3,0 bi | 3,0 bi | 3,0 bi | | Patrimônio | 10,0 bi | 6,255 bi | 4,795 bi |
| Exercício didático com fundo hipotético, preços arredondados, sem juros acumulados nem custos de negociação. | Um trabalhador com 20.000 euros de reserva atribuída nesse fundo passa a ter 12.510 euros em valor de face. Pelo preço de mercado de dezembro, sobram 9.590 euros, menos da metade do que ele contava ter. | Os economistas Jeromin Zettelmeyer, Christoph Trebesch e Mitu Gulati calcularam, em artigo publicado na revista Economic Policy em 2013, uma perda em valor presente (o valor de hoje dos pagamentos futuros) perto de 65% para os credores da troca grega. | | | Com 70% da carteira num emissor só, o fundo perdeu 37,45% do patrimônio em valor de face; com 20%, a perda ficaria em 10,7%. |
| | | A segunda metade da frase acima sai da mesma conta. Um fundo com 2 bilhões em títulos gregos perderia 1,07 bilhão na troca, e o patrimônio iria a 8,93 bilhões. O corte de 53,5% continuaria igual; o peso dele na carteira cairia para um terço. | Nenhuma dessas perdas dependeu de uma escolha ruim do gestor dentro do mercado grego. A concentração veio pronta da regra, e a regra mandava guardar tudo no devedor que também pagava a aposentadoria. | |
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