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1 leitor escolheu Colapso da FTX. Aqui está.

A FTX travou os saques e a cripto não era do cliente

Com 1 bitcoin na FTX, o cliente recebeu US$ 19,9 mil em 2025, o bastante para recomprar só 0,2 bitcoin.

Tela de celular com o botão de saque bloqueado numa corretora de criptomoedas

Novembro de 2022: o saque parado na tela da FTX

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US$ 6 bilhões. Foi quanto os clientes da FTX pediram de volta em 72 horas, entre 6 e 8 de novembro de 2022, pela conta que o próprio fundador, Sam Bankman-Fried, enviou aos funcionários naquela semana.

A FTX era a segunda maior corretora de criptomoedas do mundo em volume. Tinha sede nas Bahamas, patrocinava estádio nos Estados Unidos e pagava propaganda com astros do esporte.

A corrida começou por uma reportagem. Em 2 de novembro de 2022, o site CoinDesk publicou o balanço da Alameda Research, a gestora de investimentos do mesmo fundador, e mostrou que boa parte dela se apoiava no FTT, a moeda digital criada pela própria FTX.

Quatro dias depois, o dono da Binance, a maior concorrente, anunciou que ia vender todo o FTT que tinha em carteira. O preço da moeda desabou, e os clientes correram para sacar.

Em 8 de novembro, os saques pararam. O botão continuava na tela do aplicativo, o saldo continuava no extrato, e o dinheiro não saía.

A Binance chegou a assinar uma carta de intenção de compra (um acordo preliminar, sem obrigação de fechar). Desistiu no dia seguinte, depois de olhar as contas por dentro.

Em 11 de novembro de 2022, a FTX pediu recuperação judicial nos Estados Unidos, pelo Capítulo 11 da lei de falências americana. Bankman-Fried renunciou e um especialista em massas falidas, John J. Ray III, assumiu o comando.

Foi aí que o cliente descobriu onde estava o próprio bitcoin. Ele não ficava guardado numa gaveta com o nome de cada dono: estava misturado ao caixa da empresa, e parte dele tinha ido parar na Alameda.

Quem tinha ação brasileira numa corretora que quebrou passou por outro roteiro. A ação fica registrada no CPF do investidor na B3, a bolsa brasileira, e sai da corretora falida para outra com o nome do dono intacto.

A pergunta que a FTX deixou para quem guarda cripto é simples: o saldo que aparece na tela está em seu nome, ou é só uma promessa da empresa?

A resposta começa pelo que a FTX fazia com o dinheiro dos clientes, e pelo que o contrato dela dizia.

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I  O Princípio

O cofre que misturava o dinheiro

 
 

O caso tem nome e sobrenome: FTX Trading Ltd., corretora fundada em 2019 por Sam Bankman-Fried e Gary Wang. Em janeiro de 2022, a empresa foi avaliada em US$ 32 bilhões por investidores numa rodada de captação.

O contrato de uso da FTX prometia o que o cliente queria ouvir. Os termos de serviço diziam que a posse dos ativos digitais ficava sempre com o cliente e nunca passava para a corretora.

 

O título dos seus Ativos Digitais permanecerá sempre com você e não será transferido para a FTX Trading.

Termos de Serviço da FTX Trading, versão de 2022

 

Na prática, o dinheiro depositado entrava em contas controladas pelo grupo. Parte dos depósitos em dólar ia direto para contas bancárias da Alameda, que usava o dinheiro em apostas, empréstimos e compra de imóveis.

O relatório do novo presidente ao tribunal de falências de Delaware, em 17 de novembro de 2022, descreveu a situação em uma frase. John J. Ray III, que tinha conduzido a liquidação da Enron em 2001, escreveu que nunca tinha visto falha tão completa de controles corporativos.

A empresa não tinha lista confiável de quem era dono de quê. A contabilidade usava um aplicativo de mensagens para aprovar despesas, e o caixa do grupo inteiro não estava conciliado com os saldos dos clientes.

 

Um saldo na tela só vale o que o cofre por trás dele consegue pagar.

 

Sam Bankman-Fried foi preso nas Bahamas em dezembro de 2022 e extraditado para os Estados Unidos. Em 2 de novembro de 2023, um júri de Nova York o condenou por fraude e conspiração em sete acusações.

Em março de 2024, o juiz Lewis Kaplan fixou a pena em 25 anos de prisão. Gary Wang e Caroline Ellison, que dirigia a Alameda, fizeram acordo com a promotoria e depuseram contra ele.

A condenação não devolveu o bitcoin a ninguém. Na falência, o cliente deixou de ser dono de um ativo e passou a ser credor (quem tem dinheiro a receber de uma empresa), numa fila com fornecedores, bancos e o próprio governo.

No Brasil, o roteiro depende do registro. A ação comprada numa corretora fica guardada na central depositária da B3 (o cartório eletrônico que anota quem é dono de cada papel), no CPF do investidor.

Se a corretora quebra, o Banco Central liquida a empresa e o investidor pede a transferência das ações para outra instituição. As ações nunca entram na massa falida, porque nunca foram da corretora.

 
 
 
 

II  A Matemática

O bitcoin que voltou em dólar

 
 

A massa falida da FTX acabou recuperando mais do que devia. O plano de recuperação aprovado pelo tribunal de Delaware em outubro de 2024 prometeu pagar 118% do valor das dívidas aos clientes comuns.

O número parece generoso, mas a conta tem uma regra que muda tudo. Pela lei de falências americana, a dívida é calculada em dólar, pelo preço de cada ativo no dia do pedido de falência, 11 de novembro de 2022.

Naquela data, o plano fixou o bitcoin em US$ 16.871. Os primeiros pagamentos saíram em fevereiro de 2025, quando o bitcoin já passava de US$ 97 mil.

Considere três clientes com bitcoin guardado na FTX no dia do pedido de falência, cada um com uma conta só.

 
Bitcoin na FTXCrédito em nov/2022Pago com 118% em 2025Bitcoin que o pagamento recompraFatia recuperada
0,1 BTCUS$ 1.687US$ 1.9910,02 BTC20,5%
1 BTCUS$ 16.871US$ 19.9080,2 BTC20,5%
5 BTCUS$ 84.355US$ 99.5391,03 BTC20,5%

Exercício didático com o preço do plano de recuperação da FTX (2024) e bitcoin a US$ 97 mil em fevereiro de 2025, antes de impostos e taxas de saque.

Em dólar, o cliente recebeu mais do que tinha. Em bitcoin, ficou com um quinto do que guardava, porque perdeu toda a alta do período em que o dinheiro esteve preso.

 

Com 1 bitcoin na FTX, o cliente recebeu 118% em dólar e 20,5% em bitcoin.

 

O prazo também entra na conta. Entre a trava dos saques, em novembro de 2022, e o primeiro pagamento, em fevereiro de 2025, passaram 27 meses sem acesso ao dinheiro.

Nesse intervalo, o cliente não pôde vender na alta, não pôde usar o saldo como reserva e não pôde pagar uma dívida que venceu em 2023. O custo de opção (o que se deixa de fazer com o dinheiro parado) não aparece em nenhum extrato da massa falida.

O reembolso acima de 100% também dependeu de sorte. Parte do dinheiro recuperado veio de investimentos que a própria FTX tinha feito, como a fatia na empresa de inteligência artificial Anthropic, que se valorizou durante o processo.

Em outras falências de corretoras de cripto, o cliente não teve a mesma sorte. A japonesa Mt. Gox travou os saques em fevereiro de 2014 e só começou a devolver bitcoin aos credores em julho de 2024, mais de dez anos depois.

A soma das duas contas mostra o tamanho do risco. Guardar cripto numa corretora é aceitar dois perigos juntos: o do preço, que o investidor escolhe, e o do cofre, que ele muitas vezes nem sabe que correu.

 

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III  A Aplicação

A cripto que fica no seu nome

 
 

O Brasil aprovou a Lei 14.478 em dezembro de 2022, um mês depois da quebra da FTX. O texto, conhecido como marco legal das criptomoedas, abriu caminho para que um decreto de 2023 desse ao Banco Central a tarefa de regular as corretoras de cripto no país.

A separação do patrimônio (a regra que proíbe a corretora de misturar o dinheiro do cliente com o próprio caixa) ficou fora do texto final da lei. Sem ela, o risco do cofre continua do lado de quem deposita.

A lição para quem monta a carteira é tratar a custódia (a guarda do ativo, e em nome de quem ela fica) como parte da alocação. A ordem abaixo reduz o risco do cofre sem obrigar ninguém a vender a cripto que já tem.

 
1

Defina o tamanho da fatia em cripto pela carteira inteira, e não pela empolgação do mês. Uma fatia pequena aguenta a perda total sem mudar os planos da família.

2

Para quem quer exposição sem cuidar de chave, compre o bitcoin por um ETF (fundo de índice negociado na bolsa) listado na B3. As cotas ficam registradas no seu CPF, na mesma central depositária das ações.

3

Para quem prefere o ativo direto, tire o bitcoin da corretora depois da compra e guarde numa carteira de autocustódia, protegida por uma chave privada (a senha longa que prova a posse). Perder a chave é perder o bitcoin, então a cópia fica em papel, em lugar seguro.

4

Use a corretora como balcão de passagem, com o saldo mínimo para comprar e vender. O dinheiro parado lá dentro não tem garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos, o seguro dos depósitos bancários), que não cobre criptomoeda.

 

Nenhum dos caminhos elimina o risco do preço. O bitcoin do ETF e o da carteira própria caem juntos quando o mercado cai; o que muda é quem responde por ele no dia em que uma empresa quebra.

A conferência leva cinco minutos. As ações e os ETFs aparecem na Área do Investidor da B3, com o seu nome e o seu CPF; o que aparece só no aplicativo da corretora é promessa da corretora.

O cliente da FTX tinha o saldo na tela e a frase do contrato a seu favor. Faltava o registro em nome dele num lugar que a empresa não controlava.

20,5%. Foi a fatia do bitcoin que o cliente da FTX recuperou em bitcoin, com o reembolso de 118% pago em 2025 (plano de recuperação da FTX, 2024).

"Se a sua corretora travasse os saques amanhã, quanto da sua carteira estaria registrado no seu CPF?"

 
 
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