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O maior fundo de pensão do mundo em 4 fatias de 25%

O GPIF trocou 60% em títulos japoneses por 25% em cada classe e rendeu 25,15% no primeiro ano da carteira nova.

Gráfico de pizza dividido em 4 fatias iguais sobre um mapa do Japão

Abril de 2020: a carteira do GPIF em 4 partes iguais

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17,7 trilhões de ienes. Foi quanto o Government Pension Investment Fund (GPIF, o Fundo de Investimento de Pensão do Governo do Japão) perdeu entre janeiro e março de 2020, pelo relatório trimestral que o próprio fundo publicou em julho daquele ano.

Era a maior perda trimestral da história do fundo até então. O coronavírus tinha fechado fábricas na Ásia, as bolsas do mundo inteiro despencavam e o iene servia de abrigo para quem fugia do risco.

O GPIF é o maior fundo de pensão do planeta. Guarda a reserva da aposentadoria pública de dezenas de milhões de trabalhadores japoneses e somava cerca de 250 trilhões de ienes em março de 2025, pelo relatório anual do fundo.

Com a perda ainda fresca na conta, a carteira dos cinco anos seguintes entrou em vigor em 1º de abril de 2020. Tinha sido aprovada no fim de março pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, que supervisiona o fundo.

A carteira nova não recuou diante da queda. Dividiu o dinheiro em quatro partes iguais: 25% em títulos do Japão, 25% em ações do Japão, 25% em títulos do exterior e 25% em ações do exterior.

Na prática, o fundo mexia no que parecia seguro. A fatia de títulos japoneses caía de 35% para 25%, e a de títulos estrangeiros subia de 15% para 25%, com o mercado ainda em pânico.

Doze meses depois, o resultado saiu no relatório anual. O ano fiscal de abril de 2020 a março de 2021 rendeu 25,15%, o melhor desde que o fundo começou a divulgar retorno, em 2001.

Poucos anos antes, a mesma instituição guardava quase dois terços do dinheiro num único lugar: o título do governo japonês, que pagava juro perto de zero.

A pergunta que o GPIF deixa para quem monta a própria carteira é direta: quanto do seu dinheiro está parado numa classe só, por hábito e sem conta nenhuma?

A resposta começa pela carteira que o fundo tinha antes de 2014, e pelo motivo de ela ter durado tanto tempo.

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I  O Princípio

O fundo que vivia de título japonês

 
 

O Government Pension Investment Fund ganhou o formato atual em abril de 2006, herdeiro do órgão que cuidava da reserva da aposentadoria pública japonesa. A primeira carteira de referência (a divisão-alvo que o fundo persegue por anos) pôs 67% do dinheiro em títulos do governo japonês.

O motivo estava na promessa do fundo: pagar aposentadoria em ienes. O título do governo paga em ienes, tem risco de calote quase nulo e parecia a escolha óbvia para um país de preços parados.

O Japão viveu mais de uma década de deflação (queda generalizada de preços) depois do estouro da bolha da bolsa e dos imóveis, em 1990. Com preço caindo, até um juro pequeno rendia algo acima da inflação.

O juro, porém, foi sumindo. O título de 10 anos do governo japonês pagava menos de 2% ao ano desde 1997, e o Banco do Japão comprava esses papéis em volume cada vez maior para segurar a economia.

A conta da aposentadoria não fechava com esse juro. O ministério cobrava do fundo um retorno acima do crescimento dos salários, porque a pensão paga amanhã acompanha o salário de quem contribui hoje.

Em 2013, o governo de Shinzo Abe montou um painel de especialistas para rever os fundos públicos de pensão. O economista Takatoshi Ito, professor da Universidade de Tóquio, presidiu o grupo.

O relatório do painel de Ito, entregue em novembro de 2013, recomendou reduzir a dependência de títulos japoneses e espalhar o dinheiro por ações e ativos do exterior.

 

Uma carteira segura no extrato pode ser arriscada na conta: 60% num título que rende quase zero não paga aposentadoria que cresce com o salário.

 

A primeira mexida foi tímida. Em junho de 2013, o fundo cortou a fatia de títulos japoneses de 67% para 60% e subiu um pouco as outras três classes.

A virada veio em 31 de outubro de 2014. O GPIF baixou os títulos japoneses para 35% e subiu as ações do Japão e as do exterior para 25% cada. Horas antes, o Banco do Japão tinha anunciado mais compras de títulos, e o mercado apelidou a sexta-feira de bazuca de Halloween.

A meta do plano de 2014 ficou escrita: ganho igual ao crescimento dos salários mais 1,7 ponto percentual por ano, fixado pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar.

O plano de 2020 levou a receita até o fim. Tirou mais 10 pontos dos títulos japoneses e deu a mesma fatia às quatro classes, sem nenhuma delas mandar na carteira.

 
 
 
 

II  A Matemática

A conta das quatro fatias

 
 

As carteiras de referência do GPIF, publicadas pelo próprio fundo a cada revisão, contam a história em quatro linhas.

 
Carteira-alvoTítulos do JapãoAções do JapãoTítulos do exteriorAções do exterior
200667%11%8%9%
201360%12%11%12%
201435%25%15%25%
202025%25%25%25%

Carteiras de referência do GPIF; em 2006 e 2013, os 5% restantes ficavam em caixa.

Em 2006, uma classe só pesava mais que as outras três somadas. Em 2020, nenhuma pesa mais que um quarto.

A divisão igual tem uma consequência prática: a carteira passa a ter regra de venda e de compra. O plano de 2020 deu a cada fatia uma margem de tolerância antes de o fundo ser obrigado a rebalancear (vender o que subiu e comprar o que caiu, para voltar ao alvo).

Pelo plano, as ações japonesas podem oscilar de 17% a 33% da carteira, e os títulos japoneses de 18% a 32%. As ações do exterior vão de 18% a 32%, e os títulos do exterior de 19% a 31%.

Uma carteira de R$ 100 mil mostra a mecânica. Considere 25 mil reais em cada classe no começo de um ano ruim para a bolsa.

No fim do ano, as ações do Brasil caíram 20% e viraram R$ 20 mil. As ações do exterior caíram 10% e viraram R$ 22,5 mil.

A renda fixa do Brasil subiu 10% e virou R$ 27,5 mil. A renda fixa do exterior subiu 3% e virou R$ 25,75 mil. O total ficou em R$ 95,75 mil.

As ações do Brasil agora pesam 20,9% da carteira. Para voltar a 25%, o investidor compra R$ 3.937,50 dessa fatia, tirando o dinheiro da renda fixa brasileira, que passou do alvo.

 

Quatro fatias iguais obrigam a comprar a classe que caiu, sem pedir opinião sobre o mercado.

 

O GPIF fez esse movimento na escala de trilhões de ienes. Com a bolsa em queda no começo de 2020, as fatias de ações ficaram abaixo do alvo, e a regra mandou comprar.

A moeda entra na conta. Metade da carteira do GPIF fica em ativos do exterior, cotados em dólar e euro; quando o iene perde valor, essa metade vale mais em ienes.

No ano fiscal encerrado em março de 2021, as duas forças jogaram a favor: a bolsa subiu no mundo inteiro e o iene enfraqueceu. O retorno de 25,15% veio das quatro fatias, com peso maior das ações.

A regra também cobra nos anos bons. Depois de uma alta forte da bolsa, a fatia de ações passa do alvo, e o fundo vende ação para comprar título, mesmo com o mercado em euforia.

 

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III  A Aplicação

O rebalanceamento em casa

 
 

A ideia de dividir a carteira por regra fixa é antiga. Benjamin Graham, professor de Warren Buffett, já propunha limites para a fatia em ações muito antes de o GPIF existir.

 

Sugerimos como regra fundamental que o investidor nunca tenha menos de 25% ou mais de 75% de seus recursos em ações, com uma proporção inversa correspondente entre 25% e 75% em títulos.

Benjamin Graham, O Investidor Inteligente, 1949

 

O GPIF levou a regra de Graham para quatro classes e acrescentou a moeda estrangeira. O investidor brasileiro pode fazer o mesmo com produtos da B3, a bolsa brasileira.

O fundo japonês tem uma vantagem que a pessoa física não tem: horizonte de décadas e contribuição entrando todo mês. Quem precisa do dinheiro em dois anos não deveria copiar a fatia de ações.

 
1

Separe a reserva de emergência antes de dividir qualquer fatia. Seis meses de gastos no Tesouro Selic (título público que acompanha a taxa básica de juros) ficam fora da conta das quatro classes.

2

Escolha um produto simples para cada fatia: Tesouro IPCA+ para a renda fixa do Brasil, um ETF (fundo de índice negociado na bolsa) do Ibovespa para as ações do Brasil, um ETF de renda fixa americana e um ETF do S&P 500 para o exterior.

3

Defina a margem de tolerância antes de a bolsa se mexer. Uma banda de 5 pontos para cada lado significa agir só quando uma fatia sair do intervalo entre 20% e 30%.

4

Rebalanceie primeiro com o aporte novo. Comprar a fatia que ficou para trás não gera venda, e sem venda não há imposto de renda sobre ganho de capital.

5

Confira a carteira uma vez por ano, numa data fixa. Olhar toda semana transforma a regra em palpite.

 

A divisão em 25% não é mágica, e nenhuma das quatro fatias elimina a queda. Em março de 2020, as quatro classes do GPIF chegaram a cair juntas por alguns dias; a regra decide o que fazer depois da queda.

O desfecho no Japão ficou registrado. Em março de 2025, o GPIF publicou a carteira de referência dos cinco anos seguintes e manteve as quatro fatias de 25%, depois de dois planos inteiros com a divisão.

O fundo que guardava 67% num título de juro zero passou a tratar cada classe como parte igual do mesmo trabalho: pagar a aposentadoria de um país inteiro em ienes.

37,8 trilhões de ienes. Foi o ganho do GPIF entre abril de 2020 e março de 2021, o primeiro ano da carteira em quatro fatias de 25% (relatório anual do GPIF, 2021).

"Se a sua carteira fosse dividida hoje em quatro partes iguais, qual delas você teria de comprar primeiro?"

 
 
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Depois da revisão de 2020, qual fatia da carteira o GPIF passou a dar a cada uma das 4 classes (títulos e ações, Japão e exterior)?

A35%, mantendo mais peso em títulos japoneses
B25% para cada uma das 4 classes
C60%, concentrado em títulos do Japão
D17,7% para cada classe

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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