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1 leitor escolheu Ouro em 1980. Aqui está.
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O ouro de US$ 850 que levou 28 anos para voltar
Quem comprou ouro em janeiro de 1980 esperou até 2008 para empatar, e a fatia na carteira decidiu o tamanho do estrago.
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1980: o pico que levou 28 anos para voltar
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US$ 850. Foi o preço da onça de ouro (31,1 gramas) no fixing de Londres, a cotação oficial do mercado, em 21 de janeiro de 1980. Dez anos antes, a mesma onça valia US$ 35. Em uma década o metal tinha multiplicado o preço por 24, e boa parte dessa alta acontecera nos 12 meses anteriores: em janeiro de 1979, a onça ainda custava pouco mais de US$ 220. O inverno de 1980 juntava motivos para o medo. A inflação americana fechara 1979 em 13,3%, segundo o Bureau of Labor Statistics. Em novembro, estudantes iranianos tinham tomado a embaixada dos Estados Unidos em Teerã. No fim de dezembro, tropas soviéticas entraram no Afeganistão. Quem tinha dinheiro parado procurava algo que nenhum governo pudesse imprimir. O ouro parecia a resposta óbvia, e os jornais da época tratavam o metal como o último porto seguro que restava. O pico durou pouco. Em março de 1980, a onça já estava abaixo de US$ 500. Em 1982, chegou perto de US$ 300. A queda continuou pelas duas décadas seguintes. Em julho de 1999, a onça foi negociada a cerca de US$ 252, uma perda de 70% em relação ao topo. O investidor que comprou no pico e segurou a posição só viu o mesmo número no extrato em janeiro de 2008. Foram 28 anos para empatar, sem contar a inflação do período. Nesse intervalo, um bebê nascido em 1980 cresceu, se formou e começou a pagar as próprias contas. A cotação do ouro, no fim dessas quase três décadas, voltava ao ponto de partida. O metal continuou o mesmo durante todo o período. O que mudou foi o preço pago por ele e o pedaço da carteira que cada investidor colocou em jogo. As duas variáveis respondem perguntas diferentes. O preço de entrada define quanto tempo a posição leva para se recuperar; o tamanho da fatia define quanto a espera custa para o resto do patrimônio. Para entender a espera, é preciso começar pelo que levou o metal de US$ 35 a US$ 850. Continue lendo ↓ |
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I O Princípio
Um preço feito de medo
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Em 15 de agosto de 1971, o presidente americano Richard Nixon suspendeu a troca de dólares por ouro. Até ali, valia o acordo de Bretton Woods (o pacto de 1944 que prendia o dólar ao metal a US$ 35 a onça), e bancos centrais estrangeiros podiam trocar dólares por barras. |
Sem a âncora, o preço passou a flutuar. E havia um detalhe pouco lembrado: desde 1933, por uma ordem executiva de Franklin Roosevelt, cidadãos americanos estavam proibidos de guardar ouro em barra. |
A proibição só caiu em 31 de dezembro de 1974, assinada por Gerald Ford. A partir de 1975, milhões de investidores americanos podiam comprar um ativo que nunca tinham tido na mão, numa década de inflação alta. |
O metal tem uma característica que explica tanto a subida quanto a queda: ele não paga juros, não paga aluguel e não distribui lucro. Uma onça guardada em 1980 continua sendo uma onça em 2008, sem render nada no caminho. |
Por esse motivo, o preço do ouro depende só do que o próximo comprador aceita pagar. Uma ação vale, no longo prazo, o lucro da empresa; um título vale os juros que promete. O ouro vale o medo e a confiança de quem aparece para comprar. |
Em janeiro de 1980, o medo estava no máximo. Inflação de dois dígitos, crise no Irã, tanques soviéticos em Cabul e a sensação de que o dólar perdia valor todo mês. |
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Quem compra ouro no pico do pânico paga pelo metal e também pelo medo dos outros, e o medo é a parte do preço que evapora primeiro. | | | |
O medo virou de direção por causa de um homem. Paul Volcker assumiu o Federal Reserve (o banco central americano) em agosto de 1979 e passou a subir os juros sem pausa. A taxa básica americana chegou perto de 20% entre 1980 e 1981. |
Com títulos do governo americano pagando dois dígitos ao ano, segurar ouro passou a ter um custo de oportunidade (o ganho que se perde por deixar o dinheiro parado num ativo que não rende). Cada ano com o metal na gaveta era um ano sem receber esses juros. |
A inflação cedeu. Em 1983, o índice de preços americano subia menos de 4% ao ano, pelo Bureau of Labor Statistics. O motivo que tinha levado o ouro ao topo deixou de existir, e o preço seguiu o motivo. |
Warren Buffett resumiu a natureza do metal numa frase que explica as duas décadas seguintes ao pico. |
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O ouro, porém, tem duas deficiências significativas: não tem muita utilidade e não procria. Warren Buffett, carta aos acionistas da Berkshire Hathaway, 2011 | | | |
Um ativo que não procria não tem lucro que cresça para puxar o preço de volta. A recuperação depende de um novo ciclo de medo, e ninguém marca na agenda a data do próximo. |
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II A Matemática
Quanto pesa uma fatia comprada no topo
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A perda da carteira inteira se calcula multiplicando a queda do ativo pelo peso dele. Com o ouro caindo 70% entre janeiro de 1980 e julho de 1999, a conta fica simples para qualquer tamanho de fatia. |
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| Fatia de ouro | Queda do ouro até 1999 | Perda na carteira inteira |
| 5% | 70% | 3,5% |
| 10% | 70% | 7% |
| 20% | 70% | 14% |
| 40% | 70% | 28% | |
Conta hipotética: onça comprada a US$ 850 em janeiro de 1980 e avaliada a US$ 252 em julho de 1999, sem rebalanceamento. |
Com 5%, o tombo de 70% custa 3,5% do patrimônio, menos que um ano ruim de bolsa. Com 40%, a carteira perde 28% só pelo metal, antes de qualquer outra classe de ativos entrar na conta. |
A recuperação pesa mais que a queda. Uma perda de 70% pede alta de 233% para voltar ao ponto de partida: a conta é 1 dividido por 0,30, menos 1. |
O ouro precisou de 28 anos para entregar esses 233%. E mesmo o empate de 2008 foi só nominal, medido em dólares de cada época. |
O índice de preços ao consumidor americano (CPI) estava em 77,8 pontos em janeiro de 1980 e em 211,1 em janeiro de 2008, pelo Bureau of Labor Statistics. Os preços subiram 2,71 vezes no período. |
Os US$ 850 de 2008, portanto, compravam 37% do que os US$ 850 de 1980 compravam. Quem esperou 28 anos para empatar perdeu 63% do poder de compra no caminho. |
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O ouro protegeu contra a inflação de 1979 de quem já tinha o metal. Para quem comprou no topo, a inflação dos 28 anos seguintes ficou sem proteção nenhuma. | | | |
Duas atitudes mudam a conta. A primeira é o preço de entrada. A média anual do ouro em 1980 ficou perto de US$ 615, segundo a London Bullion Market Association. |
Quem comprou aos poucos ao longo de 1980, pagando a média, caiu 59% até 1999 e empatou em 2006, dois anos antes de quem comprou no pico. Parcelar ajudou pouco, porque o ano inteiro de 1980 foi caro. |
A segunda atitude é o rebalanceamento (vender o que subiu e comprar o que caiu para devolver cada classe ao peso combinado). Com a fatia fixa em 10%, o investidor compra mais metal a cada ano de queda, e o ouro nunca passa a pesar mais que 10% do patrimônio. |
Nesse desenho, a queda do metal vira compra barata e a perda fica presa à fatia combinada. O tamanho escolhido no primeiro dia limita o estrago dos 28 anos seguintes. | |
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