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Os 18 governos que cabiam numa cota de 1868

Em Londres, um certificado de £ 85 dava ao pequeno investidor títulos de 18 governos, Brasil incluído, a 7% ao ano.

Certificado do Foreign and Colonial Government Trust, Londres, 1868

1868: a dívida de 18 governos numa cota

▼

£ 85. Foi o preço de cada certificado do Foreign and Colonial Government Trust, aberto em Londres em 1868.

O papel tinha valor de face de £ 100 e prometia £ 6 por ano. Quem pagava £ 85 recebia, portanto, perto de 7% ao ano sobre o que tinha desembolsado, numa Inglaterra onde os títulos do próprio governo britânico rendiam pouco acima de 3%.

A Londres de 1868 era a praça financeira do planeta. Governos de quatro continentes iam até a City, o bairro dos bancos, para pedir dinheiro emprestado em libras esterlinas.

O Império Otomano, o Egito, o Peru, a Argentina, o Chile e o Império do Brasil vendiam títulos ali. Os juros eram gordos porque o risco era alto: uma guerra, uma safra perdida ou um governo trocado podiam suspender os juros.

Quem tinha fortuna resolvia o problema comprando um pouco de cada país. Um banqueiro com £ 50.000 espalhava o dinheiro por uma dúzia de governos e dormia tranquilo se um deles tropeçasse.

O professor, o médico de província e a viúva com algumas centenas de libras não tinham esse luxo. Se comprassem o título de um único governo e esse governo parasse de pagar, perdiam a renda inteira.

O advogado Philip Rose, sócio de um escritório de Londres, desenhou o trust para fechar essa porta. Cada certificado comprava uma fração de uma carteira montada com títulos de 18 governos diferentes.

O presidente do conselho era Lord Westbury, que tinha ocupado o cargo de Lord Chancellor (o chefe do Judiciário inglês). A assinatura dele dava ao prospecto o peso de uma instituição.

Os certificados se esgotaram, e o trust lançou novas séries nos meses seguintes. O modelo ganhou imitadores em Londres e na Escócia ao longo da década de 1870.

A promessa cabia numa frase do prospecto, e a carteira que a sustentava tinha um país que o leitor brasileiro conhece bem.

Continue lendo ↓

 
 
 

I  O Princípio

A frase que abria o prospecto

 
 

O documento de 1868 começava pelo objetivo do trust, e a redação mirava um tipo específico de comprador: o investidor de meios modestos, que juntava poupança com salário e não com herança.

 

Dar ao investidor de meios modestos as mesmas vantagens do grande capitalista na redução do risco de investir em títulos de governos estrangeiros e coloniais, espalhando o investimento por um número de títulos diferentes.

Prospecto do Foreign and Colonial Government Trust, Londres, 1868

 

A palavra que pesa é “mesmas”. Philip Rose não oferecia um retorno acima do mercado; ele vendia acesso a uma proteção que até ali tinha preço de entrada alto demais para a classe média vitoriana.

Os 18 governos misturavam devedores muito distintos. Havia países soberanos, como Brasil, Argentina, Chile, Peru, Turquia, Egito, Rússia, Itália, Espanha e Portugal, e havia colônias britânicas que tomavam empréstimo em Londres, como a Nova Escócia, no atual Canadá, e a colônia australiana de Vitória.

O Brasil entrava como o Império de Dom Pedro II, um devedor com fama de pontual na City. O país pagava em dia os juros dos empréstimos lançados pela casa Rothschild, a família de banqueiros que intermediava a dívida brasileira em Londres.

Os títulos turcos e egípcios ficavam na ponta oposta. Pagavam os juros mais altos da carteira porque os governos do sultão e do quediva, o vice-rei do Egito, gastavam muito acima do que arrecadavam.

 

A cesta misturava o devedor pontual e o devedor arriscado de propósito: o juro alto de um pagava a calma do outro.

 

O trust também tinha regras de funcionamento escritas. Os títulos ficavam sob a guarda de curadores (trustees, os responsáveis legais pela carteira), e os juros que sobravam depois de pagar os certificados formavam uma reserva para resgatar papéis ao longo dos anos.

O que o prospecto não podia prever era o calendário dos calotes. Em menos de 10 anos, 3 dos governos mais rentáveis da cesta deixariam de pagar.

 
 
 
 

II  A Matemática

Quantos calotes a cesta aguentava

 
 

A conta começa pelo caixa. Uma série de £ 1.000.000 em valor de face, vendida a £ 85 por certificado, levantava £ 850.000 para comprar títulos.

A promessa era de £ 6 por certificado, ou £ 60.000 por ano para a série inteira. A carteira precisava render ao menos esse valor em juros só para cumprir o combinado.

Os títulos estrangeiros eram comprados abaixo do valor de face e pagavam, em média, perto de 8% sobre o preço pago. Sobre £ 850.000, a renda chegava a cerca de £ 68.000 por ano, uma folga de £ 8.000.

Com o dinheiro espalhado por 18 governos, cada um ficava com algo como £ 47.000 e contribuía com cerca de £ 3.800 de juros anuais. A tabela mostra o que acontece quando governos inteiros param de pagar.

 
Governos em caloteJuros que chegamPromessa de £ 60.000Folga
068.000paga8.000
164.200paga4.200
260.400paga400
356.700não pagafalta 3.300

Conta hipotética: 18 fatias iguais, renda média de 8% sobre o preço, calote total dos juros, valores em libras.

Com 18 fatias, a cesta aguenta 2 calotes completos e ainda honra os £ 6 por certificado. O terceiro calote abre um buraco que a reserva precisa cobrir.

Agora a história real. Em outubro de 1875, o Império Otomano anunciou que pagaria só metade dos juros da dívida externa, e em 1876 parou de pagar de vez. No mesmo ano, o Egito suspendeu pagamentos e o Peru, que vivia da venda de guano (o esterco de aves marinhas usado como adubo), deu calote.

 

A diluição protegia contra o calote de um país; 3 calotes no mesmo biênio esgotavam a folga da conta.

 

Os 3 governos caíram juntos porque compartilhavam a mesma fraqueza: dívida alta, receita dependente de um produto ou de novos empréstimos, e uma crise bancária que fechou o crédito na Europa a partir de 1873.

O trust atravessou a década sem quebrar, porque os outros governos continuaram pagando. Em 1879, uma decisão judicial inglesa questionou a forma jurídica dos trusts de investimento, e o Foreign and Colonial se reorganizou como companhia.

Os credores da Turquia e do Egito recuperaram parte do dinheiro mais tarde. Em 1881, o sultão entregou a uma administração controlada pelos credores europeus a cobrança de impostos sobre sal, tabaco e seda para pagar a dívida.

Os títulos do Peru tiveram desfecho mais lento. O acordo com os credores só saiu em 1889, quando a Peruvian Corporation, uma empresa criada pelos credores ingleses, recebeu as ferrovias do país por décadas em troca do cancelamento da dívida antiga.

 

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III  A Aplicação

A sua cesta de governos e de emissores

 
 

O Brasil da cesta pagou em dia por 30 anos depois de 1868. Em 1898, já na República, o governo de Campos Sales negociou com os Rothschild um funding loan (empréstimo de consolidação), que trocou 3 anos de juros em dinheiro por novos títulos e suspendeu as amortizações por 13 anos.

O investidor brasileiro de 2026 mora na outra ponta da história. A maior parte da renda fixa que ele compra é dívida de um único governo, o próprio, via Tesouro Direto, CDB e fundos DI que carregam títulos públicos.

Concentrar no governo de casa faz sentido para quem gasta em reais. O risco aparece quando toda a carteira, inclusive a parte de longo prazo, depende da mesma política fiscal e dos mesmos juros.

O trust de 1868 mostra o tamanho da fatia que uma cesta aguenta perder. Também mostra que fatias amarradas à mesma fraqueza caem juntas, e por esse critério se escolhem os componentes.

 

Contar governos e emissores importa menos que saber quais deles quebrariam pelo mesmo motivo.

 

Hoje o pequeno investidor compra a cesta de 1868 por poucos reais. Existem ETFs (fundos negociados na bolsa como se fossem ações) listados na B3 que carregam títulos de dezenas de governos e empresas estrangeiras, em dólar.

O passo a passo para montar a sua versão da cesta:

 
1

Liste quanto da carteira depende do governo brasileiro, somando Tesouro Direto, fundos DI e CDB de bancos médios.

2

Defina um teto para esse bloco, escrito em percentual, de acordo com quanto da sua renda futura vai ser gasta em reais.

3

Separe uma fatia para títulos ou ETFs de outros países, de preferência em dólar, sem se concentrar num único governo estrangeiro.

4

Repita a conta da tabela com a sua carteira: tire os 2 maiores emissores e veja se a renda que sobra ainda cobre o que você precisa.

5

Pergunte que acontecimento derrubaria 3 fatias ao mesmo tempo, como uma crise fiscal no Brasil, e confira se alguma parte da carteira ficaria de pé.

 

O Foreign and Colonial existe até hoje, listado na Bolsa de Londres como F&C Investment Trust, o fundo coletivo mais antigo em funcionamento no mundo. A carteira trocou títulos de governos por ações de centenas de empresas no mundo inteiro.

18 governos. Foi a cesta que cada certificado de £ 85 comprava em Londres em 1868 (prospecto do Foreign and Colonial Government Trust).

“Se o governo brasileiro atrasasse os juros por 3 anos, quanto da sua renda continuaria chegando?”

 
 
A Carteira das 4 Classes: oito decisões, uma por dia: A taxa de administração da renda variável, O fundo de renda fixa que cobra para comprar título público, A banda que decide o rebalanceamento no seu lugar, A troca de produto por desempenho recente, O come-cotas e a escolha do veículo, O relógio da tabela regressiva, O spread da conversão na classe câmbio, A entrada e a saída dos fundos imobiliários. Começar pelo dia 1.

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Quiz da edição

Com 18 governos na cesta, quantos podiam dar calote completo nos juros sem que o trust deixasse de pagar os £ 6 por certificado?

A4
B3
C2
D1

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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