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I O Princípio
O devedor que escreveu a regra
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A Alemanha pagou a Primeira Guerra com dívida interna. Entre 1914 e 1918, o governo do Kaiser Guilherme II lançou 9 empréstimos de guerra, as Kriegsanleihen (títulos de guerra), vendidos de porta em porta, em escolas e em igrejas. |
O comprador típico não era banqueiro. Era o lojista, o professor, o funcionário dos correios, a associação de bairro. Os cartazes pediam que cada família emprestasse ao país, e a compra virou prova de patriotismo. |
Os títulos pagavam 5% ao ano, em marcos de papel. Com a derrota de 1918 e a inflação que veio depois, os juros continuaram chegando, mas o marco que os pagava derretia mês a mês. |
Em 1923, o estoque inteiro dos títulos de guerra cabia, em valor real, numa carteira de bolso. O governo tinha se livrado da dívida da guerra sem declarar calote, apenas imprimindo moeda. |
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O Estado alemão pagou a guerra duas vezes com o dinheiro do mesmo poupador: primeiro com o empréstimo, depois com a inflação. | | | |
Quando o Reichsgericht autorizou a correção, o Ministério das Finanças fez as contas. Corrigir os títulos de guerra pelos mesmos 25% das hipotecas exigiria bilhões de marcos-ouro que o orçamento não tinha. |
O país já devia as reparações de guerra aos Aliados, definidas pelo Plano Dawes de 1924, e acabara de estabilizar a moeda com o Rentenmark, o marco novo criado em novembro de 1923, trocado à razão de 1 trilhão de marcos velhos por 1 marco novo. |
A lei de 1925 separou os credores em grupos. Hipotecas, debêntures de empresas e depósitos em caixas econômicas ganharam percentuais próprios, porque o devedor ali era um particular, e o particular podia ser cobrado. |
Os títulos do governo ganharam regra própria, a Anleiheablösung (a troca dos empréstimos antigos). Cada 100 marcos de título de guerra viravam 2,5 marcos de um título novo, sem juros correntes. |
O governo ainda dividiu os portadores. Quem tinha comprado o título antes de julho de 1920, o chamado Altbesitzer (portador antigo), recebia um bônus de sorteio: em até 30 anos, o papel podia ser chamado e pago por 5 vezes o valor novo, com juros acumulados. |
Quem tinha comprado depois de 1920, em geral especulando com o papel barato, ficava só com os 2,5%. O governo justificou o corte dizendo que esse comprador já tinha entrado sabendo do risco. |
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II A Matemática
A conta do marco-ouro
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A conta começa por uma família com 20.000 marcos-ouro em 1913, metade numa hipoteca sobre a casa de um vizinho e metade em títulos de guerra comprados em 1915. |
Em 1925, a hipoteca de 10.000 marcos-ouro voltava como 2.500 marcos novos. Os títulos de guerra de 10.000 marcos voltavam como 250 marcos novos, mais o direito ao sorteio para quem os tinha desde antes de 1920. |
A tabela mostra o que a lei de 1925 devolvia para cada 10.000 marcos-ouro de crédito. |
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| Crédito em 1913 | Percentual da lei | Marcos devolvidos | Perda |
| Hipoteca | 25% | 2.500 | 7.500 |
| Debênture de empresa | 15% | 1.500 | 8.500 |
| Título de guerra, portador novo | 2,5% | 250 | 9.750 |
| Título de guerra, com sorteio | 12,5% | 1.250 | 8.750 | |
Conta ilustrativa: 10.000 marcos-ouro por linha; a última linha supõe o sorteio pago pelo valor cheio de 5 vezes os 2,5%, sem os juros acumulados. |
A família da conta chegava a 1925 com 2.750 marcos, ou 13,75% do que tinha. Com o sorteio pago, chegava a 3.750, ou 18,75%. |
O sorteio parecia generoso, mas tinha prazo longo. O governo pagaria as chamadas em lotes até 1955, e o portador que fosse sorteado no último ano esperaria três décadas pelos 12,5%. |
Três décadas foram tempo demais. A crise de 1929, a chegada de Adolf Hitler ao poder em 1933 e a Segunda Guerra interromperam o cronograma, e a reforma monetária de 1948 trocou o Reichsmark pelo Deutsche Mark a 10 por 1, cortando de novo o que sobrava. |
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Na hipoteca, o credor negociou com um vizinho; no título de guerra, negociou com quem escreve a lei. | | | |
O percentual maior da hipoteca tinha uma razão prática. O imóvel continuava de pé depois da inflação, e o devedor tinha ganhado com a moeda podre: a casa que valia 10.000 marcos-ouro seguia valendo perto de 10.000 marcos-ouro. |
O governo cobrou essa vantagem. Além de corrigir a hipoteca, criou em 1924 o Hauszinssteuer (o imposto sobre a renda de aluguéis), que tomava parte do ganho que o proprietário endividado tinha tirado da inflação. |
No título de guerra, não havia imóvel. Havia só a promessa do Estado, e o Estado era também o juiz da própria dívida. |
Os credores se organizaram. A Sparerbund (a liga dos poupadores) juntou centenas de milhares de membros, lançou partido próprio e pediu plebiscito pela correção total. O Reichstag barrou a consulta popular em 1926, e os 2,5% ficaram. | |
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