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Os dólares que o Líbano devolveu em libras

O banco libanês paga o dólar depositado a 15.000 libras, e na rua ele vale mais de 50.000: sobra ao dono menos de 30%.

Fila de correntistas na porta de um banco em Beirute

Beirute: dólar do banco a 15.000 libras

▼

1.507,5 libras. Foi a cotação fixa do dólar no Líbano de dezembro de 1997 até a crise de 2019, garantida pelo Banque du Liban (o banco central libanês).

Durante 22 anos, o libanês tratou a libra e o dólar como a mesma moeda com dois rostos. O salário vinha em libra, o aluguel era cobrado em dólar, e o caixa eletrônico entregava as duas notas lado a lado.

Os bancos pagavam juros altos para atrair dólares do exterior. Em 2019, um depósito em dólar rendia perto de 7% ao ano em Beirute, um prêmio que nenhum banco americano ou europeu oferecia.

O dinheiro chegava sobretudo dos emigrantes. A diáspora libanesa, espalhada pelo Brasil, pela África Ocidental e pelo Golfo, mandava as economias para a conta da família na terra natal.

Em 17 de outubro de 2019, o governo anunciou uma taxa sobre chamadas pelo WhatsApp. As ruas encheram de manifestantes, e os bancos fecharam as portas por duas semanas.

Quando reabriram, o depósito em dólar continuava no extrato, mas não saía mais do banco. Cada agência impunha seu limite de saque, sem lei aprovada no Parlamento que autorizasse a trava.

O correntista podia sacar o próprio dólar, mas em libras e pela cotação que o banco central definia. Na rua, a mesma nota verde valia cada vez mais libras.

Em 2023, o dólar do mercado paralelo passou de 50.000 libras, enquanto o banco pagava 15.000 pelo dólar do depósito. O dono da conta saía da agência com menos de um terço do que tinha guardado.

O dinheiro nunca sumiu do extrato. Sumiu a chance de trocá-lo pelo que ele valia.

A seção I conta quem montou o sistema, como a trava foi armada e o que fez uma correntista de 28 anos entrar no banco com uma pistola de brinquedo.

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I  O Princípio

A trava sem lei que guardou os dólares

 
 

Riad Salameh governou o Banque du Liban de 1993 a 2023. Durante 30 anos, ele sustentou a cotação de 1.507,5 libras pagando aos bancos juros acima do mercado por cada dólar que eles depositassem no banco central.

Os bancos repassavam parte desses juros ao correntista e emprestavam o resto ao governo. O sistema só se mantinha de pé enquanto entrasse dólar novo para pagar os juros do dólar antigo.

A partir de 2016, o banco central passou a oferecer taxas ainda maiores em operações que chamou de engenharia financeira (troca de títulos com prêmio para atrair dólares). Os bancos ganharam, e o rombo cresceu dentro do próprio banco central.

Em 2019, a remessa de dólares desacelerou. Quando os protestos fecharam as agências, os bancos já não tinham dólar em caixa para devolver a todos que quisessem sacar.

Sem uma lei de controle de capitais, cada banco criou a própria trava. Saque de 200 ou 300 dólares por semana, transferência para o exterior só com justificativa, cartão bloqueado para compra fora do país.

Em 7 de março de 2020, o governo anunciou que não pagaria os eurobônus (títulos da dívida emitidos em moeda estrangeira) que venciam naquele mês. Foi o primeiro calote soberano da história do Líbano.

 

“Provavelmente entre as 10, talvez entre as 3, crises mais graves do mundo desde meados do século XIX.” Banco Mundial, Lebanon Economic Monitor, 2021.

 

O dólar preso no banco ganhou apelido. Os libaneses passaram a chamá-lo de lollar (junção de Lebanon, Líbano em inglês, com dollar), um dólar que só existia no extrato.

Em abril de 2020, a Circular 151 do banco central permitiu sacar o lollar em libras a 3.900 por dólar. Em dezembro de 2021, a cotação subiu para 8.000, e em fevereiro de 2023, para 15.000.

Em 14 de setembro de 2022, Sali Hafez, decoradora de 28 anos, entrou numa agência do BLOM Bank em Beirute com uma pistola de brinquedo. A irmã, Nancy, tinha câncer, e o banco recusava liberar o dinheiro do tratamento.

Sali saiu da agência com cerca de 13.000 dólares do próprio depósito de 20.000. Ela se escondeu por alguns dias e não há registro público de condenação contra ela até hoje.

Riad Salameh deixou o cargo em julho de 2023, alvo de investigações por desvio de recursos na França, na Alemanha e no Líbano. Em setembro de 2024, ele foi preso em Beirute.

 
 
 
 

II  A Matemática

A conta do lollar em libras

 
 

A conta começa por um depósito de 10.000 dólares feito em Beirute em 2019, quando o dólar valia 1.507,5 libras no banco e na rua.

Em 2020, pela Circular 151, o banco pagava esse depósito a 3.900 libras por dólar, e o paralelo já passava de 8.000.

Em 2023, a cotação do banco subiu para 15.000, mas o paralelo correu mais rápido. Em vários meses daquele ano, a nota de dólar na rua passou de 50.000 libras.

A tabela mostra quanto valiam, na rua, os 10.000 dólares depositados, sacados pela cotação do banco.

 
Ano do saqueCotação do bancoDólar na rua
20191.507,5 libras1.507,5 libras
20203.900 librasCerca de 8.000 libras
20228.000 librasCerca de 30.000 libras
202315.000 librasCerca de 60.000 libras

Conta ilustrativa: 10.000 dólares de depósito, cotações do banco pelas circulares do Banque du Liban e dólar na rua aproximado pela média do mercado paralelo de cada ano.

Em 2020, os 10.000 dólares viravam 39 milhões de libras. Na rua, essas libras compravam perto de 4.900 dólares em nota.

Em 2022, os mesmos 10.000 dólares viravam 80 milhões de libras, que compravam cerca de 2.700 dólares na rua.

Em 2023, o saque rendia 150 milhões de libras. Com o dólar a 60.000 na rua, sobravam 2.500 dólares, um quarto do depósito.

 

O banco nunca disse que tirou 75% do depósito; ele só escolheu a cotação do saque.

 

A perda não aparecia em nenhum extrato. O saldo continuava em 10.000 dólares, e o corte acontecia no balcão, a cada saque.

O teto de saque piorava a conta. Quem precisava do dinheiro inteiro esperava anos, e cada ano de espera trazia uma libra mais fraca na rua.

Quem podia esperar também perdia. O lollar parado não rendia juros reais, e a inflação libanesa passou de 200% em 2023, segundo a Administração Central de Estatística do Líbano.

O governo chamou o mecanismo de saque, e o mercado deu o nome que ficou: lirificação (conversão forçada do dólar em libra). Ela reduziu a dívida dos bancos com os correntistas sem passar por votação no Parlamento.

 

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III  A Aplicação

O dólar que mora no banco errado

 
 

A lição do Líbano para a carteira de 2026 é de endereço. O depósito era em dólar, mas o dólar estava num banco libanês, sujeito à lei e ao caixa do Líbano.

O correntista acreditou que a moeda o protegia. A proteção dependia do banco que guardava a moeda e do país que regulava o banco.

O Brasil já viveu um corte parecido. Em 16 de março de 1990, o Plano Collor bloqueou por 18 meses todo saldo acima de 50.000 cruzados novos em conta corrente, poupança e aplicação.

A devolução veio em 12 parcelas, corrigida abaixo da inflação, e o poupador recebeu um dinheiro que comprava menos do que tinha guardado.

 

Moeda forte protege contra a inflação; banco fora do país protege contra a lei local.

 

Hoje, o brasileiro tem três formas comuns de guardar dólar. Conta global em banco ou corretora com custódia no exterior, fundo cambial negociado no Brasil e ETF (fundo negociado na bolsa como se fosse ação) listado nos Estados Unidos.

O fundo cambial é promessa em reais com exposição ao dólar, regulada no Brasil. A conta global e o ETF americano ficam guardados sob a lei de outro país, que um decreto brasileiro não alcança.

A garantia também tem endereço. O Fundo Garantidor de Créditos (o seguro privado que cobre depósitos no Brasil) protege até 250.000 reais por CPF por instituição, e só o depósito feito aqui.

O passo a passo para conferir onde mora o seu dólar:

 
1

Liste cada ativo em moeda estrangeira da carteira: conta, fundo, ETF ou ação.

2

Anote o país da custódia de cada um, o lugar onde o ativo fica guardado.

3

Separe o que é promessa em reais com exposição ao dólar do que é dólar guardado lá fora.

4

Refaça a conta do Líbano: corte 75% da parte guardada no Brasil e veja quanto o resto compensa.

5

Defina a fatia mínima que você manteria fora da lei brasileira, mesmo pagando câmbio e imposto.

 

Quantos dólares os bancos libaneses ainda devem aos correntistas não se sabe com precisão, porque o plano de reestruturação que separaria as perdas entre governo, banco central, bancos e correntistas segue sem aprovação no Parlamento.

15.000 libras por dólar. Foi a cotação que os bancos do Líbano usaram para pagar o lollar a partir de fevereiro de 2023 (Banque du Liban, Circular 151, 2023).

“Se o seu banco devolvesse o seu dólar em reais pela cotação que ele escolhesse, que parte da sua reserva ficaria fora do alcance dele?”

 
 

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Quiz da edição

Em fevereiro de 2023, a que cotação os bancos do Líbano passaram a pagar o dólar depositado?

A8.000 libras por dólar
B3.900 libras por dólar
C15.000 libras por dólar
D50.000 libras por dólar

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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