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I O Princípio
A trava sem lei que guardou os dólares
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Riad Salameh governou o Banque du Liban de 1993 a 2023. Durante 30 anos, ele sustentou a cotação de 1.507,5 libras pagando aos bancos juros acima do mercado por cada dólar que eles depositassem no banco central. |
Os bancos repassavam parte desses juros ao correntista e emprestavam o resto ao governo. O sistema só se mantinha de pé enquanto entrasse dólar novo para pagar os juros do dólar antigo. |
A partir de 2016, o banco central passou a oferecer taxas ainda maiores em operações que chamou de engenharia financeira (troca de títulos com prêmio para atrair dólares). Os bancos ganharam, e o rombo cresceu dentro do próprio banco central. |
Em 2019, a remessa de dólares desacelerou. Quando os protestos fecharam as agências, os bancos já não tinham dólar em caixa para devolver a todos que quisessem sacar. |
Sem uma lei de controle de capitais, cada banco criou a própria trava. Saque de 200 ou 300 dólares por semana, transferência para o exterior só com justificativa, cartão bloqueado para compra fora do país. |
Em 7 de março de 2020, o governo anunciou que não pagaria os eurobônus (títulos da dívida emitidos em moeda estrangeira) que venciam naquele mês. Foi o primeiro calote soberano da história do Líbano. |
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“Provavelmente entre as 10, talvez entre as 3, crises mais graves do mundo desde meados do século XIX.” Banco Mundial, Lebanon Economic Monitor, 2021. | | | |
O dólar preso no banco ganhou apelido. Os libaneses passaram a chamá-lo de lollar (junção de Lebanon, Líbano em inglês, com dollar), um dólar que só existia no extrato. |
Em abril de 2020, a Circular 151 do banco central permitiu sacar o lollar em libras a 3.900 por dólar. Em dezembro de 2021, a cotação subiu para 8.000, e em fevereiro de 2023, para 15.000. |
Em 14 de setembro de 2022, Sali Hafez, decoradora de 28 anos, entrou numa agência do BLOM Bank em Beirute com uma pistola de brinquedo. A irmã, Nancy, tinha câncer, e o banco recusava liberar o dinheiro do tratamento. |
Sali saiu da agência com cerca de 13.000 dólares do próprio depósito de 20.000. Ela se escondeu por alguns dias e não há registro público de condenação contra ela até hoje. |
Riad Salameh deixou o cargo em julho de 2023, alvo de investigações por desvio de recursos na França, na Alemanha e no Líbano. Em setembro de 2024, ele foi preso em Beirute. |
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II A Matemática
A conta do lollar em libras
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A conta começa por um depósito de 10.000 dólares feito em Beirute em 2019, quando o dólar valia 1.507,5 libras no banco e na rua. |
Em 2020, pela Circular 151, o banco pagava esse depósito a 3.900 libras por dólar, e o paralelo já passava de 8.000. |
Em 2023, a cotação do banco subiu para 15.000, mas o paralelo correu mais rápido. Em vários meses daquele ano, a nota de dólar na rua passou de 50.000 libras. |
A tabela mostra quanto valiam, na rua, os 10.000 dólares depositados, sacados pela cotação do banco. |
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| Ano do saque | Cotação do banco | Dólar na rua |
| 2019 | 1.507,5 libras | 1.507,5 libras |
| 2020 | 3.900 libras | Cerca de 8.000 libras |
| 2022 | 8.000 libras | Cerca de 30.000 libras |
| 2023 | 15.000 libras | Cerca de 60.000 libras | |
Conta ilustrativa: 10.000 dólares de depósito, cotações do banco pelas circulares do Banque du Liban e dólar na rua aproximado pela média do mercado paralelo de cada ano. |
Em 2020, os 10.000 dólares viravam 39 milhões de libras. Na rua, essas libras compravam perto de 4.900 dólares em nota. |
Em 2022, os mesmos 10.000 dólares viravam 80 milhões de libras, que compravam cerca de 2.700 dólares na rua. |
Em 2023, o saque rendia 150 milhões de libras. Com o dólar a 60.000 na rua, sobravam 2.500 dólares, um quarto do depósito. |
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O banco nunca disse que tirou 75% do depósito; ele só escolheu a cotação do saque. | | | |
A perda não aparecia em nenhum extrato. O saldo continuava em 10.000 dólares, e o corte acontecia no balcão, a cada saque. |
O teto de saque piorava a conta. Quem precisava do dinheiro inteiro esperava anos, e cada ano de espera trazia uma libra mais fraca na rua. |
Quem podia esperar também perdia. O lollar parado não rendia juros reais, e a inflação libanesa passou de 200% em 2023, segundo a Administração Central de Estatística do Líbano. |
O governo chamou o mecanismo de saque, e o mercado deu o nome que ficou: lirificação (conversão forçada do dólar em libra). Ela reduziu a dívida dos bancos com os correntistas sem passar por votação no Parlamento. | |
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