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O fundo de 1947 que trocou o Tesouro por ações

O título britânico pagava 2,5% fixos para sempre; o dividendo da ação podia subir junto com os preços.

Operários saindo de uma fábrica de cigarros em Bristol nos anos 1940

Bristol, 1947: o fundo que trocou gilts por ações

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2,5% ao ano. Foi o juro do título que o Tesouro britânico lançou em 1946, sob o ministro das Finanças Hugh Dalton, sem data marcada para devolver o capital.

O papel ganhou o apelido de Daltons. Quem comprava recebia 2,5 libras por ano a cada 100 aplicadas, hoje, daqui a dez anos e daqui a cinquenta, sempre a mesma quantia.

Dalton queria baratear a dívida da guerra. O Reino Unido saía de seis anos de conflito devendo acima de duas vezes o que produzia num ano inteiro, e cada ponto de juro a menos aliviava o orçamento do governo trabalhista.

Os fundos de pensão britânicos eram os compradores naturais. Eles guardavam a aposentadoria de operários e funcionários e tratavam o gilt (título da dívida do governo britânico) como o porto seguro por definição.

A lógica parecia sólida. O governo de Sua Majestade nunca tinha deixado de pagar um cupom (o juro periódico do título), e o fundo precisava de renda certa para pagar pensões certas.

Faltava uma conta. Os preços ingleses subiam desde o fim da guerra, com o racionamento ainda em vigor e a libra sob pressão, e o cupom de 2,5 libras não acompanhava nenhum desses aumentos.

O título prometia devolver sempre o mesmo número de libras. Ninguém prometia o que aquelas libras comprariam.

Em poucos anos, os Daltons já eram negociados bem abaixo do valor de face. Quem tinha comprado no lançamento perdeu capital e renda real ao mesmo tempo, sem nenhum calote do governo.

Em Bristol, um atuário (o profissional que calcula riscos e obrigações futuras de seguros e pensões) de 36 anos tirou dessa conta uma conclusão que os colegas consideravam imprudente.

A seção I conta quem era ele, o que fez com a carteira da Imperial Tobacco e por que a City de Londres passou a copiar o fundo que antes chamava de temerário.

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I  O Princípio

O atuário que vendeu os gilts

 
 

George Ross Goobey assumiu a gestão do fundo de pensão da Imperial Tobacco, a maior fabricante de cigarros do Reino Unido, em 1947. O fundo pagava a aposentadoria dos trabalhadores das fábricas da empresa.

A carteira que ele recebeu seguia o padrão da época. Quase tudo estava em títulos do governo e em empréstimos de renda fixa, papéis que pagavam um valor combinado em libras.

Ross Goobey olhou o passivo antes do ativo. O fundo devia pensões que acompanhariam os salários, e os salários subiriam com os preços; o título, por contrato, ficava parado.

A partir daí veio o argumento central. Só a ação ordinária (a fatia de propriedade de uma empresa, com direito ao lucro distribuído) oferecia uma renda capaz de crescer com a inflação.

O raciocínio era de balcão de loja. Quando o preço do cigarro, do pão e do aço sobe, a empresa que vende esses produtos fatura mais libras, lucra mais libras e pode distribuir dividendos maiores.

Ele começou a vender os gilts e comprar ações. Não escolheu poucas apostas: espalhou o dinheiro por centenas de empresas, muitas delas pequenas e pouco acompanhadas pelos corretores da City.

Em meados dos anos 1950, quase toda a carteira do fundo estava em ações. Para o padrão britânico, um fundo de pensão sem títulos do governo parecia uma imprudência com o dinheiro de aposentados.

 

O título promete libras; a empresa promete participar dos preços que fazem as libras perderem valor.

 

Em 1956, Ross Goobey defendeu a tese numa conferência da Association of Superannuation and Pension Funds, a associação dos fundos de pensão britânicos. O discurso circulou pela City e virou referência.

O mercado deu ao movimento um apelido: cult of the equity (culto da ação). Fundos de pensão e seguradoras passaram a comprar ações em escala, e a fatia de renda variável nas carteiras institucionais britânicas subiu nas décadas seguintes.

O sinal mais visível veio em 1959. Naquele ano, o dividendo pago pelas ações britânicas, medido sobre o preço, caiu abaixo do juro dos gilts, e o mercado chamou a inversão de reverse yield gap (diferença de rendimento invertida).

A inversão dizia o que Ross Goobey dizia desde 1947. O investidor aceitava receber menos renda hoje na ação porque esperava que essa renda crescesse, e o título não tinha como crescer.

Ross Goobey comandou o fundo até o começo dos anos 1970. O filho, Alastair Ross Goobey, seguiu a carreira e dirigiu nos anos 1990 a Hermes, gestora do fundo de pensão dos funcionários da British Telecom e dos Correios britânicos.

 
 
 
 

II  A Matemática

Duas rendas em 20 anos de preços em alta

 
 

A conta parte de 100 libras aplicadas em 1947, e de uma inflação de 4% ao ano durante 20 anos. É uma hipótese redonda para enxergar o mecanismo, sem a pretensão de reproduzir a série histórica britânica.

Na primeira carteira, as 100 libras compram o título de 2,5%. A renda é de 2,5 libras por ano, hoje e no vigésimo ano, porque o cupom é fixo por contrato.

Na segunda, as mesmas 100 libras compram ações com dividendo de 4% sobre o preço, e esse dividendo cresce 5% ao ano, um ponto acima da inflação da hipótese.

Com 4% de inflação composta, o nível de preços multiplica por 2,19 em 20 anos. Cada libra do ano 20 compra menos da metade do que comprava no ano 1.

 
Renda anualInícioAno 20 (poder de compra)
Título de 2,5%2,50 libras1,14 libra
Ação com 4%4,00 libras4,84 libras

Conta ilustrativa: inflação de 4% ao ano, dividendo crescendo 5% ao ano, valores do ano 20 deflacionados pelo fator 2,19.

O título paga 2,50 libras no ano 20. Divididas por 2,19, elas compram o que 1,14 libra comprava no começo, uma perda de 54% da renda real.

O dividendo da ação, crescendo 5% ao ano, chega a 10,61 libras no ano 20. Deflacionado pelo fator 2,19, equivale a 4,84 libras do começo, um ganho real de 21% na renda.

Nos dois casos o dinheiro investido é o mesmo. Muda o contrato: um fixa a quantidade de libras, o outro amarra a renda ao faturamento de empresas que vendem a preços correntes.

 

A renda fixa é fixa em moeda; quem vive de pensão paga as contas em mercadoria.

 

O preço do título também sofre. Se a inflação sobe e o mercado passa a exigir juro de 5% no lugar dos 2,5% contratados, o papel perpétuo vale perto da metade do valor de face, porque 2,5 dividido por 5 dá 50%.

A ação carrega outro risco: o dividendo pode ser cortado, e o preço oscila muito mais ano a ano. Daí a escolha de Ross Goobey de espalhar o dinheiro por centenas de empresas, para que nenhuma delas sozinha decidisse a renda do fundo.

A tese depende de uma condição. As empresas precisam conseguir repassar a inflação para o preço do que vendem; em setores com preço controlado ou concorrência feroz, o dividendo pode ficar para trás.

 

“The investor's chief problem, and even his worst enemy, is likely to be himself.” (O principal problema do investidor, e até seu pior inimigo, provavelmente é ele mesmo.) Benjamin Graham, The Intelligent Investor, 1949.

 

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III  A Aplicação

A renda que acompanha os preços

 
 

O investidor brasileiro de 2026 tem a pergunta de Ross Goobey dentro da própria carteira: quanto da renda futura está escrito em reais fixos e quanto acompanha os preços.

O Tesouro Prefixado é o parente direto dos Daltons. Ele paga um número combinado de reais no vencimento, e a inflação até lá corre por conta de quem comprou.

O Brasil tem uma ferramenta que o fundo da Imperial Tobacco não tinha em 1947: o Tesouro IPCA+, título que corrige o capital pelo IPCA (o índice oficial de inflação, medido pelo IBGE) e paga um juro real por cima.

Esse título resolve parte do problema sem sair da renda fixa. O limite é o prazo: ele protege até o vencimento, e o preço oscila no caminho quando o juro real do mercado muda.

As ações pagadoras de dividendo fazem o papel que Ross Goobey enxergou. Empresas de energia, saneamento e rodovias têm contratos com reajuste por índice de preços, e parte desse reajuste chega ao acionista.

O passo a passo para medir a sua exposição ao contrato fixo:

 
1

Liste cada aplicação da carteira e anote se a renda dela é prefixada, pós-fixada, atrelada à inflação ou variável.

2

Some o peso de tudo que paga um valor fixo em reais, sem correção nenhuma até o vencimento.

3

Aplique 4% de inflação ao ano sobre essa fatia e calcule quanto da renda real sobra em 20 anos: divida por 2,19.

4

Para a fatia em ações, confira se as empresas aumentaram o dividendo por ação nos últimos cinco anos.

5

Defina um piso de ativos ligados aos preços (IPCA+ e ações) compatível com o prazo em que você vai viver dessa renda.

 

Ross Goobey não desprezava a renda fixa por princípio. Ele recusava o papel que entregava pouco e não crescia, num fundo cujas obrigações cresceriam por décadas.

1,14 libra por ano. Foi o que sobrou, em poder de compra, das 2,50 libras do título de 2,5% depois de 20 anos de inflação a 4% (conta ilustrativa desta edição).

“Se a sua aposentadoria dependesse só dos títulos que você tem hoje, quanto do supermercado de 2046 ela pagaria?”

 
 
Quiz da edição

Em que ano o dividendo das ações britânicas caiu abaixo do juro dos gilts, movimento que o mercado batizou de reverse yield gap?

A1947
B1956
C1959
D1970

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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