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O seguro que vendia ações quando a bolsa caía em 1987

Com piso de R$ 90 mil e multiplicador 5, uma queda de 10% obriga a vender R$ 20 mil em ações.

Painel de cotações em queda na bolsa de Nova York em 1987

O Dow Jones em queda em outubro de 1987

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Entre US$ 60 bilhões e US$ 90 bilhões. Era o patrimônio protegido por seguro de carteira nos Estados Unidos em outubro de 1987, segundo o relatório da comissão presidencial chefiada por Nicholas Brady, publicado no começo de 1988.

Fundos de pensão, fundações e grandes gestores tinham comprado uma promessa simples: participar da alta da bolsa sem perder mais que um piso combinado. Se o mercado caísse, um programa de computador venderia ações aos poucos e levaria o dinheiro para o caixa.

A promessa atravessou cinco anos de alta sem tropeço. O Dow Jones (a média de 30 grandes empresas americanas) passou de 777 pontos em agosto de 1982 para 2.722 pontos em agosto de 1987.

Na semana anterior ao desastre, a bolsa já tinha perdido mais de 10%. Na sexta-feira, 16 de outubro, o Dow caiu 108 pontos, a maior queda em pontos da sua história até aquele dia.

Os programas leram a queda como ordem de venda. O pregão fechou com boa parte dessas vendas ainda por fazer, e a fila de ordens atravessou o fim de semana.

Na segunda-feira, 19 de outubro, o Dow Jones abriu sob uma avalanche de pedidos de venda e fechou em 1.738,74 pontos. Perdeu 508 pontos, ou 22,6%, a maior queda percentual num único pregão da história da bolsa americana.

A Bolsa de Nova York negociou 604 milhões de ações, quase o dobro do recorde anterior. As telas de cotação atrasavam mais de uma hora, e muitos gestores vendiam sem saber por quanto.

O seguro existia para limitar a perda. Naquele pregão, ele virou vendedor automático num mercado sem comprador, e cada venda derrubava o preço, o que disparava a venda seguinte.

Entender como uma proteção vira motor de queda pede voltar à sala onde a ideia nasceu, numa universidade da Califórnia, onze anos antes do crash.

O Princípio começa por lá, com o professor que desenhou o seguro e com a premissa escondida dentro dele.

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I  O Princípio

O professor que quis segurar a bolsa

 
 

Hayne Leland, professor de finanças em Berkeley, na Universidade da Califórnia, teve a ideia em setembro de 1976. Ele queria oferecer aos fundos de pensão uma opção de venda (o direito de vender um ativo por um preço fixo até certa data) sobre a carteira inteira.

Uma opção desse tamanho, para uma carteira de bilhões e prazo de anos, não existia em bolsa nenhuma. Leland propôs fabricar o efeito dela com compras e vendas de ações ao longo do tempo.

A base veio da fórmula publicada por Fischer Black e Myron Scholes no Journal of Political Economy, em 1973. Ela mostra que uma opção pode ser replicada por uma carteira que muda o peso em ações conforme o preço anda.

Na prática, a regra é mecânica. Quando a bolsa sobe, a carteira compra ações e aumenta a exposição. Quando a bolsa cai, vende ações e leva o dinheiro para títulos de curto prazo, até encostar no piso garantido.

Em 1981, Leland, o colega Mark Rubinstein e o vendedor John O'Brien fundaram a Leland O'Brien Rubinstein Associates, a LOR, para vender o produto a investidores institucionais.

A partir de 1982, a venda passou a usar futuros do índice S&P 500 (contratos padronizados que apostam no valor do índice numa data à frente), negociados na Bolsa Mercantil de Chicago. Vender futuro reduzia a exposição sem tocar nas ações, com custo menor e velocidade maior.

 

O seguro de carteira protegia cada cliente vendendo justamente quando todos os outros clientes também vendiam.

 

Ali morava o defeito. Uma opção de venda comprada em bolsa passa o risco para quem a vendeu e recebeu o prêmio. O seguro sintético não passava risco para ninguém: exigia que, na hora da queda, alguém aceitasse comprar o que o programa despejava.

Com poucos clientes, a premissa se sustentava. Com dezenas de bilhões de dólares seguindo a mesma regra, a venda do seguro ficou grande o bastante para mexer no preço que ela tentava acompanhar.

O modelo supunha ainda um mercado contínuo, em que o preço anda em passos pequenos e sempre aparece comprador para a ordem. Nesse mundo, o programa vende um pouco a cada degrau e nunca fura o piso.

Em 19 de outubro de 1987, o preço andou em saltos de dezenas de pontos, e os degraus sumiram.

 
 
 
 

II  A Matemática

Vender mais a cada queda

 
 

A versão mais simples da regra se chama CPPI (Constant Proportion Portfolio Insurance, seguro de carteira por proporção constante), descrita por André Perold, da Harvard Business School, em 1986.

A regra cabe numa linha. O valor em ações é igual a um multiplicador vezes o colchão, e o colchão é a distância entre o patrimônio e o piso que o investidor não aceita perder.

Considere uma carteira de R$ 100 mil, piso de R$ 90 mil e multiplicador 5. O colchão é R$ 10 mil, e a regra manda deixar 5 vezes R$ 10 mil, ou R$ 50 mil, em ações. Os outros R$ 50 mil ficam no caixa.

Agora a bolsa cai 10%. As ações passam a valer R$ 45 mil, a carteira vale R$ 95 mil e o colchão encolhe para R$ 5 mil. A nova exposição é 5 vezes R$ 5 mil, ou R$ 25 mil: a regra obriga a vender R$ 20 mil em ações.

A bolsa cai mais 10%. Os R$ 25 mil viram R$ 22,5 mil, a carteira vai a R$ 92,5 mil e o colchão a R$ 2,5 mil. A exposição permitida desce para R$ 12,5 mil, e a regra vende outros R$ 10 mil.

 
MomentoCarteiraVenda exigida
InícioR$ 100.000nenhuma
Bolsa cai 10%R$ 95.000R$ 20.000
Cai mais 10%R$ 92.500R$ 10.000

Conta ilustrativa: piso de R$ 90 mil, multiplicador 5, caixa sem rendimento.

A venda nasce da queda, e o multiplicador amplia o tamanho dela. Com multiplicador 5, cada R$ 1 perdido no colchão tira R$ 5 da exposição em ações.

 

Com milhares de carteiras na mesma regra, a venda de um gestor vira a queda que obriga o próximo a vender.

 

O ponto fraco aparece quando o preço salta. Se a bolsa cair 22,6% sem dar tempo ao programa, as ações vão de R$ 50 mil para R$ 38,7 mil e a carteira para R$ 88,7 mil, abaixo do piso de R$ 90 mil. O seguro furou.

Foi o desenho de 19 de outubro. O relatório Brady estimou que os gestores de seguro de carteira venderam futuros equivalentes a perto de US$ 4 bilhões em ações naquele pregão, além de US$ 1,7 bilhão em ações vendidas direto na bolsa.

O futuro do S&P 500 chegou a ser negociado bem abaixo do valor das ações do índice. Arbitradores (operadores que lucram com a distância de preço entre dois mercados) compravam o futuro barato em Chicago e vendiam as ações em Nova York, e a queda atravessava de um pregão para o outro.

O relatório também registrou a outra metade da pressão. Fundos de investimento atingidos por pedidos de resgate venderam ações em bloco, e a soma das duas ondas encontrou poucos compradores dispostos a ficar com o risco.

 

“O principal problema do investidor, e até o seu pior inimigo, provavelmente é ele mesmo.” Benjamin Graham, O Investidor Inteligente, edição de 1973.

 

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III  A Aplicação

O rebalanceamento que compra a queda

 
 

O seguro de carteira e o rebalanceamento (voltar a carteira aos pesos-alvo de tempos em tempos) são regras mecânicas com sinais opostos. O seguro vende ações quando elas caem; o rebalanceamento compra.

Uma carteira de R$ 100 mil com alvo de 60% em ações e 40% em renda fixa mostra o efeito. Se a bolsa cair 22,6%, os R$ 60 mil em ações viram R$ 46,44 mil e a carteira inteira vai a R$ 86,44 mil.

Os 60% de R$ 86,44 mil são R$ 51,86 mil. O rebalanceamento manda tirar R$ 5,42 mil da renda fixa e comprar ações a preço de liquidação.

 

A regra que compra na queda só funciona se o dinheiro da compra já estiver separado quando o pânico chega.

 

Quem seguia o seguro de carteira vendeu no fundo. Quem rebalanceou comprou no fundo e ficou com a recuperação: o Dow Jones voltou ao pico de agosto de 1987 em agosto de 1989.

A bolsa brasileira guarda uma herança direta de 1987. Depois do relatório Brady, a Bolsa de Nova York adotou em 1988 os circuit breakers (disjuntores que suspendem os negócios depois de uma queda grande). A B3 usa a mesma ferramenta: queda de 10% do Ibovespa suspende o pregão por 30 minutos, e queda de 15% suspende por uma hora.

Em março de 2020, na chegada da covid-19 ao mercado, o disjuntor da B3 disparou seis vezes em oito pregões. A pausa dá tempo para o comprador aparecer, a peça que faltou em 19 de outubro.

Para o investidor pessoa física, a lição de 1987 vira cinco regras simples:

1

Defina por escrito o peso de ações e de renda fixa, com uma faixa de tolerância de 5 pontos para cima ou para baixo.

2

Mantenha a reserva de emergência fora da carteira de risco, em aplicação de liquidez diária, para nunca vender ação para pagar conta.

3

Rebalanceie quando a faixa estourar, comprando a classe que caiu com o dinheiro da classe que subiu.

4

Desconfie de produto que promete participar da alta sem risco de queda e pergunte quem compra a sua posição na hora do pânico.

5

Se quiser proteção real, compre opção de venda em bolsa e aceite o prêmio pago como o preço do seguro.

 

A opção comprada custa caro porque passa o risco para alguém que aceitou carregá-lo. O seguro sintético de 1987 parecia barato porque não passava nada: dependia de um comprador que, em 19 de outubro, não apareceu.

“Se a bolsa caísse 22,6% num só pregão, a regra da sua carteira mandaria comprar ou vender?”

US$ 4 bilhões em futuros. Foi quanto os gestores de seguro de carteira venderam em 19 de outubro de 1987 (relatório Brady, 1988).

 
 
Quiz da edição

No exemplo da edição, com piso de R$ 90 mil e multiplicador 5, quanto a regra CPPI manda vender depois da primeira queda de 10% na bolsa?

AR$ 10 mil
BR$ 5 mil
CR$ 20 mil
DR$ 50 mil

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