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I O Princípio
O professor que quis segurar a bolsa
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Hayne Leland, professor de finanças em Berkeley, na Universidade da Califórnia, teve a ideia em setembro de 1976. Ele queria oferecer aos fundos de pensão uma opção de venda (o direito de vender um ativo por um preço fixo até certa data) sobre a carteira inteira. |
Uma opção desse tamanho, para uma carteira de bilhões e prazo de anos, não existia em bolsa nenhuma. Leland propôs fabricar o efeito dela com compras e vendas de ações ao longo do tempo. |
A base veio da fórmula publicada por Fischer Black e Myron Scholes no Journal of Political Economy, em 1973. Ela mostra que uma opção pode ser replicada por uma carteira que muda o peso em ações conforme o preço anda. |
Na prática, a regra é mecânica. Quando a bolsa sobe, a carteira compra ações e aumenta a exposição. Quando a bolsa cai, vende ações e leva o dinheiro para títulos de curto prazo, até encostar no piso garantido. |
Em 1981, Leland, o colega Mark Rubinstein e o vendedor John O'Brien fundaram a Leland O'Brien Rubinstein Associates, a LOR, para vender o produto a investidores institucionais. |
A partir de 1982, a venda passou a usar futuros do índice S&P 500 (contratos padronizados que apostam no valor do índice numa data à frente), negociados na Bolsa Mercantil de Chicago. Vender futuro reduzia a exposição sem tocar nas ações, com custo menor e velocidade maior. |
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O seguro de carteira protegia cada cliente vendendo justamente quando todos os outros clientes também vendiam. | | | |
Ali morava o defeito. Uma opção de venda comprada em bolsa passa o risco para quem a vendeu e recebeu o prêmio. O seguro sintético não passava risco para ninguém: exigia que, na hora da queda, alguém aceitasse comprar o que o programa despejava. |
Com poucos clientes, a premissa se sustentava. Com dezenas de bilhões de dólares seguindo a mesma regra, a venda do seguro ficou grande o bastante para mexer no preço que ela tentava acompanhar. |
O modelo supunha ainda um mercado contínuo, em que o preço anda em passos pequenos e sempre aparece comprador para a ordem. Nesse mundo, o programa vende um pouco a cada degrau e nunca fura o piso. |
Em 19 de outubro de 1987, o preço andou em saltos de dezenas de pontos, e os degraus sumiram. |
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II A Matemática
Vender mais a cada queda
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A versão mais simples da regra se chama CPPI (Constant Proportion Portfolio Insurance, seguro de carteira por proporção constante), descrita por André Perold, da Harvard Business School, em 1986. |
A regra cabe numa linha. O valor em ações é igual a um multiplicador vezes o colchão, e o colchão é a distância entre o patrimônio e o piso que o investidor não aceita perder. |
Considere uma carteira de R$ 100 mil, piso de R$ 90 mil e multiplicador 5. O colchão é R$ 10 mil, e a regra manda deixar 5 vezes R$ 10 mil, ou R$ 50 mil, em ações. Os outros R$ 50 mil ficam no caixa. |
Agora a bolsa cai 10%. As ações passam a valer R$ 45 mil, a carteira vale R$ 95 mil e o colchão encolhe para R$ 5 mil. A nova exposição é 5 vezes R$ 5 mil, ou R$ 25 mil: a regra obriga a vender R$ 20 mil em ações. |
A bolsa cai mais 10%. Os R$ 25 mil viram R$ 22,5 mil, a carteira vai a R$ 92,5 mil e o colchão a R$ 2,5 mil. A exposição permitida desce para R$ 12,5 mil, e a regra vende outros R$ 10 mil. |
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| Momento | Carteira | Venda exigida |
| Início | R$ 100.000 | nenhuma |
| Bolsa cai 10% | R$ 95.000 | R$ 20.000 |
| Cai mais 10% | R$ 92.500 | R$ 10.000 | |
Conta ilustrativa: piso de R$ 90 mil, multiplicador 5, caixa sem rendimento. |
A venda nasce da queda, e o multiplicador amplia o tamanho dela. Com multiplicador 5, cada R$ 1 perdido no colchão tira R$ 5 da exposição em ações. |
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Com milhares de carteiras na mesma regra, a venda de um gestor vira a queda que obriga o próximo a vender. | | | |
O ponto fraco aparece quando o preço salta. Se a bolsa cair 22,6% sem dar tempo ao programa, as ações vão de R$ 50 mil para R$ 38,7 mil e a carteira para R$ 88,7 mil, abaixo do piso de R$ 90 mil. O seguro furou. |
Foi o desenho de 19 de outubro. O relatório Brady estimou que os gestores de seguro de carteira venderam futuros equivalentes a perto de US$ 4 bilhões em ações naquele pregão, além de US$ 1,7 bilhão em ações vendidas direto na bolsa. |
O futuro do S&P 500 chegou a ser negociado bem abaixo do valor das ações do índice. Arbitradores (operadores que lucram com a distância de preço entre dois mercados) compravam o futuro barato em Chicago e vendiam as ações em Nova York, e a queda atravessava de um pregão para o outro. |
O relatório também registrou a outra metade da pressão. Fundos de investimento atingidos por pedidos de resgate venderam ações em bloco, e a soma das duas ondas encontrou poucos compradores dispostos a ficar com o risco. |
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“O principal problema do investidor, e até o seu pior inimigo, provavelmente é ele mesmo.” Benjamin Graham, O Investidor Inteligente, edição de 1973. | | |
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