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I O Princípio
O emissor que podia pagar
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Os GKO nasceram em maio de 1993, no primeiro leilão organizado pelo Ministério das Finanças russo com o banco central. Eram títulos de cupom zero (sem juros periódicos: comprados com desconto, pagam o valor cheio no vencimento). |
Em 1993, a Rússia saía da hiperinflação do fim da União Soviética. O governo arrecadava pouco, gastava muito e precisava de uma fonte de financiamento fora da impressora do banco central. |
Os GKO cumpriram esse papel por cinco anos. Cada vencimento era pago com o dinheiro de um leilão novo, e o estoque crescia a cada rodada, porque os juros eram altos e a arrecadação não acompanhava. |
A teoria clássica dizia que um governo endividado na moeda que ele mesmo emite nunca precisa dar calote. Sempre pode criar o dinheiro do resgate. O risco do credor seria a inflação, nunca o calote. |
A Rússia de 1998 mostrou o elo ausente na teoria. Imprimir rublos pra pagar os GKO derrubaria o câmbio, aceleraria a inflação e quebraria os bancos russos, que tinham dívidas em dólar e contratos de câmbio com estrangeiros. |
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Poder pagar e querer pagar são promessas distintas, e o título só garante a primeira. | | | |
O governo pesou o custo das duas saídas. Pagar com dinheiro novo arruinaria o rublo de toda a população. Reestruturar os GKO concentrava a perda em quem segurava o papel: estrangeiros, bancos russos e o próprio banco central. |
A escolha tinha precedente. Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff catalogaram, no livro This Time Is Different (Princeton University Press, 2009), dezenas de calotes de governos na dívida interna, em moeda local, desde o século XIX. |
Os bastidores da decisão chegaram pelos próprios envolvidos. Kiriyenko e Dubinin disseram depois que as reservas não cobriam os vencimentos das semanas seguintes. A ata completa das reuniões daquele fim de semana nunca foi publicada, e os relatos sobre quem defendeu cada medida ainda divergem. |
O desfecho para o credor saiu meses depois. Os GKO foram trocados por títulos novos, de prazo mais longo, e por uma parcela pequena em dinheiro. O acordo com os estrangeiros só se fechou em 1999, e quem tinha o papel recebeu, em dólar, uma fração do que esperava. |
A inflação veio mesmo assim: 84% em 1998, segundo o Goskomstat, o serviço estatístico russo. O credor perdeu pelos dois caminhos que a teoria tratava como alternativos. |
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II A Matemática
Os 50% que viravam perda
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O estrangeiro que comprava GKO carregava dois riscos no mesmo papel: o calote do governo e a queda do rublo. Os juros altos pagavam pelos dois, e o cálculo mostra qual deles pesava mais. |
Considere um GKO de seis meses comprado a 66,7 rublos para pagar 100 no vencimento. O ganho no semestre é de 50%, e em rublos a operação parece um presente. |
Agora o investidor traz US$ 1 milhão e troca a 6,3 rublos por dólar, o câmbio da faixa antes de agosto. Recebe 6,3 milhões de rublos, compra os títulos e, no vencimento, terá 9,45 milhões de rublos. |
Se o câmbio ficar parado, os 9,45 milhões viram US$ 1,5 milhão. Se o dólar subir a 16 rublos, como em setembro de 1998, os mesmos 9,45 milhões compram só US$ 590 mil. |
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| Dólar no resgate | Volta em dólar |
| 6,3 rublos | US$ 1,5 milhão |
| 9,45 rublos | US$ 1 milhão |
| 16 rublos | US$ 590 mil |
| 20 rublos | US$ 472 mil | |
Conta ilustrativa: US$ 1 milhão, GKO de seis meses a 50%, governo pagando em dia. |
O ponto de equilíbrio é 9,45 rublos por dólar. Acima dele, o investidor perde em dólar mesmo com o governo pagando cada rublo prometido. O teto da faixa anunciada em 17 de agosto era 9,5, a um passo do equilíbrio. |
Os 50% no semestre equivalem a 125% ao ano, porque o segundo semestre rende em cima do semestre inicial: 1,5 vezes 1,5 dá 2,25. Um juro desse tamanho dizia em voz alta o tamanho do risco embutido. |
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Juro alto em moeda fraca paga primeiro o risco do câmbio, e só o que sobra remunera o investidor. | | | |
Muitos estrangeiros acharam que tinham fechado essa porta. Compraram contratos a termo (acordos pra trocar moeda numa data futura por um preço fixado hoje) com bancos russos, garantindo o dólar do resgate. |
A moratória de 90 dias congelou também esses contratos. A proteção cambial dependia de bancos russos, e eles estavam sob a mesma ordem de não pagar estrangeiros. O seguro sumiu junto com o devedor. |
O prejuízo atravessou o oceano. O Long-Term Capital Management, fundo americano com dois ganhadores do Nobel de Economia entre os sócios, Myron Scholes e Robert Merton, perdeu bilhões na corrida para títulos seguros que veio depois do calote. |
Em 23 de setembro de 1998, 14 instituições financeiras, reunidas pelo Federal Reserve de Nova York, puseram US$ 3,6 bilhões no fundo para evitar uma liquidação desordenada no mercado americano. |
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“O principal problema do investidor, e até o seu pior inimigo, provavelmente é ele mesmo.” Benjamin Graham, O Investidor Inteligente, edição de 1973. | | |
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