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I O Princípio
A promessa sem prazo
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A resposta de ontem Quem era o operador preso em Londres pelo flash crash? Navinder Singh Sarao, operador de futuros que negociava do quarto na casa dos pais em Hounslow, oeste de Londres. Foi preso em abril de 2015, extraditado aos Estados Unidos, admitiu em 2016 manipulação de ordens com ofertas falsas (spoofing) e, em janeiro de 2020, recebeu um ano de prisão domiciliar. |
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O franco suíço é a moeda pra onde o dinheiro europeu corre quando tem medo. Em agosto de 2011, com a crise das dívidas da Grécia, da Itália e da Espanha, o euro chegou perto de valer um franco só. Em 2007, valia mais de 1,60. |
Para a Suíça, a valorização era um problema concreto. Relógios, remédios e máquinas suíças ficavam mais caros no exterior, e os preços internos começavam a cair, o início de uma deflação (queda geral e persistente de preços). |
Em 6 de setembro de 2011, o BNS, presidido por Philipp Hildebrand, fixou o piso de 1,20. O comunicado daquela manhã não deixava margem: |
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“O BNS vai fazer valer esta cotação mínima com a máxima determinação e está preparado para comprar moeda estrangeira em quantidade ilimitada.” Banco Nacional da Suíça, comunicado à imprensa, 6 de setembro de 2011. | | | |
Um banco central consegue cumprir essa promessa num sentido só. Para segurar o franco fraco, ele cria francos e compra euros, e franco ele pode criar sem limite. Para segurar uma moeda forte, precisaria gastar reservas, e reservas acabam. |
O mercado acreditou. A promessa era tecnicamente cumprível, e por mais de três anos o euro mal encostou em 1,20. |
O custo apareceu no balanço. As reservas em moeda estrangeira do BNS chegaram a 510 bilhões de francos no fim de 2014, segundo o relatório anual do próprio banco, perto de 80% do PIB suíço daquele ano. |
Cada euro comprado era um ativo que perdia valor se o euro caísse. Quanto maior o balanço, maior o prejuízo potencial de um banco central que, em algum momento, teria de largar a posição. |
No começo de 2015, o motivo ganhou data. O Banco Central Europeu se preparava para anunciar o afrouxamento quantitativo (criação de dinheiro novo pra comprar títulos), que enfraqueceria o euro. O anúncio veio uma semana depois do fim do piso: 60 bilhões de euros em compras por mês. |
Manter o piso significaria criar francos em escala ainda maior pra comprar euros que o próprio emissor estava desvalorizando. O BNS decidiu sair antes, e escolheu sair calado. |
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Um preço defendido por alguém vale enquanto a defesa custar menos do que o abandono. | | | |
E sair sem aviso fazia parte do desenho. Um piso anunciado como provisório seria atacado na hora: especuladores do mundo inteiro venderiam euros ao banco na véspera da data marcada, e o BNS ficaria com o prejuízo inteiro. |
Hildebrand não estava mais lá para ver o fim. O homem que assinou o piso deixou a presidência quatro meses depois de criá-lo, e Thomas Jordan, que assumiu o banco em 2012, foi quem leu o comunicado do abandono. |
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II A Matemática
O euro a 1,00 franco
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Um investidor abre, numa corretora de câmbio, uma compra de 100 mil euros contra o franco a 1,20. A posição vale 120 mil francos. A corretora exige margem (o depósito de garantia da operação) de 2%: 2.400 francos. |
Com o piso, o raciocínio parecia blindado. Se o euro subisse para 1,23, o ganho seria de 3 mil francos, mais que o dobro do depósito. Se caísse, o banco central compraria em 1,20. |
A corretora tem uma regra de proteção: quando a perda come a margem, ela encerra a posição sozinha, vendendo os euros pelo preço disponível. Na manhã do anúncio, o preço disponível pulou várias casas num salto só. |
Suponha a venda executada a 1,00 franco. Os 100 mil euros valem agora 100 mil francos. A perda é de 20 mil francos. |
O depósito era de 2.400. O investidor perdeu a margem inteira e ficou devendo 17.600 francos à corretora, mais de sete vezes o valor que colocou. |
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| Venda dos 100 mil euros | Saldo com a corretora |
| A 1,15 franco | Deve 2.600 francos |
| A 1,10 franco | Deve 7.600 francos |
| A 1,00 franco | Deve 17.600 francos |
| A 0,85 franco | Deve 32.600 francos | |
Conta ilustrativa: compra de 100 mil euros a 1,20 franco, margem de 2% (2.400 francos). |
Na pior linha, a dívida passa de 13 vezes o depósito. A alavancagem (operar com dinheiro emprestado da corretora) multiplicou a perda na mesma proporção em que multiplicava o ganho, só que o ganho vinha em gotas e a perda veio inteira. |
A aposta tinha um formato conhecido: ganho pequeno e frequente, perda rara e enorme. Entre 2012 e 2014, o euro oscilou quase sempre entre 1,20 e 1,25 franco, e a posição rendeu ganhos modestos quase todo mês. |
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“Só quando a maré baixa você descobre quem estava nadando pelado.” Warren Buffett, carta aos acionistas da Berkshire Hathaway referente a 2001. | | | |
O estrago passou longe das corretoras também. Na bolsa de Zurique, o índice SMI, das 20 maiores empresas suíças, caiu 8,7% naquela quinta. Nestlé, Novartis e Roche faturam em grande parte fora da Suíça, e cada euro vendido passou a valer menos francos. |
O próprio BNS pagou o preço. Fechou 2015 com prejuízo de 23,3 bilhões de francos, puxado pela perda cambial nas reservas, segundo o relatório anual do banco. | |
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