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I O Princípio
O preço de guardar dinheiro
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A resposta de ontem Por que Philipp Hildebrand deixou o banco central suíço? Por causa de uma compra de dólares feita pela mulher dele. Em 15/8/2011, semanas antes do piso, Kashya Hildebrand comprou cerca de US$ 504 mil vendendo francos. Um funcionário do banco Sarasin vazou os extratos, e Hildebrand renunciou em 9/1/2012, embora as auditorias não tenham apontado violação de regra. |
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O título vendido naquela quarta era o Bund 2050 (Bund é o nome do título de longo prazo do governo federal alemão). A dívida alemã servia de referência de segurança da zona do euro: o país fechava o orçamento no azul desde 2014. |
O juro negativo nasceu no banco central. Em 2014, o Banco Central Europeu (BCE) passou a cobrar 0,10% ao ano sobre o dinheiro que os bancos deixavam depositado nele. Em 2019, a cobrança já estava em 0,40% ao ano. |
Um banco com caixa sobrando tinha duas saídas. Podia pagar 0,40% ao ano ao BCE pelo depósito, ou comprar um título que custasse menos. O Bund 2050, a menos 0,11%, saía mais barato que o depósito. |
Havia um segundo motor. Desde março de 2015, o BCE comprou títulos de governo em grande escala, e o programa somou 2,6 trilhões de euros em ativos até o fim de 2018, segundo o próprio banco. |
Esse comprador gigante tinha uma promessa por trás, feita três anos antes do programa começar: |
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“Dentro do nosso mandato, o BCE está pronto para fazer o que for preciso para preservar o euro. E acreditem, vai ser suficiente.” Mario Draghi, presidente do BCE, discurso na Global Investment Conference, Londres, 26 de julho de 2012. | | | |
Draghi cumpriu a promessa com juro cada vez mais baixo. Quem comprava título longo apostava na queda contínua dos juros, e por cinco anos acertou: cada nova queda valorizava os papéis antigos. |
A terceira razão estava na regra. Seguradoras e fundos de pensão europeus prometem pagar aposentadorias e apólices por décadas, e as normas de solvência os empurram a carregar ativos com prazo parecido com essas dívidas. |
Para casar um compromisso com vencimento em 2050, o papel alemão de 2050 era o encaixe mais limpo disponível. O preço alto entrava como custo da proteção. |
E havia o medo de deflação (queda geral e persistente de preços). A inflação da zona do euro estava em 1,0% ao ano em agosto de 2019, segundo o Eurostat, bem abaixo da meta de quase 2% do BCE. |
Com preços caindo, até um rendimento negativo devolve poder de compra positivo. Se os preços recuam 1% ao ano, perder 0,11% ainda deixa o investidor com mais bens no fim do prazo. |
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Juro negativo é o preço que o investidor grande aceita pagar por um lugar seguro onde guardar bilhões. | | | |
Faltava explicar o cofre. Uma pessoa física guarda cédulas em casa de graça, mas um fundo com bilhões precisa de cofre, seguro e transporte, e esse custo passa dos 0,11% ao ano. |
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II A Matemática
103,5 euros por 100
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Num título sem cupom, o juro inteiro mora no preço. Quem compra paga um valor hoje e recebe 100 no vencimento; o rendimento é a distância anual entre os dois números. |
Com rendimento de 0,11% negativo por 31 anos, o preço sai de uma potência simples: 100 dividido por 0,9989 elevado a 31. O resultado fica perto de 103,5 euros. |
Para um lote de 10 mil euros de valor de face, o comprador desembolsava 10.350 euros em 2019 e recebe 10 mil em 2050. A perda nominal travada no contrato é de 350 euros, perto de 3,4% do valor pago. |
Esse é o cenário bom, o de segurar até o fim. O risco grande aparece para quem precisa vender antes, porque um papel sem cupom com 31 anos de prazo reage com força a qualquer mudança no juro. |
A medida dessa força é a duration (prazo médio em que o investidor recebe o dinheiro, que indica quanto o preço oscila a cada ponto de juro). Num papel sem cupom, a duration é o próprio prazo: 31 anos. |
Na prática, cada ponto percentual de alta no juro tira do papel perto de um quarto do preço. A tabela mostra o mesmo título três anos depois do leilão, com 28 anos pela frente: |
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| Juro anual em 2022 | Preço por 100 de face |
| Menos 0,11% | 103,1 euros |
| 0,5% | 87,0 euros |
| 1,5% | 65,9 euros |
| 2,5% | 50,1 euros | |
Conta ilustrativa: título sem cupom com vencimento em agosto de 2050, 28 anos restantes. |
A última linha esteve perto de acontecer. Em julho de 2022, o BCE subiu o juro pela primeira vez em 11 anos para conter a inflação, e o rendimento do título alemão de 30 anos passou de 2% ao ano naquele mesmo ano. |
A 2% ao ano, o papel valeria 57,4 euros. Para quem pagou 103,5, a perda passaria de 44% do capital, num título vendido como o mais seguro da Europa. |
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Num título longo sem cupom, quanto menor o juro na compra, maior o tombo quando o juro volta a subir. | | | |
A mesma conta explica quem ganhou. Quem comprou papel alemão de 30 anos em 2014, com juro perto de 2,5% ao ano, viu o preço subir até 2019, quando o juro desceu abaixo de zero. |
Parte dos compradores de agosto de 2019 jogava esse jogo. Não pensava em segurar até 2050: apostava em juro ainda mais negativo e em revender o papel mais caro meses depois, a algum banco obrigado a comprar. | |
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