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Em 2019, a Alemanha cobrou juro de quem lhe emprestou

Quem pagou 103,5 euros pelo título alemão de 2050 recebe 100 euros no vencimento, sem um centavo de juro no caminho.

Título da dívida alemã sobre mesa de leilão em Frankfurt

Frankfurt, 2019: o título de 30 anos abaixo de zero

▼

2 bilhões de euros. Era o lote de títulos de 30 anos que a Alemanha pôs à venda na manhã de 21 de agosto de 2019, uma quarta-feira, com vencimento marcado para 15 de agosto de 2050.

O papel tinha cupom zero (nenhuma parcela de juro ao longo dos anos). O comprador entregava o dinheiro em 2019 e recebia de volta o valor de face no vencimento, e nada mais. Trinta e um anos sem um euro de renda no caminho.

O leilão fechou com rendimento médio de 0,11% ao ano, com sinal negativo. Na prática, os compradores pagaram perto de 103,5 euros por cada 100 euros que o governo alemão prometia devolver dali a 31 anos.

Foi a primeira vez que a Alemanha vendeu um título de 30 anos com juro abaixo de zero. Nos prazos curtos, o sinal negativo já era rotina: naquela semana, o papel alemão de 10 anos rendia perto de menos 0,7% ao ano.

A procura decepcionou. Para os 2 bilhões oferecidos, a Agência Financeira Alemã, o órgão que vende a dívida do governo federal, recebeu ofertas de 869 milhões de euros, menos da metade do lote, segundo o resultado divulgado pela própria agência.

Ainda assim, apareceram 824 milhões de euros dispostos a perder. Fundos de pensão, seguradoras e bancos assinaram um contrato com prejuízo nominal garantido, emprestando ao governo mais sólido da Europa e pagando ao devedor pelo privilégio de emprestar.

O caso alemão fazia parte de uma onda. Em agosto de 2019, o estoque mundial de títulos com rendimento negativo passou de US$ 17 trilhões, segundo o índice Global Aggregate da Bloomberg Barclays, quase todo concentrado na Europa e no Japão.

Juro negativo parece erro de digitação num boletim de mercado. O Princípio mostra por que, naquele agosto, ele fazia sentido para quem comprou.

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I  O Princípio

O preço de guardar dinheiro

 
 

A resposta de ontem

Por que Philipp Hildebrand deixou o banco central suíço?

Por causa de uma compra de dólares feita pela mulher dele. Em 15/8/2011, semanas antes do piso, Kashya Hildebrand comprou cerca de US$ 504 mil vendendo francos. Um funcionário do banco Sarasin vazou os extratos, e Hildebrand renunciou em 9/1/2012, embora as auditorias não tenham apontado violação de regra.

O título vendido naquela quarta era o Bund 2050 (Bund é o nome do título de longo prazo do governo federal alemão). A dívida alemã servia de referência de segurança da zona do euro: o país fechava o orçamento no azul desde 2014.

O juro negativo nasceu no banco central. Em 2014, o Banco Central Europeu (BCE) passou a cobrar 0,10% ao ano sobre o dinheiro que os bancos deixavam depositado nele. Em 2019, a cobrança já estava em 0,40% ao ano.

Um banco com caixa sobrando tinha duas saídas. Podia pagar 0,40% ao ano ao BCE pelo depósito, ou comprar um título que custasse menos. O Bund 2050, a menos 0,11%, saía mais barato que o depósito.

Havia um segundo motor. Desde março de 2015, o BCE comprou títulos de governo em grande escala, e o programa somou 2,6 trilhões de euros em ativos até o fim de 2018, segundo o próprio banco.

Esse comprador gigante tinha uma promessa por trás, feita três anos antes do programa começar:

 

“Dentro do nosso mandato, o BCE está pronto para fazer o que for preciso para preservar o euro. E acreditem, vai ser suficiente.” Mario Draghi, presidente do BCE, discurso na Global Investment Conference, Londres, 26 de julho de 2012.

 

Draghi cumpriu a promessa com juro cada vez mais baixo. Quem comprava título longo apostava na queda contínua dos juros, e por cinco anos acertou: cada nova queda valorizava os papéis antigos.

A terceira razão estava na regra. Seguradoras e fundos de pensão europeus prometem pagar aposentadorias e apólices por décadas, e as normas de solvência os empurram a carregar ativos com prazo parecido com essas dívidas.

Para casar um compromisso com vencimento em 2050, o papel alemão de 2050 era o encaixe mais limpo disponível. O preço alto entrava como custo da proteção.

E havia o medo de deflação (queda geral e persistente de preços). A inflação da zona do euro estava em 1,0% ao ano em agosto de 2019, segundo o Eurostat, bem abaixo da meta de quase 2% do BCE.

Com preços caindo, até um rendimento negativo devolve poder de compra positivo. Se os preços recuam 1% ao ano, perder 0,11% ainda deixa o investidor com mais bens no fim do prazo.

 

Juro negativo é o preço que o investidor grande aceita pagar por um lugar seguro onde guardar bilhões.

 

Faltava explicar o cofre. Uma pessoa física guarda cédulas em casa de graça, mas um fundo com bilhões precisa de cofre, seguro e transporte, e esse custo passa dos 0,11% ao ano.

 
 
 
 

II  A Matemática

103,5 euros por 100

 
 

Num título sem cupom, o juro inteiro mora no preço. Quem compra paga um valor hoje e recebe 100 no vencimento; o rendimento é a distância anual entre os dois números.

Com rendimento de 0,11% negativo por 31 anos, o preço sai de uma potência simples: 100 dividido por 0,9989 elevado a 31. O resultado fica perto de 103,5 euros.

Para um lote de 10 mil euros de valor de face, o comprador desembolsava 10.350 euros em 2019 e recebe 10 mil em 2050. A perda nominal travada no contrato é de 350 euros, perto de 3,4% do valor pago.

Esse é o cenário bom, o de segurar até o fim. O risco grande aparece para quem precisa vender antes, porque um papel sem cupom com 31 anos de prazo reage com força a qualquer mudança no juro.

A medida dessa força é a duration (prazo médio em que o investidor recebe o dinheiro, que indica quanto o preço oscila a cada ponto de juro). Num papel sem cupom, a duration é o próprio prazo: 31 anos.

Na prática, cada ponto percentual de alta no juro tira do papel perto de um quarto do preço. A tabela mostra o mesmo título três anos depois do leilão, com 28 anos pela frente:

 
Juro anual em 2022Preço por 100 de face
Menos 0,11%103,1 euros
0,5%87,0 euros
1,5%65,9 euros
2,5%50,1 euros

Conta ilustrativa: título sem cupom com vencimento em agosto de 2050, 28 anos restantes.

A última linha esteve perto de acontecer. Em julho de 2022, o BCE subiu o juro pela primeira vez em 11 anos para conter a inflação, e o rendimento do título alemão de 30 anos passou de 2% ao ano naquele mesmo ano.

A 2% ao ano, o papel valeria 57,4 euros. Para quem pagou 103,5, a perda passaria de 44% do capital, num título vendido como o mais seguro da Europa.

 

Num título longo sem cupom, quanto menor o juro na compra, maior o tombo quando o juro volta a subir.

 

A mesma conta explica quem ganhou. Quem comprou papel alemão de 30 anos em 2014, com juro perto de 2,5% ao ano, viu o preço subir até 2019, quando o juro desceu abaixo de zero.

Parte dos compradores de agosto de 2019 jogava esse jogo. Não pensava em segurar até 2050: apostava em juro ainda mais negativo e em revender o papel mais caro meses depois, a algum banco obrigado a comprar.

 

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III  A Aplicação

O risco do papel mais seguro

 
 

Título de governo forte tira do investidor o risco de calote (a chance de o devedor não pagar). O risco de juro continua inteiro, e o Bund 2050 mostrou quanto ele pesa quando o prazo é longo e o cupom é zero.

O investidor brasileiro encontra a versão local no Tesouro Direto. O Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA+ de vencimento longo sobem e descem de preço todo dia útil, conforme o juro de mercado.

Em 2021 e 2022, com a alta da Selic, os papéis longos do Tesouro IPCA+ passaram meses com o preço abaixo do valor de compra para muita gente, sem nenhum risco de o Tesouro deixar de pagar.

Quem vendeu nesse período realizou o prejuízo. Quem segurou recebe o juro contratado no vencimento, como manda o título.

 

Proteção contra calote e proteção contra perda são promessas diferentes, e o título do governo só garante a primeira.

 

Quatro cuidados para quem carrega título longo:

1

Case o prazo do título com a data em que vai precisar do dinheiro. Quem segura até o vencimento recebe o combinado; quem vende antes recebe o preço do dia.

2

Olhe o juro real na compra (o rendimento descontada a inflação). Abaixo de zero, o papel garante perda de poder de compra para quem segurar até o fim.

3

Calcule o tombo antes de comprar: num papel sem cupom, multiplique o prazo restante por 1 ponto de juro. Num título de 20 anos, a alta de 1 ponto tira perto de 20% do preço.

4

Divida a parcela longa em vencimentos diferentes, para não depender de um único preço no dia em que precisar vender.

 

O juro negativo acabou na zona do euro em 2022. Em julho, o BCE levou o depósito dos bancos de menos 0,50% para zero; em setembro, para 0,75% positivo.

O Bund 2050 segue no mercado e vence em 15 de agosto de 2050. Quem o carregar até lá recebe exatamente os 100 euros prometidos por cada 103,5 pagos, como diz o contrato assinado naquela quarta-feira.

824 milhões de euros. Foi o total de ofertas para os 2 bilhões que a Agência Financeira Alemã pôs à venda em 21/8/2019, segundo o resultado divulgado pela agência.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem ficou com os títulos de 2050 que os investidores deixaram sem comprador naquele leilão?

 
 
Quiz da edição

No leilão de 21 de agosto de 2019, a Alemanha ofereceu 2 bilhões de euros em títulos de 30 anos. Quanto a Agência Financeira Alemã recebeu em ofertas?

A1,5 bilhão de euros
B103,5 milhões de euros
C869 milhões de euros
D2,4 bilhões de euros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
 
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