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Em 1964, o título do Tesouro venceu a inflação

A 12% ao ano e inflação de 80%, o prefixado perdia 37,8% real; a ORTN somou a correção ao valor do título.

Título do Tesouro de 1964 com correção pela inflação

Brasil, 1964: a Lei 4.357 cria a ORTN

▼

79,9%. Foi a inflação brasileira de 1963, segundo o IGP-DI da Fundação Getulio Vargas, e o ano seguinte fechou mais alto, em 92,1%.

Para o Tesouro Nacional, a conta não fechava. O governo gastava mais do que arrecadava e cobria o buraco emitindo moeda, o caminho mais curto para alimentar a própria inflação.

O outro caminho seria pedir dinheiro emprestado ao público. Um título público é um empréstimo com papel passado: o investidor entrega o dinheiro hoje, e o Tesouro promete devolver com juros numa data marcada.

Só que ninguém queria emprestar. Um decreto de 1933, conhecido como Lei de Usura, proibia cobrar mais de 12% ao ano em qualquer contrato, e o Tesouro também obedecia a esse limite.

Imagine um comerciante de Belo Horizonte com dinheiro sobrando no caixa no começo de 1964. Se emprestasse ao governo a 12% e os preços subissem 80%, receberia no vencimento uma quantia capaz de comprar bem menos mercadoria do que comprava no dia do empréstimo.

Ele preferia estocar mercadoria, comprar terreno ou trocar cruzeiros por dólares no mercado paralelo. Qualquer destino servia, desde que o valor não derretesse na gaveta. O título do governo ficava por último na lista, atrás até do colchão.

O mercado de títulos públicos encolheu até quase sumir. Sem comprador, o governo voltava à Casa da Moeda, e a inflação ganhava mais um empurrão. O círculo se fechava sobre si mesmo, mês após mês.

Em abril, o marechal Humberto de Alencar Castello Branco assumiu a Presidência. Os dois economistas da equipe, Octávio Gouvêia de Bulhões na Fazenda e Roberto Campos no Planejamento, precisavam de um papel capaz de trazer o comerciante de volta.

A saída deixou a taxa de juros quieta e mexeu no valor da própria dívida, sem desrespeitar o teto de 1933.

A seção I mostra como a lei assinada naquele inverno montou essa engenharia, peça por peça.

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NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

“If I were a farmer, I would absolutely use AI.” 

That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA. 

He’s pointing to one of AI’s biggest untapped opportunities: farming. 

DIT AgTech is already putting AI to work with 500+ units deployed and 370,000 head on-platform.

𝘐𝘯 𝘮𝘢𝘬𝘪𝘯𝘨 𝘢𝘯 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘮𝘦𝘯𝘵 𝘥𝘦𝘤𝘪𝘴𝘪𝘰𝘯, 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘰𝘳𝘴 𝘮𝘶𝘴𝘵 𝘳𝘦𝘭𝘺 𝘰𝘯 𝘵𝘩𝘦𝘪𝘳 𝘰𝘸𝘯 𝘦𝘹𝘢𝘮𝘪𝘯𝘢𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘪𝘴𝘴𝘶𝘦𝘳 𝘢𝘯𝘥 𝘵𝘩𝘦 𝘵𝘦𝘳𝘮𝘴 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘪𝘯𝘤𝘭𝘶𝘥𝘪𝘯𝘨 𝘵𝘩𝘦 𝘮𝘦𝘳𝘪𝘵𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘳𝘪𝘴𝘬𝘴 𝘪𝘯𝘷𝘰𝘭𝘷𝘦𝘥. 𝘋𝘐𝘛 𝘈𝘨𝘛𝘦𝘤𝘩 𝘩𝘢𝘴 𝘧𝘪𝘭𝘦𝘥 𝘢 𝘍𝘰𝘳𝘮 𝘊 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘵𝘩𝘦 𝘚𝘦𝘤𝘶𝘳𝘪𝘵𝘪𝘦𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘌𝘹𝘤𝘩𝘢𝘯𝘨𝘦 𝘊𝘰𝘮𝘮𝘪𝘴𝘴𝘪𝘰𝘯 𝘪𝘯 𝘤𝘰𝘯𝘯𝘦𝘤𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘪𝘵𝘴 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘢 𝘤𝘰𝘱𝘺 𝘰𝘧 𝘸𝘩𝘪𝘤𝘩 𝘮𝘢𝘺 𝘣𝘦 𝘰𝘣𝘵𝘢𝘪𝘯𝘦𝘥 𝘩𝘦𝘳𝘦: https://bit.ly/4bzuWCi​

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I  O Princípio

Um papel com valor reajustável

 
 

A resposta de ontem

O que a comissão de 1986 exigiu dos presidentes dos bancos?

Que deixassem os cargos. A Comissão Beisky, presidida pelo juiz Moshe Beisky, publicou o relatório em abril de 1986 e recomendou afastar os dirigentes dos grandes bancos e o presidente do Banco de Israel, Moshe Mandelbaum. Ernst Japhet, do Banco Leumi, renunciou naquele ano, e Mandelbaum deixou o Banco de Israel.

A Lei 4.357, assinada por Castello Branco em 16 de julho de 1964, criou a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), o primeiro título público brasileiro com valor corrigido pela inflação.

A ideia cabia numa frase. O valor de face do título, a quantia devida pelo Tesouro, subia junto com os preços, e os juros eram calculados sobre esse valor já corrigido.

O mecanismo ganhou um rótulo jurídico, correção monetária (atualização do valor do dinheiro pela perda de poder de compra). Ela entrava na conta como reposição de valor, separada dos juros.

O detalhe resolvia o impasse da Lei de Usura. Os juros da ORTN continuavam modestos, dentro do teto de 12% ao ano. A parcela da inflação não contava como juro: contava como devolução do que o dinheiro tinha perdido no caminho.

Para o comerciante de Belo Horizonte, a proposta mudava de figura. Ele emprestava 100, a inflação levava os preços a 180, e o título valia 180 antes mesmo de somar os juros.

 

Um título indexado devolve o poder de compra emprestado; o prefixado devolve só a quantia escrita no papel.

 

O reajuste seguia a variação dos preços, apurada pelo governo. O valor atualizado da ORTN saía em ato oficial a cada período, e o mercado acompanhava cada novo valor como um termômetro público da inflação.

A engenharia se espalhou para fora do Tesouro. Aluguéis, prestações da casa própria pelo Banco Nacional da Habitação e o saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), criado em 1966, ganharam correção monetária atrelada ao valor da ORTN.

O Brasil virou o laboratório mundial da indexação. Contratos de todo tipo adotaram a ORTN como medida de valor, e o cruzeiro ficou para o troco do dia a dia.

A escolha também cobrou um preço. Com quase tudo reajustado pela inflação passada, a alta de cada ano se transmitia aos preços do ano seguinte, a chamada inércia inflacionária (preço que sobe porque já subiu antes).

Os economistas brasileiros dos anos 1980 dedicaram estudos inteiros ao problema, e os planos de estabilização da década tentaram desligar a indexação de uma vez.

A ORTN durou até 1986, quando o Plano Cruzado a trocou pela OTN (Obrigação do Tesouro Nacional). Vieram depois outros nomes e outros índices, e a lógica de 1964 sobreviveu a cada troca de moeda, até chegar ao real.

 
 
 
 

II  A Matemática

A conta de 12% contra 80%

 
 

Uma conta ilustrativa mostra a dimensão do problema de 1964. Pegue R$ 10.000 em valores de hoje, emprestados ao Tesouro por 12 meses, com inflação de 80% no período.

No título prefixado a 12%, o investidor recebe R$ 11.200 no vencimento. Para comprar o que R$ 10.000 compravam no início, ele precisaria de R$ 18.000.

O ganho real se mede dividindo um valor pelo outro. R$ 11.200 divididos por R$ 18.000 dão 0,622. O investidor saiu com 62,2% do poder de compra emprestado, uma perda real de 37,8%.

Agora o mesmo empréstimo em título reajustável, com juro de 6% ao ano sobre o valor corrigido. O valor de face sobe de R$ 10.000 para R$ 18.000, e os juros de 6% somam R$ 1.080. O resgate chega a R$ 19.080.

Dividindo R$ 19.080 por R$ 18.000, sobra 1,06. O investidor recupera todo o poder de compra e ainda leva 6% reais.

 
Inflação no anoPrefixado a 12%Reajustável + 6%
10%+1,8% real+6% real
30%-13,8% real+6% real
80%-37,8% real+6% real

Conta ilustrativa: ganho real em 12 meses.

A coluna do reajustável fica parada. O ganho real trava em 6%, seja qual for a inflação, e a incerteza sai do bolso do investidor e vai para o caixa do Tesouro.

O prefixado guarda um risco escondido. Ele só funciona quando a inflação que acontece fica perto da inflação que o investidor esperava no dia da compra. Com preços subindo 80% num ano e 92% no seguinte, nenhuma previsão chegava perto.

O Tesouro IPCA+ de hoje faz a mesma conta. A taxa contratada vem escrita como IPCA mais um percentual, e o valor do título é corrigido pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o índice oficial de inflação apurado pelo IBGE.

Um exemplo com taxa ilustrativa de IPCA + 6% e inflação de 4,5% no ano: o título rende 1,045 vezes 1,06, ou 10,77% nominais. Se a inflação vier em 8%, o rendimento sobe para 14,48% nominais, e os 6% reais continuam lá.

 

No título indexado, o investidor escolhe o ganho real; a inflação só decide o valor da correção.

 

A garantia vale para quem leva o título até o vencimento. Antes da data, o preço de venda oscila com os juros do mercado, e a seção III mostra como lidar com esse vaivém.

 

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III  A Aplicação

Onde o herdeiro entra na carteira

 
 

O herdeiro direto da ORTN se chama Tesouro IPCA+, a versão vendida no Tesouro Direto da NTN-B Principal (Nota do Tesouro Nacional série B, sem pagamento de juros semestrais). O Tesouro Direto, programa de venda de títulos públicos pela internet, abriu as portas ao pequeno investidor em 2002.

O comerciante de 1964 precisava de um intermediário e de muito dinheiro para comprar ORTN. Hoje o título se compra com poucas dezenas de reais, pelo aplicativo de qualquer corretora habilitada.

A engenharia continua igual, e o risco de prazo também. Quando os juros reais do mercado sobem, os títulos antigos com taxa menor perdem valor na venda antecipada; quando caem, ganham. O mercado chama o efeito de marcação a mercado (atualização diária do preço pelo juro do dia).

O Tesouro IPCA+ serve, portanto, a uma meta com data. Aposentadoria, faculdade dos filhos, compra de um imóvel daqui a dez ou vinte anos: o vencimento do título precisa casar com a data em que o dinheiro será usado.

Quatro passos ajudam a usar o título com o desenho de 1964 em mente:

1

1. Defina a meta e a data em que o dinheiro sai da carteira.

2

2. Escolha o vencimento mais próximo dessa data, sem folga grande para antes nem para depois.

3

3. Compare a taxa real oferecida com o histórico de taxas publicado pelo próprio Tesouro Direto.

4

4. Guarde a reserva de emergência em título pós-fixado, como o Tesouro Selic, porque a venda antecipada do IPCA+ pode sair com perda.

 
 

O Tesouro IPCA+ protege o poder de compra no vencimento e cobra paciência no meio do caminho.

 

O imposto de renda segue a tabela regressiva da renda fixa: 22,5% sobre o ganho em até seis meses, caindo até 15% acima de dois anos. A cobrança incide sobre o ganho total, inclusive a parte que veio da correção pelo IPCA.

Na divisão da carteira, o título indexado ocupa a fatia de renda fixa de longo prazo, ao lado do prefixado e do pós-fixado. Cada um responde a um cenário: o prefixado ganha quando a inflação cai, o pós-fixado acompanha a Selic, e o indexado segura o poder de compra.

Bulhões e Campos resolveram o problema de 1964 com um papel. O investidor de hoje herda a solução inteira, com o mesmo risco de prazo e a mesma proteção no vencimento.

12% ao ano. Foi o teto de juros que a ORTN contornou sem desrespeitar, fixado pelo Decreto 22.626, a Lei de Usura de 1933.

 
 
Quiz da edição

Em 1964, que teto de juros um decreto de 1933 (a Lei de Usura) impunha a qualquer contrato, inclusive aos títulos do Tesouro?

A6% ao ano
B12% ao ano
C37,8% ao ano
D80% ao ano

Resultado da última edição: 50% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
 
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