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I O Princípio
Um papel com valor reajustável
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A resposta de ontem O que a comissão de 1986 exigiu dos presidentes dos bancos? Que deixassem os cargos. A Comissão Beisky, presidida pelo juiz Moshe Beisky, publicou o relatório em abril de 1986 e recomendou afastar os dirigentes dos grandes bancos e o presidente do Banco de Israel, Moshe Mandelbaum. Ernst Japhet, do Banco Leumi, renunciou naquele ano, e Mandelbaum deixou o Banco de Israel. |
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A Lei 4.357, assinada por Castello Branco em 16 de julho de 1964, criou a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), o primeiro título público brasileiro com valor corrigido pela inflação. |
A ideia cabia numa frase. O valor de face do título, a quantia devida pelo Tesouro, subia junto com os preços, e os juros eram calculados sobre esse valor já corrigido. |
O mecanismo ganhou um rótulo jurídico, correção monetária (atualização do valor do dinheiro pela perda de poder de compra). Ela entrava na conta como reposição de valor, separada dos juros. |
O detalhe resolvia o impasse da Lei de Usura. Os juros da ORTN continuavam modestos, dentro do teto de 12% ao ano. A parcela da inflação não contava como juro: contava como devolução do que o dinheiro tinha perdido no caminho. |
Para o comerciante de Belo Horizonte, a proposta mudava de figura. Ele emprestava 100, a inflação levava os preços a 180, e o título valia 180 antes mesmo de somar os juros. |
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Um título indexado devolve o poder de compra emprestado; o prefixado devolve só a quantia escrita no papel. | | | |
O reajuste seguia a variação dos preços, apurada pelo governo. O valor atualizado da ORTN saía em ato oficial a cada período, e o mercado acompanhava cada novo valor como um termômetro público da inflação. |
A engenharia se espalhou para fora do Tesouro. Aluguéis, prestações da casa própria pelo Banco Nacional da Habitação e o saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), criado em 1966, ganharam correção monetária atrelada ao valor da ORTN. |
O Brasil virou o laboratório mundial da indexação. Contratos de todo tipo adotaram a ORTN como medida de valor, e o cruzeiro ficou para o troco do dia a dia. |
A escolha também cobrou um preço. Com quase tudo reajustado pela inflação passada, a alta de cada ano se transmitia aos preços do ano seguinte, a chamada inércia inflacionária (preço que sobe porque já subiu antes). |
Os economistas brasileiros dos anos 1980 dedicaram estudos inteiros ao problema, e os planos de estabilização da década tentaram desligar a indexação de uma vez. |
A ORTN durou até 1986, quando o Plano Cruzado a trocou pela OTN (Obrigação do Tesouro Nacional). Vieram depois outros nomes e outros índices, e a lógica de 1964 sobreviveu a cada troca de moeda, até chegar ao real. |
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II A Matemática
A conta de 12% contra 80%
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Uma conta ilustrativa mostra a dimensão do problema de 1964. Pegue R$ 10.000 em valores de hoje, emprestados ao Tesouro por 12 meses, com inflação de 80% no período. |
No título prefixado a 12%, o investidor recebe R$ 11.200 no vencimento. Para comprar o que R$ 10.000 compravam no início, ele precisaria de R$ 18.000. |
O ganho real se mede dividindo um valor pelo outro. R$ 11.200 divididos por R$ 18.000 dão 0,622. O investidor saiu com 62,2% do poder de compra emprestado, uma perda real de 37,8%. |
Agora o mesmo empréstimo em título reajustável, com juro de 6% ao ano sobre o valor corrigido. O valor de face sobe de R$ 10.000 para R$ 18.000, e os juros de 6% somam R$ 1.080. O resgate chega a R$ 19.080. |
Dividindo R$ 19.080 por R$ 18.000, sobra 1,06. O investidor recupera todo o poder de compra e ainda leva 6% reais. |
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| Inflação no ano | Prefixado a 12% | Reajustável + 6% |
| 10% | +1,8% real | +6% real |
| 30% | -13,8% real | +6% real |
| 80% | -37,8% real | +6% real | |
Conta ilustrativa: ganho real em 12 meses. |
A coluna do reajustável fica parada. O ganho real trava em 6%, seja qual for a inflação, e a incerteza sai do bolso do investidor e vai para o caixa do Tesouro. |
O prefixado guarda um risco escondido. Ele só funciona quando a inflação que acontece fica perto da inflação que o investidor esperava no dia da compra. Com preços subindo 80% num ano e 92% no seguinte, nenhuma previsão chegava perto. |
O Tesouro IPCA+ de hoje faz a mesma conta. A taxa contratada vem escrita como IPCA mais um percentual, e o valor do título é corrigido pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o índice oficial de inflação apurado pelo IBGE. |
Um exemplo com taxa ilustrativa de IPCA + 6% e inflação de 4,5% no ano: o título rende 1,045 vezes 1,06, ou 10,77% nominais. Se a inflação vier em 8%, o rendimento sobe para 14,48% nominais, e os 6% reais continuam lá. |
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No título indexado, o investidor escolhe o ganho real; a inflação só decide o valor da correção. | | | |
A garantia vale para quem leva o título até o vencimento. Antes da data, o preço de venda oscila com os juros do mercado, e a seção III mostra como lidar com esse vaivém. | |
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