50 mil dólares. Foi quanto o comerciante John McLean, de Boston, deixou num fundo fiduciário ao morrer, em 1823, para render à viúva enquanto ela vivesse. Um fundo fiduciário (dinheiro entregue a um administrador para cuidar dele em nome de outra pessoa) era a forma comum de proteger herança na Nova Inglaterra. McLean escolheu dois administradores, Jonathan Amory e Francis Amory, e deixou as instruções no testamento. A renda iria para a viúva, Ann McLean. Quando ela partisse, o capital seria dividido em duas metades: uma para o Harvard College, outra para o Massachusetts General Hospital, o hospital geral de Boston. O testamento autorizava aplicar o dinheiro em “ações seguras e produtivas”, citando títulos públicos, ações de banco ou outras ações. A frase deixava aos dois Amory espaço para escolher. Eles escolheram a indústria. Boston vivia a febre das tecelagens de algodão movidas a água, e os administradores compraram ações de companhias têxteis e de seguradoras, papéis que pagavam dividendos acima dos juros do governo. As tecelagens de Waltham e de Lowell, cidades vizinhas de Boston, eram a tecnologia nova da época, e quem tinha capital disputava as ações delas como hoje se disputa papel de empresa de chip. Por alguns anos, a renda da viúva engordou. Depois, as ações de algumas dessas empresas caíram, e o capital reservado às duas instituições encolheu. Harvard e o hospital fizeram a conta e foram ao tribunal. A tese era simples: quem cuida de dinheiro alheio não pode arriscar, e os administradores deviam repor do próprio bolso o que a carteira perdeu. O processo subiu até a Suprema Corte Judicial de Massachusetts, o tribunal mais alto do estado. Diante dos juízes estava uma dúvida válida para qualquer herança, fundação ou poupança gerida por terceiros: até onde vai a liberdade de quem investe o dinheiro dos outros. A seção I mostra a resposta dada em 1830 e a frase do juiz que orientou os tribunais americanos por mais de 150 anos. Continue lendo ↓ |