US$ 30 bilhões. Era, em valores aproximados, o saldo somado das contas de aposentadoria privada da Argentina numa terça-feira de 2008, quando a presidente Cristina Fernández de Kirchner anunciou em rede nacional o plano de levar o dinheiro para o Estado. O dinheiro estava guardado em dez AFJP (Administradoras de Fundos de Aposentadorias e Pensões, empresas privadas que geriam a poupança previdenciária de cada trabalhador). Cerca de 9,5 milhões de argentinos tinham conta numa delas. Cada conta trazia um nome, um número de documento e um saldo. O trabalhador recebia extrato, via a cota subir ou cair e sabia quanto tinha acumulado. A poupança parecia dele, com endereço próprio. O anúncio chegou no pior mês da crise financeira mundial. O banco americano Lehman Brothers tinha quebrado semanas antes, as Bolsas despencavam, e as carteiras das AFJP, carregadas de títulos e ações, mostravam perdas no extrato. O governo usou as perdas como argumento. A previdência privada, segundo a Casa Rosada, expunha a velhice dos argentinos ao humor do mercado, e o Estado prometia proteger o trabalhador desse risco. Críticos leram o movimento por outro ângulo. O Tesouro argentino enfrentava vencimentos pesados de dívida, tinha pouco acesso a crédito externo, e a poupança das AFJP era o maior bolo de dinheiro disponível no país. O projeto correu rápido. A Câmara aprovou, o Senado aprovou, e em dezembro de 2008 a Lei 26.425 entrou em vigor. As AFJP deixaram de existir como gestoras de aposentadoria. Os trabalhadores não perderam o direito a um benefício. Perderam a conta. O saldo individual, com nome e extrato, foi somado num fundo público, e a aposentadoria de cada um passou a depender da fórmula de cálculo do regime estatal. Quem tinha poupado mais que a média não levou a diferença consigo. Quem pretendia deixar o saldo como herança descobriu que não havia mais saldo para deixar. A seção I mostra o que a lei escreveu, artigo por artigo, e por que a fatia de um investidor depende do veículo que a guarda. Continue lendo ↓ |