€ 100 mil. Era o valor que a garantia de depósitos de Chipre protegia por pessoa e por banco no sábado, 16 de março de 2013, quando os cipriotas acordaram com os caixas eletrônicos limitados e as agências fechadas. Na madrugada anterior, em Bruxelas, os ministros de Finanças da zona do euro tinham fechado um acordo com o governo do presidente Nicos Anastasiades. Chipre receberia um resgate de € 10 bilhões, desde que levantasse parte do dinheiro dentro de casa. O primeiro desenho mandava cobrar uma taxa sobre todas as contas da ilha. Seriam 6,75% de quem tinha até € 100 mil e 9,9% de quem passava do teto. O pequeno poupador, protegido por lei, pagaria a conta junto com o grande. A reação veio em horas. Filas se formaram diante dos caixas, aposentados davam entrevista na porta das agências, e o resto da Europa passou a se perguntar se a garantia de depósito do próprio país valia o papel em que estava escrita. Na terça-feira, 19 de março, o Parlamento cipriota votou a taxa. Foram 36 votos contra, nenhum a favor e 19 abstenções. O plano caiu, e os bancos continuaram fechados. A ilha tinha chegado ali por um caminho conhecido. Os dois maiores bancos, o Bank of Cyprus e o Laiki (também chamado Cyprus Popular Bank), tinham crescido com depósitos estrangeiros, boa parte deles russos, e aplicado bilhões em títulos da Grécia. Em 2012, a reestruturação da dívida grega cortou o valor desses títulos pela metade e mais um pouco. O buraco ficou no balanço dos dois bancos, e o governo cipriota não tinha caixa para tapar sozinho. Durante doze dias, a economia inteira andou com dinheiro contado. Empresas pagavam salário em espécie, supermercados recusavam cartão, e os saques diários tinham limite fixado pelo Banco Central. No domingo, 24 de março, os negociadores voltaram à mesa em Bruxelas com uma regra nova. O pequeno depositante ficaria intacto. A conta cairia inteira sobre quem tinha mais de € 100 mil nos dois bancos doentes. A seção I mostra o que a regra fez com esse saldo e por que um depósito bancário sempre foi um empréstimo ao banco. Continue lendo ↓ |