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I O Princípio
A moeda que não podia sair
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A resposta de ontem Quanto pagaram por ação os sócios de 2014 do Bank of Cyprus? € 0,24 por ação. Em setembro de 2014, o Bank of Cyprus levantou € 1 bilhão num aumento de capital liderado pelo americano Wilbur Ross e com o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento. O depositante tinha recebido cada ação a € 1 na conversão de 2013, e o preço do novo sócio mostrou quanto daquele papel valia no mercado. |
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Nas semanas seguintes à trava, apareceu um mercado paralelo em Londres e em outras praças. Bancos estrangeiros passaram a negociar entre si as coroas que estavam presas na ilha, chamadas de coroas offshore (fora da costa, ou seja, mantidas por quem estava fora do país). |
Essas coroas tinham o mesmo nome, o mesmo emissor e a mesma cédula. Mudava só o direito de quem as segurava. O dono da coroa de dentro podia trocá-la por euro no banco da esquina. O dono da coroa de fora só podia vendê-la a outro estrangeiro, preso na mesma regra. |
O preço se ajustou a esse direito. No fim de 2008 e ao longo de 2009, o euro chegou a custar no mercado offshore entre 250 e 300 coroas, contra uma cotação oficial perto de 170, segundo relatórios de estabilidade financeira do Banco Central da Islândia publicados em 2009. |
Na prática, quem tinha 1 milhão de coroas presas e quisesse sair na hora recebia algo como 3.500 euros. O vizinho de Reykjavík, com o mesmo milhão, comprava perto de 5.900 euros no balcão do banco. |
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Um ativo vale o que o dono consegue fazer com ele, e a porta de saída faz parte do preço. | |
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O nome técnico para esse componente do preço é prêmio de conversibilidade (o valor de poder trocar a moeda por outra quando quiser). Em tempo normal, ninguém o enxerga, porque ele está embutido em toda cotação. Ele só aparece quando alguém o tira. |
O investidor estrangeiro tinha comprado título islandês pelo juro. No papel, continuava recebendo juro. O título não deu calote, o governo pagou em dia. O que sumiu foi a liberdade de converter o dinheiro e ir embora, e o mercado cobrou esse sumiço no preço. |
Muitas dessas coroas tinham entrado pelos glacier bonds (títulos geleira), papéis em coroa emitidos fora da Islândia por bancos e governos estrangeiros a partir de 2005, vendidos a pequenos poupadores da Europa e do Japão atraídos pelo juro. |
O comprador final de um glacier bond nunca tinha posto os pés em Reykjavík. Ele comprou uma promessa de juro alto e levou junto, sem saber, uma promessa sobre o câmbio de um país de 320 mil pessoas. |
Para a alocação de ativos, a lição muda a lista de perguntas. Antes de saber quanto um ativo rende, vale saber em qual moeda ele está, em qual país ele mora e quem pode decidir, numa noite, que o dinheiro fica onde está. |
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II A Matemática
A conta do leilão de saída
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A partir de 2011, o Banco Central da Islândia passou a fazer leilões para quem queria sair. O estrangeiro oferecia suas coroas offshore, e o Banco Central pagava em euro, a um preço abaixo do câmbio oficial. Cada leilão abria uma fresta na porta. |
O leilão de 16 de junho de 2016 dá a conta mais limpa. O Banco Central da Islândia fixou o preço em 190 coroas por euro. No mesmo dia, a cotação oficial dentro do país estava perto de 139 coroas por euro. |
Uma conta ilustrativa com esses dois números mostra o tamanho do pedágio. Suponha um fundo estrangeiro com 100 milhões de coroas presas desde 2008. |
Pelo câmbio de dentro, 100 milhões de coroas valiam cerca de 719 mil euros. Pelo leilão, o mesmo fundo recebia cerca de 526 mil euros. A saída custou perto de 193 mil euros, quase 27% do valor do dinheiro. |
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| Caminho | Coroas por euro | Euros recebidos |
| Câmbio de dentro | 139 | 719 mil |
| Leilão de saída | 190 | 526 mil |
| Custo da saída | 51 | 193 mil | |
Conta ilustrativa: saldo suposto de 100 milhões de coroas. |
O juro recebido nesses oito anos compensou parte da perda. Mas o investidor do carry trade tinha montado a operação para ganhar alguns pontos ao ano de juro, e o desconto do leilão comeu, numa tacada, o equivalente a vários anos desse ganho. |
A conta muda de acordo com quanto tempo o dinheiro fica preso. Quem tinha pressa vendeu no mercado offshore de 2009, com desconto perto de 40%. Quem esperou até o leilão de 2016 pagou quase 27%. Quem aguentou até o acordo final pagou menos ainda. |
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O desconto da saída é o preço da liquidez, e só aparece na hora em que o investidor mais precisa dela. | |
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Em 12 de março de 2017, o Banco Central anunciou o acordo com os últimos grandes fundos estrangeiros: comprou as coroas deles a 137,5 por euro. Dois dias depois, em 14 de março, caíram as travas para famílias, empresas e fundos de pensão islandeses. |
A matemática da saída cabe numa divisão. O preço de dentro, dividido pelo preço de fora, menos 1, dá o desconto. Em junho de 2016, 139 dividido por 190 dá 0,73. O desconto ficou em 27%. |
Esse número não aparecia em nenhuma tabela de rentabilidade do título islandês. A planilha mostrava o juro pago em dia. O custo morava na porta. |