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I O Princípio
Não escolher também aloca
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Todo plano de investimento precisa responder uma pergunta antes de qualquer outra: o que acontece com o dinheiro de quem não responde nada. Alguma resposta sempre existe. Pode ser a conta parada em caixa, a poupança, um fundo conservador ou uma carteira em bolsa. |
Cada uma dessas respostas é uma alocação de ativos. A conta em caixa é 100% renda fixa de curtíssimo prazo. A poupança é 100% num único título com rendimento tabelado. Nenhuma delas é ausência de decisão: alguém decidiu por quem ficou parado. |
Os economistas Richard Thaler e Cass Sunstein deram nome ao fenômeno: arquitetura de escolha (o desenho do cardápio e da opção que vale quando ninguém marca nada). |
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“Não existe design neutro.” Richard Thaler e Cass Sunstein, Nudge, 2008. | | | |
Na Suécia, o peso do padrão apareceu rápido. Henrik Cronqvist e Richard Thaler estudaram as escolhas do sistema no artigo “Design Choices in Privatized Social-Security Systems”, publicado na American Economic Review em 2004. Em 2000, com a campanha no auge, 67% dos participantes escolheram os próprios fundos. |
Três anos depois, a campanha tinha acabado. Entre os trabalhadores que entraram no sistema em 2003, segundo o mesmo estudo de Cronqvist e Thaler, só 8% fizeram escolha ativa. Os outros 92% caíram no padrão sem mexer em nada. |
Com o tempo, o fundo padrão virou a carteira da maioria dos jovens suecos. A escolha do governo deixou de ser opção de reserva e passou a ser a regra prática do sistema. |
Por que um governo colocaria essa maioria em 100% de ações? A resposta está no tamanho da fatia. Os 2,5% do salário são a parte menor da pensão pública. A pensão de renda, alimentada pelos 16%, não depende da bolsa e paga uma renda vitalícia corrigida pelos salários do país. |
Com a base da aposentadoria presa a uma regra de renda, a pensão-prêmio pode correr o risco da bolsa sem ameaçar o sustento do aposentado. O padrão agressivo fica em cima de um piso que não oscila com as ações. |
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Quem desenha o padrão escolhe a carteira de quem nunca abriu o extrato. | | | |
O segundo motivo é o prazo. Um trabalhador de 25 anos só vai começar a receber a pensão-prêmio quatro décadas depois. Em prazo tão longo, a queda de um ano pesa pouco no saldo final, e o prêmio das ações sobre os títulos se acumula ano após ano. |
O terceiro motivo é o custo. Uma gestora estatal com milhões de contas compra índices amplos em escala e não paga distribuidor nem campanha de venda. A taxa baixa sobra inteira no saldo do trabalhador, todo ano, por décadas. |
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II A Matemática
Trinta anos sem renda fixa
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A regra do AP7 Såfa tem dois números: 55 e 75. Até o primeiro, a conta fica toda em ações. Entre um e outro, a parte em ações cai ano a ano, até sobrar um terço aos 75 anos. |
Para medir o peso dessa regra, considere um exemplo hipotético, com números redondos e sem imposto. Um trabalhador de 25 anos aplica R$ 100 por mês, R$ 1.200 por ano, até os 55. São 30 anos de aportes, R$ 36 mil no total. |
Suponha que ações rendam 6% ao ano acima da inflação e que a renda fixa renda 2% ao ano acima da inflação. São hipóteses de conta, sem pretensão de previsão: o objetivo é ver a distância que o prazo cria. |
Com 100% em ações, como no padrão sueco, o saldo aos 55 anos chega perto de R$ 94,9 mil, em reais de hoje. Com metade em ações e metade em títulos, rendendo 4% ao ano, fica em R$ 67,3 mil. Com tudo em renda fixa, R$ 48,7 mil. |
| Carteira até os 55 | Saldo aos 55 |
| 100% ações | R$ 94,9 mil |
| 50% ações, 50% títulos | R$ 67,3 mil |
| 100% renda fixa | R$ 48,7 mil |
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Exemplo hipotético, R$ 100 por mês por 30 anos. |
O padrão agressivo entrega quase o dobro do saldo da carteira toda em títulos, com os mesmos R$ 36 mil aportados. O ganho vem dos juros compostos sobre os 4 pontos percentuais de prêmio anual das ações, repetidos por 30 anos. |
O preço é a oscilação. Uma carteira 100% em ações pode perder um terço do valor num ano ruim, e o padrão sueco aceita essa perda em nome de quem nunca disse se aguentaria vê-la no extrato. |
A conta da oscilação depende de quanto dinheiro já está aplicado. Aos 30 anos, a conta hipotética tem cerca de R$ 6,8 mil. Uma queda de 30% tira R$ 2 mil, e os 25 anos de aportes pela frente repõem o valor com folga. |
Aos 54 anos, o saldo hipotético passa de R$ 88 mil. A mesma queda de 30% tira R$ 26,5 mil, mais de 70% de tudo o que a pessoa aportou até ali, e sobra só um ano de aporte antes da troca começar. |
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Aos 25 anos, a perda cabe nos aportes futuros; aos 54, ela come o que já foi aportado. | | | |
Por essa conta, o AP7 Såfa começa a trocar ações por títulos a partir dos 56. O risco medido em reais cresce com o saldo, e o tempo para recuperar encolhe a cada aniversário. |
Ainda assim, a troca é lenta. A parte em ações desce de 100% para cerca de 33% ao longo de 20 anos, um corte médio de pouco mais de 3 pontos percentuais por ano. Numa troca em passos iguais, perto de dois terços da conta continuam em bolsa aos 65. |
Cronqvist e Thaler também compararam o padrão com as carteiras montadas pelos próprios suecos. No estudo de 2004, a carteira média de quem escolheu ativamente tinha mais ações suecas, mais fundos de tecnologia e taxa maior que o fundo padrão, e rendeu menos nos três primeiros anos. |
O padrão do governo, desenhado para quem não quis pensar no assunto, ganhou da média de quem pensou. O resultado vale para aquela amostra e aquele período, e os autores tratam o dado assim, sem transformá-lo em lei. | |
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