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O fundo padrão sueco fica 100% em ações até os 55

Quem não escolhe nada na previdência sueca cai no AP7 Såfa, e ele só começa a comprar renda fixa aos 56 anos.

Carta da agência sueca de pensões sobre a mesa de um jovem trabalhador

Estocolmo: o fundo de quem nunca escolheu

▼

2,5%. É a fatia do salário de cada trabalhador sueco que vai para uma conta individual de investimento, pela reforma da previdência aprovada pelo Parlamento da Suécia em 1998.

O resto da contribuição, 16% do salário, alimenta a pensão de renda, uma conta nocional (um registro contábil corrigido pelo crescimento dos salários do país, sem compra de ativo nenhum). Os 2,5% seguem outro caminho e viram cotas de fundo, aplicadas em bolsa e em títulos. Essa parte se chama premiepension (pensão-prêmio, a fatia da pensão pública investida em fundos).

No outono de 2000, o governo abriu o cardápio pela primeira vez. Eram 456 fundos, de gestoras suecas e estrangeiras, e cada trabalhador podia montar a própria carteira com até cinco deles. Houve campanha na televisão e nos jornais pedindo a cada um que escolhesse.

Para quem não marcasse nada, o governo criou um fundo padrão, o Premiesparfonden, entregue a uma gestora estatal nova, a Sjunde AP-fonden (Sétimo Fundo Nacional de Pensão), conhecida como AP7. Em 2010, o padrão ganhou o formato atual e o nome AP7 Såfa, sigla de Statens årskullsförvaltningsalternativ (alternativa estatal de gestão por ano de nascimento).

A regra do AP7 Såfa cabe numa linha. Até os 55 anos, a conta fica 100% em ações. A partir dos 56, uma parte passa ano a ano para renda fixa, até chegar a um terço em ações e dois terços em títulos aos 75.

O sueco de 25 anos que nunca abriu a carta da agência de pensões tem hoje uma carteira inteira em bolsa, espalhada pelo mundo, com 30 anos pela frente sem uma coroa sequer em renda fixa.

Quem desenhou o padrão tomou uma decisão de investimento por milhões de pessoas que nunca se pronunciaram. A seção I mostra por que nenhum padrão escapa de ser uma alocação, e o que sustenta a escolha sueca pelo lado mais arriscado.

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I  O Princípio

Não escolher também aloca

 
 

Todo plano de investimento precisa responder uma pergunta antes de qualquer outra: o que acontece com o dinheiro de quem não responde nada. Alguma resposta sempre existe. Pode ser a conta parada em caixa, a poupança, um fundo conservador ou uma carteira em bolsa.

Cada uma dessas respostas é uma alocação de ativos. A conta em caixa é 100% renda fixa de curtíssimo prazo. A poupança é 100% num único título com rendimento tabelado. Nenhuma delas é ausência de decisão: alguém decidiu por quem ficou parado.

Os economistas Richard Thaler e Cass Sunstein deram nome ao fenômeno: arquitetura de escolha (o desenho do cardápio e da opção que vale quando ninguém marca nada).

 

“Não existe design neutro.” Richard Thaler e Cass Sunstein, Nudge, 2008.

 

Na Suécia, o peso do padrão apareceu rápido. Henrik Cronqvist e Richard Thaler estudaram as escolhas do sistema no artigo “Design Choices in Privatized Social-Security Systems”, publicado na American Economic Review em 2004. Em 2000, com a campanha no auge, 67% dos participantes escolheram os próprios fundos.

Três anos depois, a campanha tinha acabado. Entre os trabalhadores que entraram no sistema em 2003, segundo o mesmo estudo de Cronqvist e Thaler, só 8% fizeram escolha ativa. Os outros 92% caíram no padrão sem mexer em nada.

Com o tempo, o fundo padrão virou a carteira da maioria dos jovens suecos. A escolha do governo deixou de ser opção de reserva e passou a ser a regra prática do sistema.

Por que um governo colocaria essa maioria em 100% de ações? A resposta está no tamanho da fatia. Os 2,5% do salário são a parte menor da pensão pública. A pensão de renda, alimentada pelos 16%, não depende da bolsa e paga uma renda vitalícia corrigida pelos salários do país.

Com a base da aposentadoria presa a uma regra de renda, a pensão-prêmio pode correr o risco da bolsa sem ameaçar o sustento do aposentado. O padrão agressivo fica em cima de um piso que não oscila com as ações.

 

Quem desenha o padrão escolhe a carteira de quem nunca abriu o extrato.

 

O segundo motivo é o prazo. Um trabalhador de 25 anos só vai começar a receber a pensão-prêmio quatro décadas depois. Em prazo tão longo, a queda de um ano pesa pouco no saldo final, e o prêmio das ações sobre os títulos se acumula ano após ano.

O terceiro motivo é o custo. Uma gestora estatal com milhões de contas compra índices amplos em escala e não paga distribuidor nem campanha de venda. A taxa baixa sobra inteira no saldo do trabalhador, todo ano, por décadas.

 
 
 
 

II  A Matemática

Trinta anos sem renda fixa

 
 

A regra do AP7 Såfa tem dois números: 55 e 75. Até o primeiro, a conta fica toda em ações. Entre um e outro, a parte em ações cai ano a ano, até sobrar um terço aos 75 anos.

Para medir o peso dessa regra, considere um exemplo hipotético, com números redondos e sem imposto. Um trabalhador de 25 anos aplica R$ 100 por mês, R$ 1.200 por ano, até os 55. São 30 anos de aportes, R$ 36 mil no total.

Suponha que ações rendam 6% ao ano acima da inflação e que a renda fixa renda 2% ao ano acima da inflação. São hipóteses de conta, sem pretensão de previsão: o objetivo é ver a distância que o prazo cria.

Com 100% em ações, como no padrão sueco, o saldo aos 55 anos chega perto de R$ 94,9 mil, em reais de hoje. Com metade em ações e metade em títulos, rendendo 4% ao ano, fica em R$ 67,3 mil. Com tudo em renda fixa, R$ 48,7 mil.

Carteira até os 55Saldo aos 55
100% açõesR$ 94,9 mil
50% ações, 50% títulosR$ 67,3 mil
100% renda fixaR$ 48,7 mil

Exemplo hipotético, R$ 100 por mês por 30 anos.

O padrão agressivo entrega quase o dobro do saldo da carteira toda em títulos, com os mesmos R$ 36 mil aportados. O ganho vem dos juros compostos sobre os 4 pontos percentuais de prêmio anual das ações, repetidos por 30 anos.

O preço é a oscilação. Uma carteira 100% em ações pode perder um terço do valor num ano ruim, e o padrão sueco aceita essa perda em nome de quem nunca disse se aguentaria vê-la no extrato.

A conta da oscilação depende de quanto dinheiro já está aplicado. Aos 30 anos, a conta hipotética tem cerca de R$ 6,8 mil. Uma queda de 30% tira R$ 2 mil, e os 25 anos de aportes pela frente repõem o valor com folga.

Aos 54 anos, o saldo hipotético passa de R$ 88 mil. A mesma queda de 30% tira R$ 26,5 mil, mais de 70% de tudo o que a pessoa aportou até ali, e sobra só um ano de aporte antes da troca começar.

 

Aos 25 anos, a perda cabe nos aportes futuros; aos 54, ela come o que já foi aportado.

 

Por essa conta, o AP7 Såfa começa a trocar ações por títulos a partir dos 56. O risco medido em reais cresce com o saldo, e o tempo para recuperar encolhe a cada aniversário.

Ainda assim, a troca é lenta. A parte em ações desce de 100% para cerca de 33% ao longo de 20 anos, um corte médio de pouco mais de 3 pontos percentuais por ano. Numa troca em passos iguais, perto de dois terços da conta continuam em bolsa aos 65.

Cronqvist e Thaler também compararam o padrão com as carteiras montadas pelos próprios suecos. No estudo de 2004, a carteira média de quem escolheu ativamente tinha mais ações suecas, mais fundos de tecnologia e taxa maior que o fundo padrão, e rendeu menos nos três primeiros anos.

O padrão do governo, desenhado para quem não quis pensar no assunto, ganhou da média de quem pensou. O resultado vale para aquela amostra e aquele período, e os autores tratam o dado assim, sem transformá-lo em lei.

 

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III  A Aplicação

O seu fundo padrão

 
 

No Brasil não existe um AP7 Såfa. O INSS paga benefício pela regra de repartição (os trabalhadores ativos de hoje pagam os aposentados de hoje), sem conta individual aplicada em bolsa. A fatia de risco da aposentadoria fica por conta de cada um.

Mesmo assim, todo brasileiro tem um fundo padrão: o lugar onde o dinheiro cai quando ninguém decide. Para muita gente, esse lugar é a poupança ou a conta corrente. Num plano PGBL ou VGBL contratado no balcão do banco, costuma ser o fundo indicado pelo gerente no dia da assinatura.

Esses padrões apontam quase sempre para o lado conservador. Eles costumam nascer da conveniência de quem vende o produto e raramente são revistos depois da assinatura, mesmo quando o titular tem 30 anos de prazo pela frente.

A lição do AP7 Såfa vale como critério. O padrão sueco liga o risco a duas variáveis: o prazo até o uso do dinheiro e o tamanho do piso garantido por baixo da carteira. As duas cabem numa conta feita em casa.

Quatro passos levam o critério para a sua carteira:

1

1. Liste onde está cada real da sua aposentadoria hoje, inclusive o que caiu ali sem escolha.

2

2. Anote quantos anos faltam até você começar a usar esse dinheiro.

3

3. Estime quanto da sua renda futura virá de fonte que não oscila com a bolsa, como o INSS.

4

4. Com prazo longo e piso grande, aceite mais ações; com prazo curto ou piso pequeno, menos.

 
 

A alocação parada há dez anos também é uma escolha, feita por quem você era há dez anos.

 

O passo 3 é o mais esquecido. O sueco pode deixar a pensão-prêmio toda em bolsa porque a pensão de renda segura a base. O brasileiro com direito a benefício do INSS tem um piso parecido, e quem conta com ele pode correr mais risco na parte investida.

O passo 4 pede revisão periódica. O AP7 Såfa ajusta a carteira sozinho a cada ano de idade do titular. Poucos planos brasileiros fazem o ajuste sozinhos, e a revisão anual fica com o investidor.

Vale também ler o regulamento do plano de previdência. Muitos planos oferecem perfis com nomes como conservador, moderado e arrojado, e a troca entre fundos do mesmo plano não gera cobrança de imposto de renda.

A troca leva poucos minutos no aplicativo da seguradora. O que custa caro é deixar a escolha do gerente valendo por décadas sem saber qual carteira ela representa.

100% em ações até os 55 anos. É a carteira de quem nunca escolheu nada na previdência sueca, pela regra do AP7 Såfa (Pensionsmyndigheten, 2010).

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, até qual idade a conta do AP7 Såfa, o fundo padrão da previdência sueca, fica 100% em ações?

A45 anos
B55 anos
C65 anos
D75 anos

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
 
 
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