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Os 2,5% garantidos venceram 85% dos investidores

De 2004 a 2013, só 15% de quem tirou dinheiro do CPF para investir superou os 2,5% da conta parada.

Horizonte de Singapura com prédios residenciais ao amanhecer

O piso de 2,5% e quem saiu dele

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2,5% ao ano. É o mínimo que a conta ordinária do CPF, a poupança obrigatória de todo trabalhador de Singapura, paga por lei, com a bolsa subindo ou caindo.

O CPF (Central Provident Fund, o fundo central de previdência do país) recolhe todo mês uma parte do salário do empregado e outra parte paga pelo patrão. O dinheiro cai em contas separadas, cada uma com uma função e uma taxa própria.

A conta ordinária é a mais usada. Ela paga a entrada e as parcelas da casa própria, cobre a faculdade dos filhos e, se o dono quiser, pode ser aplicada no mercado financeiro.

A taxa dela acompanha a média dos juros de poupança dos maiores bancos locais. Quando essa média despenca, a lei segura o número em 2,5%. Nos anos de juro quase nulo da década de 2010, os bancos da ilha pagavam frações de ponto, e o piso seguiu entregando 2,5% sem falhar um trimestre.

Existe uma porta para tirar parte desse saldo e aplicar em fundos, ações, títulos e seguros. Ela se chama CPFIS (CPF Investment Scheme, o programa de investimento do CPF). O formato atual é de 1997 e herdou programas abertos em 1986.

A promessa da porta é conhecida de qualquer manual. O piso protege, mas limita. Quem aceita oscilação em ativos de risco espera, em troca, um retorno maior quando o prazo é longo.

O governo de Singapura tem os números de quem atravessou essa porta. Ele sabe quanto cada participante tirou da conta, em que produto aplicou e com quanto voltou. Poucos países conseguem medir, com essa precisão, o resultado de uma escolha de investimento feita por centenas de milhares de pessoas comuns.

O resultado medido ocupa a segunda seção desta edição, com a conta das taxas que explica boa parte dele. Antes, vale entender o que o investidor abandona quando tira o dinheiro de um piso garantido.

Logo abaixo, O Princípio mostra como funciona um piso escrito na lei e por que ele pesa mais do que parece numa carteira de dez anos.

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I  O Princípio

O piso escrito na lei

 
 

O Central Provident Fund nasceu em 1955, ainda sob o governo colonial britânico, como poupança compulsória para a aposentadoria. Hoje cobre todo cidadão e residente permanente de Singapura com emprego formal, e a contribuição somada de patrão e empregado passa de um terço do salário para os mais jovens.

Para quem tem menos de 55 anos, o dinheiro se divide em três contas. A ordinária paga casa e estudo. A especial guarda dinheiro para a velhice e não aceita saque antes dela. A Medisave (a conta de saúde) cobre internação e seguro médico.

Cada conta tem a própria taxa. A especial e a Medisave pagam piso de 4% ao ano. A ordinária paga piso de 2,5%, e o número é revisto a cada trimestre pela média de juros dos bancos locais, com o piso valendo sempre que a média fica abaixo dele.

Há ainda um bônus. Os primeiros S$ 60 mil do saldo somado das contas ganham 1 ponto percentual extra, com no máximo S$ 20 mil vindos da conta ordinária. S$ é o símbolo do dólar de Singapura.

Um piso garantido muda a natureza do dinheiro. O saldo da conta ordinária não cai em ano ruim, não depende de gestor e não cobra taxa. Ele se comporta como um título público sem vencimento, que paga juro composto e aceita resgate para os fins previstos na lei.

 

Quem tira dinheiro de um piso de 2,5% só ganha se o novo investimento render mais de 2,5% depois de todas as taxas.

 

Os economistas chamam esse número de custo de oportunidade (o retorno da melhor alternativa abandonada). No CPF, ele tem valor exato e garantido por lei. Na maior parte dos países, a alternativa segura muda de taxa todo mês e o investidor raramente a escreve no papel.

O CPFIS deixa investir o saldo da conta ordinária acima de S$ 20 mil, valor que fica preso como reserva. Os produtos passam por aprovação do próprio CPF: fundos de ações, fundos de renda fixa, seguros com parte de investimento, ações da bolsa local e ouro.

John Bogle, fundador da gestora americana Vanguard, resumiu numa frase a armadilha de procurar o investimento vencedor.

 

“Não procure a agulha no palheiro. Compre o palheiro.” John Bogle, The Little Book of Common Sense Investing, 2007.

 

No cardápio do CPFIS, o palheiro barato teve pouco espaço por muitos anos. Boa parte dos fundos aprovados era de gestão ativa (o gestor escolhe os papéis tentando bater o mercado), vendida por bancos e corretoras com taxa de entrada e taxa anual.

O piso, portanto, não disputa com a bolsa. Disputa com a bolsa menos as taxas, menos os erros de hora de entrar e sair, menos o efeito de vender no pânico. A seção seguinte mostra quanto sobrou dessa conta para quem saiu.

 
 
 
 

II  A Matemática

Dez anos contra 2,5%

 
 

Em 2016, o CPF Advisory Panel (o comitê consultivo nomeado pelo governo de Singapura para revisar o sistema) publicou o resultado de quem investiu pela conta ordinária entre 2004 e 2013. O período cobre a alta das bolsas até 2007, a crise de 2008 e a recuperação dos anos seguintes.

Os números separam os investidores em três grupos:

• 45% tiveram prejuízo e voltaram com menos do que tiraram da conta.

• 40% tiveram lucro, mas abaixo dos 2,5% que o saldo pagaria parado.

• 15% ganharam mais do que o piso.

 

Somados, 85% dos participantes terminaram a década abaixo do piso que abandonaram.

 

Para sentir o peso das taxas, considere um participante hipotético com S$ 50 mil livres na conta ordinária, por dez anos.

Parado, o saldo cresce 2,5% ao ano com juro composto. Em dez anos, chega a S$ 64.004, sem uma única decisão do dono.

Agora ele aplica num fundo com taxa de entrada hipotética de 3%. Dos S$ 50 mil, entram S$ 48.500 na carteira. O fundo ainda cobra 1,5% ao ano de administração, descontado do patrimônio todo mês.

Se a carteira render 4% ao ano antes da taxa anual, o líquido fica em 2,5%. Em dez anos, os S$ 48.500 viram S$ 62.084. São S$ 1.920 abaixo do saldo parado, com o mesmo rendimento líquido anual, só por causa da taxa de entrada.

Caminho, S$ 50 mil, 10 anosSaldo final
Parado na conta, 2,5%S$ 64.004
Fundo líquido 2,5%, entrada 3%S$ 62.084
Fundo líquido 4%, entrada 3%S$ 71.792
Empate com entrada 3%2,81% líquido ao ano

Participante hipotético, juro composto anual, sem saque.

Para empatar com o piso, o fundo precisa entregar 2,81% ao ano já sem a taxa anual, ou perto de 4,3% brutos. A taxa de entrada, cobrada uma vez, pesa como três décimos de ponto por ano durante a década inteira.

Se o fundo render 4% líquidos, os S$ 48.500 chegam a S$ 71.792, S$ 7.788 acima do piso. O ganho existe, mas exige 5,5% brutos por ano, sem vender no pior momento e sem trocar de fundo atrás do campeão do ano anterior.

O relatório de 2016 não decompõe o motivo de cada perda, participante por participante. O comitê apontou dois suspeitos gerais, os custos dos produtos e as compras e vendas feitas na hora errada, e o peso exato dos dois ficou fora da publicação.

 

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III  A Aplicação

Antes de abandonar um piso

 
 

O caso de Singapura serve para qualquer investidor que tem uma alternativa garantida. No Brasil, o papel do piso cabe ao Tesouro Selic, ou ao Tesouro IPCA+ levado até o vencimento, títulos do governo com retorno conhecido na compra.

A pergunta útil muda de forma. Ela deixa de ser se a bolsa vai subir e vira quanto o novo investimento precisa render, depois de todas as taxas, para bater o piso que já está na mão.

Quatro passos fazem a conta em dez minutos:

1

1. Anote a taxa do piso: no CPF, 2,5% ao ano; no Brasil, a taxa líquida do título público equivalente.

2

2. Some as taxas anuais do produto novo: administração, performance e custódia, em percentual ao ano.

3

3. Calcule o retorno bruto que empata: piso mais taxas anuais, mais a taxa de entrada dividida pelos anos que você pretende ficar.

4

4. Compare esse número com o histórico de dez anos do produto, já descontado, e não com o melhor ano dele.

 

O passo 3 é uma aproximação. No exemplo do CPF, dá 2,5% mais 1,5% mais 0,3%, ou 4,3% brutos ao ano, o mesmo valor da conta exata da segunda seção.

O passo 4 pede o horizonte inteiro. Um fundo que rendeu 20% no último ano e 1% nos nove anteriores tem média composta perto de 2,76% ao ano, abaixo do empate líquido de 2,81% da tabela.

Os 15% vencedores do CPFIS existem, e o relatório não diz quem eram nem em que produto estavam. A conta acima não proíbe investir. Ela obriga a escrever o número a bater antes de assinar a ficha do fundo.

Singapura mexeu nas regras depois do relatório. O teto da taxa de entrada dos fundos do CPFIS caiu ano a ano e chegou a zero em outubro de 2020, e a taxa anual dos fundos aprovados ganhou teto mais baixo.

O piso de 2,5% continua igual. A conta do participante ficou mais curta: sem taxa de entrada, o empate cai para 2,5% mais a taxa anual do fundo escolhido.

85%. Foi a fatia dos investidores do CPFIS que, de 2004 a 2013, terminou abaixo dos 2,5% da conta parada (CPF Advisory Panel, 2016).

 
 
Quiz da edição

Segundo o relatório de 2016 do CPF Advisory Panel, que fatia dos investidores do CPFIS terminou a década de 2004 a 2013 abaixo do piso de 2,5% da conta ordinária?

A45%
B85%
C40%
D15%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
 
 
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