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I O Princípio
O piso escrito na lei
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O Central Provident Fund nasceu em 1955, ainda sob o governo colonial britânico, como poupança compulsória para a aposentadoria. Hoje cobre todo cidadão e residente permanente de Singapura com emprego formal, e a contribuição somada de patrão e empregado passa de um terço do salário para os mais jovens. |
Para quem tem menos de 55 anos, o dinheiro se divide em três contas. A ordinária paga casa e estudo. A especial guarda dinheiro para a velhice e não aceita saque antes dela. A Medisave (a conta de saúde) cobre internação e seguro médico. |
Cada conta tem a própria taxa. A especial e a Medisave pagam piso de 4% ao ano. A ordinária paga piso de 2,5%, e o número é revisto a cada trimestre pela média de juros dos bancos locais, com o piso valendo sempre que a média fica abaixo dele. |
Há ainda um bônus. Os primeiros S$ 60 mil do saldo somado das contas ganham 1 ponto percentual extra, com no máximo S$ 20 mil vindos da conta ordinária. S$ é o símbolo do dólar de Singapura. |
Um piso garantido muda a natureza do dinheiro. O saldo da conta ordinária não cai em ano ruim, não depende de gestor e não cobra taxa. Ele se comporta como um título público sem vencimento, que paga juro composto e aceita resgate para os fins previstos na lei. |
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Quem tira dinheiro de um piso de 2,5% só ganha se o novo investimento render mais de 2,5% depois de todas as taxas. | | | |
Os economistas chamam esse número de custo de oportunidade (o retorno da melhor alternativa abandonada). No CPF, ele tem valor exato e garantido por lei. Na maior parte dos países, a alternativa segura muda de taxa todo mês e o investidor raramente a escreve no papel. |
O CPFIS deixa investir o saldo da conta ordinária acima de S$ 20 mil, valor que fica preso como reserva. Os produtos passam por aprovação do próprio CPF: fundos de ações, fundos de renda fixa, seguros com parte de investimento, ações da bolsa local e ouro. |
John Bogle, fundador da gestora americana Vanguard, resumiu numa frase a armadilha de procurar o investimento vencedor. |
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“Não procure a agulha no palheiro. Compre o palheiro.” John Bogle, The Little Book of Common Sense Investing, 2007. | | | |
No cardápio do CPFIS, o palheiro barato teve pouco espaço por muitos anos. Boa parte dos fundos aprovados era de gestão ativa (o gestor escolhe os papéis tentando bater o mercado), vendida por bancos e corretoras com taxa de entrada e taxa anual. |
O piso, portanto, não disputa com a bolsa. Disputa com a bolsa menos as taxas, menos os erros de hora de entrar e sair, menos o efeito de vender no pânico. A seção seguinte mostra quanto sobrou dessa conta para quem saiu. |
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II A Matemática
Dez anos contra 2,5%
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Em 2016, o CPF Advisory Panel (o comitê consultivo nomeado pelo governo de Singapura para revisar o sistema) publicou o resultado de quem investiu pela conta ordinária entre 2004 e 2013. O período cobre a alta das bolsas até 2007, a crise de 2008 e a recuperação dos anos seguintes. |
Os números separam os investidores em três grupos: |
• 45% tiveram prejuízo e voltaram com menos do que tiraram da conta. |
• 40% tiveram lucro, mas abaixo dos 2,5% que o saldo pagaria parado. |
• 15% ganharam mais do que o piso. |
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Somados, 85% dos participantes terminaram a década abaixo do piso que abandonaram. | | | |
Para sentir o peso das taxas, considere um participante hipotético com S$ 50 mil livres na conta ordinária, por dez anos. |
Parado, o saldo cresce 2,5% ao ano com juro composto. Em dez anos, chega a S$ 64.004, sem uma única decisão do dono. |
Agora ele aplica num fundo com taxa de entrada hipotética de 3%. Dos S$ 50 mil, entram S$ 48.500 na carteira. O fundo ainda cobra 1,5% ao ano de administração, descontado do patrimônio todo mês. |
Se a carteira render 4% ao ano antes da taxa anual, o líquido fica em 2,5%. Em dez anos, os S$ 48.500 viram S$ 62.084. São S$ 1.920 abaixo do saldo parado, com o mesmo rendimento líquido anual, só por causa da taxa de entrada. |
| Caminho, S$ 50 mil, 10 anos | Saldo final |
| Parado na conta, 2,5% | S$ 64.004 |
| Fundo líquido 2,5%, entrada 3% | S$ 62.084 |
| Fundo líquido 4%, entrada 3% | S$ 71.792 |
| Empate com entrada 3% | 2,81% líquido ao ano |
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Participante hipotético, juro composto anual, sem saque. |
Para empatar com o piso, o fundo precisa entregar 2,81% ao ano já sem a taxa anual, ou perto de 4,3% brutos. A taxa de entrada, cobrada uma vez, pesa como três décimos de ponto por ano durante a década inteira. |
Se o fundo render 4% líquidos, os S$ 48.500 chegam a S$ 71.792, S$ 7.788 acima do piso. O ganho existe, mas exige 5,5% brutos por ano, sem vender no pior momento e sem trocar de fundo atrás do campeão do ano anterior. |
O relatório de 2016 não decompõe o motivo de cada perda, participante por participante. O comitê apontou dois suspeitos gerais, os custos dos produtos e as compras e vendas feitas na hora errada, e o peso exato dos dois ficou fora da publicação. | |
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