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I O Princípio
A promessa dos 100 anos
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Em 2004, o governo de Junichiro Koizumi aprovou a maior reforma da previdência pública japonesa em décadas. O lema usado pela coalizão do Partido Liberal Democrata com o Komeito prometia um sistema seguro por 100 anos. |
A reforma mexeu nos dois lados do caixa. Na entrada, fixou o caminho da contribuição ao Kosei Nenkin (a pensão dos empregados de empresas): ela subiria um pouco a cada ano até 18,3% do salário, dividida entre patrão e empregado, e pararia nesse número, alcançado em 2017. |
Na outra ponta, criou o ajuste macroeconômico (um redutor automático que segura o reajuste das pensões enquanto a população que contribui encolhe e a expectativa de vida sobe). |
Com a receita travada, o ajuste recaiu sobre o benefício. A lei pôs um piso nesse ajuste: a taxa de reposição (a fatia do salário médio da ativa que a pensão devolve) do casal-modelo não pode cair abaixo de 50%. O casal-modelo da lei é um marido com 40 anos de salário médio e uma esposa que não contribuiu pelo emprego. |
Em 2019, essa taxa estava em 61,7%, segundo a verificação financeira que o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar publica a cada cinco anos. A edição daquele ano saiu em 27 de agosto, cinco semanas depois da eleição, e projetava a taxa descendo para perto do piso de 50% nos cenários com crescimento econômico e abaixo dele nos cenários fracos. |
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Segura por 100 anos, na lei de 2004, quer dizer o caixa do sistema em dia, com a pensão de cada casal ajustada para caber nele. | | | |
Aqui mora o princípio que o relatório de 2019 só traduziu em ienes. A pensão pública funciona como a camada de base de uma carteira de aposentadoria: renda para a vida toda, corrigida e sem risco de mercado. Ela cobre o essencial. O que o casal gasta acima desse piso precisa vir de outra camada, montada pela própria família. |
O Banco Mundial deu forma a esse desenho em 1994, no relatório Averting the Old Age Crisis (evitando a crise da velhice). O texto propôs três pilares: a previdência pública na base, a previdência obrigatória capitalizada no meio e a poupança voluntária no topo. |
No Japão de 2019, o terceiro pilar existia mais na lei do que na carteira das famílias. Mais da metade do patrimônio financeiro delas estava em dinheiro e depósitos, segundo o comparativo de fluxo de fundos do Banco do Japão de 2019. Nos três maiores bancos do país, a poupança comum pagava 0,001% ao ano. |
Com o dinheiro rendendo quase zero, a soma simples do relatório virava a conta literal: cada iene gasto na velhice precisava ser um iene guardado antes. A Matemática refaz essa soma e mostra quanto ela encolhe quando a reserva rende acima da inflação. |
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II A Matemática
54.520 ienes por mês
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O número do relatório saiu da Pesquisa de Renda e Gastos das Famílias de 2017, feita pelo Escritório de Estatísticas do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações do Japão. O recorte era o casal que mora sozinho, com marido de 65 anos ou mais, esposa de 60 ou mais e nenhum dos dois trabalhando. |
Esse casal recebia 209.198 ienes por mês, a maior parte em pensão pública. Gastava 263.718 ienes, somando consumo, impostos e contribuições sociais. O déficit de 54.520 ienes saía da poupança acumulada, todo mês. |
O relatório arredondou o déficit para cerca de 50 mil ienes e o multiplicou por duas durações de aposentadoria. |
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“Se ainda restam de 20 a 30 anos de vida, o déficit total, em cálculo simples, fica entre 13 milhões e 20 milhões de ienes.” Grupo de Trabalho de Mercados, Formação e gestão de patrimônio numa sociedade que envelhece, 2019. | | | |
Com o número exato, a multiplicação dá 19.627.200 ienes em 30 anos. São 360 meses de 54.520 ienes, sem nenhum rendimento sobre o dinheiro guardado. |
| Anos de aposentadoria | Déficit somado |
| 20 anos | 13,1 milhões de ienes |
| 30 anos | 19,6 milhões de ienes |
| 35 anos | 22,9 milhões de ienes |
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Déficit de 54.520 ienes por mês, sem rendimento. |
As palavras “cálculo simples” guardam o detalhe decisivo. A soma supõe que a reserva fica parada durante as três décadas de saque. Aplicada, ela rende enquanto é gasta, e cada parcela retirada mais tarde custa menos no primeiro dia. |
Os economistas chamam essa medida de valor presente (quanto vale hoje uma série de pagamentos futuros, descontado o rendimento do período). Para sacar 54.520 ienes por mês durante 30 anos, a reserva necessária no primeiro dia de aposentadoria depende do juro real (o rendimento acima da inflação): |
• Juro real de 0% ao ano: 19,6 milhões de ienes. |
• Juro real de 1% ao ano: 17 milhões de ienes. |
• Juro real de 2% ao ano: 14,8 milhões de ienes. |
• Juro real de 3% ao ano: 12,9 milhões de ienes. |
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Três pontos de juro real durante o saque tiram 6,7 milhões de ienes da reserva necessária. | | | |
A fase de juntar segue a mesma lógica. Um casal que comece aos 35 anos e queira os 19,6 milhões aos 65 precisa depositar 54.520 ienes por mês com o dinheiro a 0,001%: 30 anos guardando o valor exato do déficit mensal, para gastar o mesmo valor por mais 30 anos. |
Com 3% de juro real na acumulação, o depósito cai para 33.681 ienes. Se os 3% continuarem depois da aposentadoria, o alvo desce para 12,9 milhões, e o depósito mensal fica perto de 22 mil ienes, menos da metade do valor da poupança parada. |
O relatório tratava de médias, e o próprio texto dizia que o déficit muda conforme a família: casa quitada e gasto baixo podem zerar o buraco, e aluguel numa cidade cara pode aumentá-lo. Os 20 milhões descreviam o casal médio da pesquisa de 2017. | |
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