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Os 20 milhões de ienes além da pensão

Um déficit de 54.520 ienes por mês, somado por 360 meses, chega a 19,6 milhões de ienes.

Relatório encadernado sobre mesa de mármore azul-marinho, com ampulheta e estante ao fundo

O relatório de 2019 e a conta do casal aposentado

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20 milhões de ienes. Foi quanto o Grupo de Trabalho de Mercados, comitê do Conselho do Sistema Financeiro ligado à Agência de Serviços Financeiros do Japão, calculou em 3 de junho de 2019 que um casal aposentado precisaria ter guardado, além da pensão pública, para atravessar 30 anos de velhice.

No câmbio daquele mês, a cifra passava de R$ 700 mil. O documento se chamava “Formação e gestão de patrimônio numa sociedade que envelhece”. Era um texto técnico, com gráficos de expectativa de vida e de poupança, e terminava pedindo que cada família planejasse cedo a própria reserva.

Uma frase dele correu o país em poucos dias. Ela dizia que o casal aposentado típico gastava, em média, cerca de 50 mil ienes por mês acima do que recebia, e que o buraco, somado por duas ou três décadas, ia de 13 milhões a 20 milhões de ienes.

O Japão estava a sete semanas de uma eleição para a Câmara dos Conselheiros, a câmara alta do Parlamento, marcada para 21 de julho. A oposição levou a cifra aos palanques, e os programas de televisão repetiam a multiplicação sem o resto do relatório.

Em 11 de junho, Taro Aso, vice-primeiro-ministro, ministro das Finanças e ministro responsável pela própria agência, anunciou que não aceitaria o texto como relatório oficial. Alegou que ele espalhava ansiedade e mal-entendido entre a população e destoava da posição do governo.

A recusa não mudou nenhum número. A pensão do casal seguiu igual, o gasto médio também, e o déficit continuou saindo da poupança todo mês.

Mudou apenas o endereço da conta. Ela saiu do papel oficial do governo e voltou para dentro da casa de cada família japonesa.

Logo abaixo, O Princípio volta a 2004, ano em que o Japão prometeu uma pensão pública segura por 100 anos, e mostra o que um piso público cobre e o que ele deixa de fora.

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I  O Princípio

A promessa dos 100 anos

 
 

Em 2004, o governo de Junichiro Koizumi aprovou a maior reforma da previdência pública japonesa em décadas. O lema usado pela coalizão do Partido Liberal Democrata com o Komeito prometia um sistema seguro por 100 anos.

A reforma mexeu nos dois lados do caixa. Na entrada, fixou o caminho da contribuição ao Kosei Nenkin (a pensão dos empregados de empresas): ela subiria um pouco a cada ano até 18,3% do salário, dividida entre patrão e empregado, e pararia nesse número, alcançado em 2017.

Na outra ponta, criou o ajuste macroeconômico (um redutor automático que segura o reajuste das pensões enquanto a população que contribui encolhe e a expectativa de vida sobe).

Com a receita travada, o ajuste recaiu sobre o benefício. A lei pôs um piso nesse ajuste: a taxa de reposição (a fatia do salário médio da ativa que a pensão devolve) do casal-modelo não pode cair abaixo de 50%. O casal-modelo da lei é um marido com 40 anos de salário médio e uma esposa que não contribuiu pelo emprego.

Em 2019, essa taxa estava em 61,7%, segundo a verificação financeira que o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar publica a cada cinco anos. A edição daquele ano saiu em 27 de agosto, cinco semanas depois da eleição, e projetava a taxa descendo para perto do piso de 50% nos cenários com crescimento econômico e abaixo dele nos cenários fracos.

 

Segura por 100 anos, na lei de 2004, quer dizer o caixa do sistema em dia, com a pensão de cada casal ajustada para caber nele.

 

Aqui mora o princípio que o relatório de 2019 só traduziu em ienes. A pensão pública funciona como a camada de base de uma carteira de aposentadoria: renda para a vida toda, corrigida e sem risco de mercado. Ela cobre o essencial. O que o casal gasta acima desse piso precisa vir de outra camada, montada pela própria família.

O Banco Mundial deu forma a esse desenho em 1994, no relatório Averting the Old Age Crisis (evitando a crise da velhice). O texto propôs três pilares: a previdência pública na base, a previdência obrigatória capitalizada no meio e a poupança voluntária no topo.

No Japão de 2019, o terceiro pilar existia mais na lei do que na carteira das famílias. Mais da metade do patrimônio financeiro delas estava em dinheiro e depósitos, segundo o comparativo de fluxo de fundos do Banco do Japão de 2019. Nos três maiores bancos do país, a poupança comum pagava 0,001% ao ano.

Com o dinheiro rendendo quase zero, a soma simples do relatório virava a conta literal: cada iene gasto na velhice precisava ser um iene guardado antes. A Matemática refaz essa soma e mostra quanto ela encolhe quando a reserva rende acima da inflação.

 
 
 
 

II  A Matemática

54.520 ienes por mês

 
 

O número do relatório saiu da Pesquisa de Renda e Gastos das Famílias de 2017, feita pelo Escritório de Estatísticas do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações do Japão. O recorte era o casal que mora sozinho, com marido de 65 anos ou mais, esposa de 60 ou mais e nenhum dos dois trabalhando.

Esse casal recebia 209.198 ienes por mês, a maior parte em pensão pública. Gastava 263.718 ienes, somando consumo, impostos e contribuições sociais. O déficit de 54.520 ienes saía da poupança acumulada, todo mês.

O relatório arredondou o déficit para cerca de 50 mil ienes e o multiplicou por duas durações de aposentadoria.

 

“Se ainda restam de 20 a 30 anos de vida, o déficit total, em cálculo simples, fica entre 13 milhões e 20 milhões de ienes.” Grupo de Trabalho de Mercados, Formação e gestão de patrimônio numa sociedade que envelhece, 2019.

 

Com o número exato, a multiplicação dá 19.627.200 ienes em 30 anos. São 360 meses de 54.520 ienes, sem nenhum rendimento sobre o dinheiro guardado.

Anos de aposentadoriaDéficit somado
20 anos13,1 milhões de ienes
30 anos19,6 milhões de ienes
35 anos22,9 milhões de ienes

Déficit de 54.520 ienes por mês, sem rendimento.

As palavras “cálculo simples” guardam o detalhe decisivo. A soma supõe que a reserva fica parada durante as três décadas de saque. Aplicada, ela rende enquanto é gasta, e cada parcela retirada mais tarde custa menos no primeiro dia.

Os economistas chamam essa medida de valor presente (quanto vale hoje uma série de pagamentos futuros, descontado o rendimento do período). Para sacar 54.520 ienes por mês durante 30 anos, a reserva necessária no primeiro dia de aposentadoria depende do juro real (o rendimento acima da inflação):

• Juro real de 0% ao ano: 19,6 milhões de ienes.

• Juro real de 1% ao ano: 17 milhões de ienes.

• Juro real de 2% ao ano: 14,8 milhões de ienes.

• Juro real de 3% ao ano: 12,9 milhões de ienes.

 

Três pontos de juro real durante o saque tiram 6,7 milhões de ienes da reserva necessária.

 

A fase de juntar segue a mesma lógica. Um casal que comece aos 35 anos e queira os 19,6 milhões aos 65 precisa depositar 54.520 ienes por mês com o dinheiro a 0,001%: 30 anos guardando o valor exato do déficit mensal, para gastar o mesmo valor por mais 30 anos.

Com 3% de juro real na acumulação, o depósito cai para 33.681 ienes. Se os 3% continuarem depois da aposentadoria, o alvo desce para 12,9 milhões, e o depósito mensal fica perto de 22 mil ienes, menos da metade do valor da poupança parada.

O relatório tratava de médias, e o próprio texto dizia que o déficit muda conforme a família: casa quitada e gasto baixo podem zerar o buraco, e aluguel numa cidade cara pode aumentá-lo. Os 20 milhões descreviam o casal médio da pesquisa de 2017.

 

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III  A Aplicação

A lacuna em reais

 
 

Três anos depois da recusa, o governo japonês adotou a recomendação central do relatório, a de as famílias investirem para a velhice. Em novembro de 2022, o gabinete de Fumio Kishida aprovou o Plano para Dobrar a Renda de Ativos.

A peça principal do plano entrou em vigor em janeiro de 2024: a nova NISA (Nippon Individual Savings Account, a conta de investimento isenta de imposto), com limite de 3,6 milhões de ienes por ano e limite vitalício de 18 milhões por pessoa.

Um casal pode abrigar 36 milhões de ienes livres de imposto, quase o dobro da soma simples de 2019. A iDeCo (a previdência privada individual com contribuição definida) já estava aberta a quase todo trabalhador desde janeiro de 2017.

A conta japonesa vale para quem espera renda pública na velhice. No Brasil, a base cabe ao INSS (o Instituto Nacional do Seguro Social, que paga a aposentadoria do regime geral), com teto para o benefício.

Quatro passos transformam a lacuna num número da família:

1

1. Estime o gasto mensal do casal na aposentadoria, em reais de hoje, com plano de saúde e moradia incluídos.

2

2. Subtraia a renda garantida: o benefício do INSS, que o aplicativo Meu INSS simula, mais aluguel ou pensão certa.

3

3. Multiplique a lacuna por 12 e pelos anos de aposentadoria: o resultado é a soma simples, a conta do relatório japonês.

4

4. Desconte o juro real: com 4% ao ano acima da inflação durante 30 anos de saque, a reserva fica em 58% da soma simples.

 

Um casal hipotético com lacuna de R$ 4.000 por mês mostra o tamanho do alvo. Em 30 anos, a soma simples dá R$ 1,44 milhão. Com 4% de juro real no saque, a reserva necessária no primeiro dia cai para R$ 837.845.

Aos 35 anos, com 30 anos de trabalho pela frente e os mesmos 4% reais na acumulação, o depósito para chegar a esse alvo fica em R$ 1.207 por mês. Sem rendimento real, o mesmo alvo pede R$ 2.327 por mês.

 

Lacuna mensal, vezes os meses de aposentadoria, descontada pelo juro real: a conta define o tamanho da carteira de longo prazo.

 

O Tesouro Nacional criou em 2023 um título com esse formato, o Tesouro RendA+. O investidor compra durante a vida ativa e, a partir do ano de aposentadoria escolhido, recebe 240 parcelas mensais, por 20 anos, corrigidas pelo IPCA (o índice oficial de inflação).

No Japão, o relatório nunca recebeu aprovação formal do conselho. A coalizão de governo manteve a maioria na Câmara dos Conselheiros em 21 de julho de 2019, e Aso ficou no Ministério das Finanças até 2021.

20 milhões de ienes. Foi a soma simples de 30 anos de déficit do casal aposentado médio, a conta que o ministro das Finanças do Japão se recusou a receber (Grupo de Trabalho de Mercados da Agência de Serviços Financeiros, 2019).

 
 
 

Quiz da edição

Quem recusou oficialmente, em 11 de junho de 2019, o relatório que calculava o déficit de 20 milhões de ienes para a aposentadoria?

AO Banco do Japão
BTaro Aso, vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças
CJunichiro Koizumi, ex-primeiro-ministro
DO Escritório de Estatísticas do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações

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